A gestão da ética

Data 20/03/2012

*Por Júlio Pompeu

É possível transformar os comportamentos morais dos funcionários de uma empresa? Há quem duvide, pois, como diz o ditado, “pau que nasce torto, morre torto”. Outros acham que é possível sim, mas pela correção de normas éticas, como um manual de conduta. Nem um, nem outro tem razão. Comportamentos podem ser transformados sim, mas a coerção dos códigos não é a maneira mais eficaz de fazê-lo.

Como fazê-lo então? O primeiro passo é se despir de certas ideias, certos preconceitos, com relação ao comportamento moral. O primeiro é o de que ele vem de berço. Assim, o filho do honesto seria invariavelmente honesto e o filho do bandido um facínora. Basta ver uns poucos exemplos para ver que as coisas não são tão simples assim. Há homens de bem com pais bandidos e bandidos que têm pais honestíssimos, quase heróis.

Da mesma forma, quando dizem que a ética é uma questão de criação, que você aprende em casa. Argumento semelhante ao da herança moral dos pais, mas atribuído à educação. Significa também afirmar que aquele que vem de boa família, com boa criação, gente boa é. Se assim fosse, não existiriam famílias em que um ou mais filhos são exemplos de comportamento, enquanto o outro é a “ovelha negra”.

Em suma, enquanto a primeira linha de raciocínio resume o comportamento moral à genética (bons pais, bons filhos), a outra a transforma em um processo social (educação) possível apenas sob condições muito especiais (junto à família). Mas nem tanto ao céu e nem tanto à terra. Tanto a genética quanto os processos de socialização, sobretudo os havidos na infância, são importantes na definição do caráter. Um não exclui completamente a outra. Também não são os únicos fatores que afetam nosso caráter. Não nascemos moralmente prontos e também nossa educação moral não acaba com o fim da infância, ela continua por toda a nossa vida. É da condição humana uma espécie de eterna indefinição de nosso comportamento, de maneira que seja ele qual for, podemos sempre mudar.

Se fica óbvio, com poucos exemplos, que tanto o exagero no papel da genética quanto no da família na formação moral são erros, por que eles são repetidos com insistência? Porque assumi-los significa apequenar ou anular o papel que outros agentes como a sociedade, a mídia ou a empresa têm para com a formação moral de alguém. Se fosse apenas de berço ou na família que o caráter é forjado, então ninguém mais precisaria se sentir responsável por nada de reprovável que outra pessoa faça, mesmo que tivesse sobre ela influência ou ascendência social.

Se, ao contrário, os fatores que influenciam o caráter são variados, múltiplos são os responsáveis pelo comportamento moral de alguém. Assumir essa responsabilidade compartilhada com outras instituições é o primeiro passo para que uma empresa comece a gerenciar a ética em seu ambiente.

Mas quais são os próximos passos? Nem todos os fatores que moldam o caráter são gerenciáveis, como as causas genéticas, por exemplo, mas mesmo com relação a essas é possível lhes fazer contrapontos, criar forças opostas. Um interessante exemplo disso vem das recentes pesquisas sobre a psicopatia. Ao contrário da imagem criada pelos filmes policiais, vários psicopatas não são assassinos. Poderiam sê-lo com mais facilidade moral que um não psicopata, mas fatores diversos os influenciaram para que isso não acontecesse.

Identificar estes fatores de influência que podem ser alterados e gerenciados pelas empresas é o segundo passo. Apresentarei nos próximos artigos pesquisas e intervenções em ambientes sociais que alteraram, para o bem ou para o mal, o comportamento moral de pessoas de boa família e filhos de gente boa. Aguardem.

* Júlio Pompeu é graduado em Direito e em Filosofia, mestre em Direito e doutorando em Psicologia. Atualmente preside o Conselho de Ética Pública do Estado do Espírito Santo e leciona ética na Universidade Federal do Espírito Santo. Com a finalidade de tornar a filosofia, em especial a ética, acessível ao grande público, oferece cursos e palestras na Casa do Saber do Rio e de São Paulo e em órgãos públicos e empresas desde 2004 sobre Filosofia moderna e contemporânea.