A liberdade e virtude

Data 11/10/2011

* Júlio Pompeu

Qual a melhor forma de conviver? Aquela em que os comportamentos são determinados pelo grupo, premiando as boas condutas e punindo as más, em que o bom companheiro é o que obedece sem questionar estas regras da virtude? Ou aquela em que os indivíduos são livres para agirem como entendem ser a melhor forma, não cabendo à coletividade determinar como alguém deve agir ou pensar? Resumindo: é melhor conviver em um grupo que cultua virtudes ou em um que preza pela liberdade? Este dilema é antigo e, ao mesmo tempo, atual. Ocorre todos os dias em empresas. Deve o patrão determinar como os funcionários se comportarão ou, ao contrário, o melhor seria lhes dar liberdade? O que fazer?

Para os antigos gregos, o dilema era conhecido, pois sabiam que cultivar a virtude em um grupo é o oposto de deixar cada um viver livremente. Apesar do dilema, não havia muitos conflitos, pois a resposta para eles era óbvia: deve-se cultuar a virtude. Às favas com a liberdade individual. O próprio conceito de liberdade individual é algo que não lhes significava muita coisa. Ser um ateniense livre não era fazer o que quiser em Atenas, mas viver a disciplina ateniense definida pelos cidadãos e não por estrangeiros. Ser livre, portanto, era viver numa cidade livre, mas como um cidadão enquadrado em um modo pouco libertário de viver.

A ideia de liberdade individual – aquela em que ser livre é agir de acordo com a própria vontade – é invenção dos modernos (século XV em diante). Seu desenvolvimento e consagração pressupõe que a ideia de virtude como algo determinado pelo Estado ou pelo governante seja atacada. Não foi à toa que a liberdade pela qual lutavam os revolucionários franceses se resumia a lutar contra o poder despótico do monarca. Quanto menos livre fosse o soberano para determinar como viver, mais livre o indivíduo seria e vice-versa. Em suma, a fórmula da liberdade individual dos modernos é a luta contra o rei, soberano ou, na sua forma de luta trabalhista, contra o patrão e mesmo contra toda e qualquer regra imposta – caso dos anarquistas. Sendo assim, o que a modernidade testemunhou foram as lutas entre antigos, defensores da virtude e chamados de conservadores e modernos, defensores da liberdade individual e tidos como liberais.

Nas empresas este dilema demorou a ser colocado na pauta do dia. Dos primeiros anos da era moderna até meados do século XX o que predominou foram concepções conservadoras e, portanto, que cultuavam entre os trabalhadores o que o patrão entendia como virtude. Valores como pontualidade, obediência, subserviência e asseio. Valores que podem ser traduzidos na máxima de Henry Ford: “vocês não são pagos para pensar”.

Dos anos 50, mais ou menos, em diante, as grandes empresas começaram a mudar. Começaram a valorizar mais estruturas flexíveis e ágeis, capazes de se adaptarem a novas situações econômicas e de lucro rápido. Para esta nova empresa, ágil e adaptativa, um novo ambiente de trabalho era necessário, também ágil e flexível. Foi quando o mundo corporativo “descobriu” a liberdade dos modernos. Perceberam que o custo de um ambiente de trabalho onde as virtudes são ditadas pelo patrão é a inibição da criatividade, da iniciativa e da inovação, novas virtudes requeridas dos trabalhadores no fim de século XX.

Hoje encontramos com facilidade os dois modelos. Há empresas tão controladoras quanto a fábrica da Ford de 1903. Nelas os funcionários não podem acessar e-mail que não sejam corporativos, nada de redes sociais, roupas informais e muito menos iniciativa. Estas empresas são sólidos exemplos de conservadorismo, fazendo o mesmo sempre desde muito e até sabe-se lá quando. Outras, como a Google, que se tornou um paradigma de empresas com ambiente de trabalho livre e descontraído, não possuem códigos de vestimenta, horários fixos e muito menos inibição de iniciativas. O ambiente de trabalho não é sisudo e os empregados têm tempo livre para desenvolverem o que quiserem, do jeito que quiserem. Se o produto deste trabalho virar um novo produto, ótimo, se não, ninguém considera que o tempo gasto em tal empreitada foi tempo da empresa desperdiçado. É a liberdade em ação.

Não se trata de esquecer-se das virtudes de cada trabalhador numa empresa de ambiente libertário, mas de permitir que estas virtudes sejam construídas pelos próprios trabalhadores e não ditadas pelo chefe. Novas virtudes como informalidade, liberdade de expressar-se, senso crítico, iniciativa, coragem e criatividade encontram aí solo fértil para se desenvolverem. Muitos querem uma empresa assim, com estas virtudes. Chegam a anunciá-las em sua declaração de missão, visão e valores. Mas na hora de praticá-las, vem o medo do dono. Medo de perder o controle de seu pequeno império de trabalhadores. Medo de deixar de ser o sábio de todos os fazeres e de todas as virtudes. O maior entrave à liberdade na empresa, não é o apego a valores antigos, mas o medo da liberdade do outro, o medo do dilema moderno: mais livre será o trabalhador, quanto menos livre for seu patrão.

Júlio Pompeu é graduado em Direito e em Filosofia, mestre em Direito e doutorando em Psicologia. Atualmente preside o Conselho de Ética Pública do Estado do Espírito Santo e leciona ética na Universidade Federal do Espírito Santo. Com a finalidade de tornar a filosofia, em especial a ética, acessível ao grande público, oferece cursos e palestras na Casa do Saber do Rio e de São Paulo e em órgãos públicos e empresas desde 2004 sobre Filosofia moderna e contemporânea.