A passagem do bastão na família empresária

Data 07/01/2014

*Por Wagner Luiz Teixeira

Pense na seguinte cena: o soberano de um pequeno país reúne seus cinco filhos e diante da multidão ansiosa anuncia aquele que o substituirá no poder. Feito o anúncio, o rei passa ao escolhido sua coroa e seu bastão, representações da supremacia. Mostrando quem está no comando de todas as ações a partir daquele momento.

Agora procure lembrar de outra cena, que provavelmente você carrega de memória: a de uma prova de revezamento do atletismo nas Olimpíadas. O primeiro corredor parte e corre até se aproximar do segundo; este, então, também começa a correr até que os dois ficam muito próximos e neste momento ocorre a primeira passagem do bastão. A prova segue com o segundo corredor transferindo o bastão para o terceiro que, por sua vez, o passará às mãos do quarto e último atleta.

Entres essas duas cenas, qual, na sua opinião, traduz melhor a idéia de sucessão? Se pensar na visão tradicional de poder e de como este passa de uma pessoa para outra (mesmo em sociedades democráticas com o presidente transferindo sua faixa ao presidente eleito), ou de uma geração para outra, você provavelmente responderá que é a primeira.

No entanto, este artigo é para mostrar que o processo de passagem do bastão em uma empresa de controle familiar se assemelha muito mais à segunda. A passagem do bastão não acontece em um momento estanque, mas em uma zona de passagem ou podemos dizer que este é um período de transição, em que ambos correndo em velocidade muito próxima da máxima. Mais perfeita será essa passagem quanto menos os espectadores conseguirem percebê-la. Ou seja, quanto menos o mercado sentir, melhor será esta passagem. A sensação é de continuidade. E a cada atleta que parte, se renovam as expectativas e a torcida para que ele possa dar sua contribuição à vitória da equipe. Continuidade e mudança convivem em harmonia com um objetivo comum.

Assim como na prova de revezamento há uma zona de transição em que deve ocorrer a passagem do bastão. A sucessão no âmbito da família empresária é um processo que se desenvolve ao longo do tempo. Como tal, pode consumir muitos anos, ou até décadas. Ela requer planejamento e deve envolver, direta ou indiretamente, todos os membros da família empresária.

O ponto de partida é a análise da convivência entre duas gerações adultas em uma família empresária. O fundador de uma empresa com 45 ou 50 anos de idade, com filhos na faixa dos 20 e poucos anos, muito provavelmente convive não apenas com o interesse de seus herdeiros pelo negócio mas, também com a opinião deles sobre como as coisas são conduzidas.

Essas opiniões geralmente se traduzem em questionamentos, refletindo o próprio conflito entre as gerações e, naturalmente, expondo divergências previsíveis decorrentes de momentos de vida bem distintos. Podemos estabelecer, portanto, para efeito de nosso raciocínio, que nesse ponto começa a convivência de duas gerações adultas no interior de uma família empresária.

Ao completar 60 anos, o empresário talvez pense pela primeira vez em passar as atividades do dia a dia operacional, mas quer manter grande parte do poder decisório. Nesse momento, quando talvez um dos filhos assuma parte das funções do pai, já terão se passado 20 anos de convivência entre duas gerações adultas, em atividade profissional, na empresa familiar.

Se imaginarmos que o fundador somente passará as decisões quando estiver com 80 anos, estaremos diante de um quadro de praticamente 40 anos de crescente justaposição dessas duas gerações, tanto no âmbito da empresa como no da família.

Portanto, assim como na prova de revezamento, a passagem do bastão começa bem antes dos dois corredores se encontrarem. O processo sucessório se inicia antes de, os membros da família, se darem conta dele. Ou seja, pela própria convivência entre as gerações de que falamos anteriormente.

Nesse caso, porém, o processo não acontece de forma estruturada, nem mesmo planejada. Retornando ao atletismo, para que a equipe tenha um bom desempenho na prova é muito claro que será necessário muito treino.

No entanto, podemos afirmar que, o planejamento é essencial, e que a perpetuação do patrimônio das famílias empresárias depende de um planejamento que envolva a família para este ¨treino¨ coletivo da transição de gerações.


*Wagner Teixeira é Diretor e Consultor da Höft Consultoria

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