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Analistas preveem mercado de trabalho brasileiro mais enxuto em 2015

Data 23/02/2015

O estudante Alex de Oliveira, 26, saiu de seu último emprego em outubro do ano passado. Ele buscou uma nova colocação e conta que chegou a receber ofertas, mas nenhuma o agradou e resolveu dar prioridade para a faculdade.

Aluno de administração do último semestre da Unip, afirma que há cerca de dois anos, quando entrou no seu último trabalho, as propostas eram melhores.

"Naquela época eu também estava estudando e assim mesmo aceitei. A empresa e o salário eram melhores."

Em 2015, os brasileiros devem enfrentar um cenário econômico mais desfavorável do que nos anos anteriores, e isso terá implicações no mercado de trabalho, afirmam especialistas.

As expectativas do mercado reunidas no boletim Focus do Banco Central apontam que em 2015 deve haver uma recessão, inflação em mais de 7% e uma taxa de juros básica de 12,75%.

"É muito possível imaginar um aumento do desemprego", diz o economista André Portela, da FGV (Fundação Getulio Vargas). Segundo ele, já há indicadores que apontam para isso. Ele cita a criação de vagas formais no ano passado, que foi quase três vezes menor do que em 2013.

Além disso, o salário de admissão dos trabalhadores em vagas com carteira assinada aumentou pouco.

Em média, quem conseguiu um emprego em 2014 recebeu um salário 0,92% maior do que no ano anterior.

Mas quem foi contratado em 2013 entrou ganhando 2,59% a mais do que os que haviam começado em 2012.

"Não é um ano para ganhos financeiros no mercado de trabalho. Mas, se a pessoa está em um projeto interessante, que agrega bagagem, vão estar mais preparadas para o momento em que o mercado virar, como aconteceu em 2010", diz Alexandre Benedetti, gerente-executivo de finanças da Talenses, empresa recrutadora de executivos.

A dica dele para quem busca um novo emprego é que "a pessoa não pode procurar só o que ela quer" em uma vaga, mas, sim, contentar-se com o que o mercado está demandando.

De lado

Para o economista da Unicamp Claudio Dedecca o desemprego não irá subir de uma maneira muito abrupta, mas manter-se na mesma faixa em que está (veja tabela).

"O mercado de trabalho perdeu fôlego porque está relacionado à economia. E ela vem andando de lado desde 2012. Agora o mesmo deve acontecer com a geração de empregos", afirma.

Para Portela, as taxas atuais de desocupação são compatíveis com o histórico brasileiro, com a exceção de anos de ajuste posteriores à inflação dos anos 1990.

Nelson Marconi, outro economista da FGV, diz que no passado recente o mercado de trabalho foi mais dinâmico do que o crescimento da produção. Esse descompasso, contudo, não se sustenta por muito tempo e chegou o momento em que os dois devem estar emparelhados.

É o que tem experimentado o estudante de publicidade e marketing Caio Godliauskas, 22, que está sem emprego desde o fim de 2014.

Godliauskas conta que tem procurado emprego desde então, e diz sentir que os empregadores, hoje, procuram candidatos que tenham pós-graduação.

"Às vezes pessoas da mesma idade que eu, mas com mais cursos extracurriculares, passam na minha frente. Neste ano já fiz nove processos seletivos", conta.

Ele diz que em duas ocasiões os selecionadores argumentaram que a empresa abriu poucas vagas por ter uma expectativa ruim sobre a economia.

Carmen Hugoline dos Santos, 26, também enfrenta dificuldades para encontrar a vaga que quer. No caso dela, de balconista, função que ela já desempenhou.

Ela havia encontrado o último emprego andando na rua -a loja colocou um cartaz na vitrine.

"Hoje não acho mais isso. Está bem difícil este ano, já estou procurando há três meses", relata.

Desalentados não entram em levantamentos

No Brasil, a medida mais comum para o índice de desemprego é a chamada taxa aberta, a divisão entre o número de desempregados e o tamanho da população economicamente ativa.

Mas só é considerado desempregado quem efetivamente buscou vaga no período em que os dados da pesquisa foram coletados. Quem desistiu de procurar não entra na conta.

Uma pesquisa feita na região metropolitana de São Paulo mensura as duas taxas, a aberta e a oculta.

A taxa sobe cerca de dois pontos percentuais se forem incluídos aqueles que deixaram de procurar. Em dezembro, o índice aberto foi de 8%, e o total, 9,9%.

A pesquisa é feita pela Fundação Seade e pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

O diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, diz que, caso haja uma piora nos índices de desemprego, os primeiros postos afetados serão os de funções que, nos últimos anos, tiveram grande aumento, como auxiliares e ajudantes.

É justamente onde trabalhavam as amigas Munik Vilela de Oliveira, 22, e Nicole Duarte, 22. As duas eram assistentes em lojas. Elas hoje procuram emprego como vendedoras e ambas dizem que já tiveram mais facilidade para achar uma vaga.

Elas reclamam que há ofertas com condições de trabalho que, na hora da entrevista, não são bem as que foram anunciadas.

Esta notícia foi publicada do site Folha de São Paulo, em 22/02/2015

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