Artigo: Meus colegas de trabalho não acreditam na gentileza

Data 27/05/2014

*Por Luiz Gabriel – Sr. Gentileza

Cada vez mais passamos uma boa parte do nosso tempo trabalhando. Seja em casa, na empresa ou em atividades externas (como visitas a clientes), nos dedicamos a atingir metas, conquistar resultados, atender a solicitações, resolver imprevistos e tomar decisões para resolver problemas. Essas são as prioridades no dia a dia profissional de qualquer um e quase não sobra tempo para outras coisas como, por exemplo, praticar a gentileza.
É muito comum as pessoas dizerem: “- Prefiro responder a todos os e-mails a ter que dividir tarefas com outro colega”. Ou então: “- Mal consigo tomar o meu café, imagina ter que encher copinhos para mais duas ou três pessoas do meu setor.”. Discursos como esses são frequentes, mas se enganam aqueles que pensam que não há um retorno em gestos simples de gentileza.

Como dizia o falecido José Datrino (1917-1996), quando gritava pelas ruas do Rio de Janeiro a sua frase mais conhecida: “- Gentileza gera gentileza”. O processo de conscientização é individual, ou seja, parte de iniciativas pessoais com a intenção de transformar a sua satisfação interna. Não é possível mudar toda uma cultura organizacional ou clima impondo atitudes coletivas. Elas são importantes também, mas se não houver um convencimento singular, a empresa não obterá sucesso com isso.

A mudança de comportamento através da prática da gentileza é notável. Geralmente as pessoas ao redor começam a perceber que há algo diferente. Sua prática promove bem estar emocional, satisfação profissional e sensação de dever cumprido. Da mesma forma que a “fofoca” pode se espalhar pelos setores e até pela empresa toda, a gentileza é capaz de “contaminar” as pessoas em um processo gradual; pode ser lento, mas sua eficácia é garantida quando aplicada corretamente e acompanhada devidamente.

A gentileza é uma das principais ferramentas hoje para a humanização das empresas. O local de trabalho deve ser harmônico e as pessoas precisam se tolerar de uma forma mais leve. Não basta cumprimentar e agradecer quando preciso; é necessário “sentir” o clima favorável e conviver com o bom humor das pessoas.

Foi-se o tempo em que dizer “bom dia” ou “por favor” eram suficientes para garantir a satisfação na Pesquisa de Clima Organizacional. As pessoas querem mais e, com razão, preferem passar boa parte do seu tempo em empresas que acreditem nisso também.

Não é nada confortável sorrir para um cliente o tempo todo e garantir sua fidelidade ao mesmo tempo em que a relação entre os colegas de trabalho ou gestores está desgastada ou comprometida. Nosso cliente interno (colaboradores) deve ser fidelizado em primeiro lugar. A fidelização do cliente externo vai acontecer naturalmente quando o serviço for bem prestado e ele (o cliente) perceber que o vendedor, atendente ou recepcionista, trabalham felizes. Felicidade e gentileza estão diretamente ligadas e esse é o casamento perfeito para que as empresas garantam a satisfação dos seus profissionais. A humanização do trabalho é possível, cabível, indispensável e deveria ser tópico de urgência nas necessidades corporativas. Independentemente do perfil da empresa, pública ou privada, a prática da gentileza e a humanização profissional serão condições necessárias para a garantia de vida de qualquer empreendimento ou corporação no futuro. Enquanto isso, a opressão continua.

Se o ambiente profissional for doente e impregnado de hostilidade, poderá acarretar complicações graves na saúde de seus colaboradores. Antes de detalhar essas consequências, preciso elencar algumas coisas que podem ser classificadas como “comprometedoras” e nada saudáveis:

– Pessoas que não falam com outras, principalmente se forem do mesmo setor.
– Gestores que gritam, berram ou xingam seus liderados ou qualquer outra pessoa.
– Intimidações feitas através de ameaças: “- Cuidado com seu emprego” ou “- Assim seu cargo estará em risco”.
– Fofocas e comentários sem fundamento.
– Desrespeito e intolerância às diferenças e ideias.
– Assédio moral através de horas extras não remuneradas ou acúmulo de tarefas exagerado.
– Críticas feitas na frente de outras pessoas ou de uma forma grosseira.

Esses itens acima não encerram a questão e poderia listar mais uma centena deles. Porém, são recorrentes e muito comuns na maioria das empresas. Os efeitos disso podem ser considerados significativos, principalmente quando afastam pessoas do trabalho por causa de licenças médicas ou o simples absenteísmo. As consequências mais comuns são as doenças laborais como depressão, síndrome do pânico e outras somatizadas, além de enxaquecas, gastrite, úlcera e TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

A causa, na maioria dos casos, é a falta de um ambiente profissional equilibrado e gentil. Não é justo com nossos colaboradores saírem de suas casas e sofrerem tudo isso nas empresas. Cada um de nós tem uma parcela de responsabilidade sim e, independente da iniciativa dos diretores, gestores ou gerentes, a prática da gentileza começa através de atos simples como dividir um café, compartilhar uma vitória ou ajudar algum colega em uma tarefa que não seria de sua obrigação.

Como defendo a prática gentil como um hábito para que realmente faça parte da nossa rotina diária, acredito que possamos transformar alguma coisa, nem que seja nossa consciência em primeiro lugar (já seria muita coisa).
É comprovado cientificamente que um simples ato gentil faz com que o cérebro dispare em nosso organismo alguns hormônios que causam bem estar como a serotonina, endorfina e ocitocina. Imagine esse disparo acontecendo diversas vezes durante o dia, em vários momentos e circunstâncias. No final da tarde, seu organismo estará pronto para voltar para casa sem aquele “peso” ou cansaço característicos dos trabalhadores.

Além do mais, a prática da gentileza dentro do ambiente profissional daria uma satisfação ao ponto de as pessoas desejarem voltar no dia seguinte. É simples visualizar essa afirmação: nosso cérebro passaria a associar o local de trabalho ao bem estar, condicionando a querer voltar e ficar lá. Quem não produziria bem dessa forma? Quem não gostaria de trabalhar em um lugar assim? Qual empresário não gostaria de saber que suas equipes estão lá porque estão satisfeitas, não somente com os benefícios financeiros, mas com os benefícios morais antes de mais nada? E a receita para isso é bem simples: gentileza. Seguem algumas dicas de como “transformar” através da sua prática:

– Atenda o telefone de forma suave e cordial, mesmo que ele toque em um momento inapropriado.
– Responda os e-mails com calma, medindo suas palavras e sempre cumprimentando e agradecendo. Boa educação também nunca é demais!
– Retribua um gesto de gentileza com outra gentileza. Passe adiante essa corrente do bem.
– Se for tomar um cafezinho, traga outro para algum colega. Faça surpresa.
– Agradeça ou elogie alguém publicamente. Isso não faz mal, só aumenta a autoestima de quem recebeu.
– Ofereça ajuda caso algum colega esteja exacerbado de trabalho e você não.
– Seja sincero, mas nunca mal educado. Existe hora certa para criticar ou dar alguma notícia. Espere o momento certo.
– Acredite na gentileza, mas não “jogue na cara” de ninguém um ato de solidariedade. Nesse caso não existe gentileza e, sim, puro interesse.

Parece tudo muito simples e algumas pessoas até dizem que não precisam ser lembradas disso tudo. Porém, essa prática é deixada de lado quando se sentem pressionadas, oprimidas e cheias de trabalho. Esse cenário não vai mudar (a pressão e grande quantidade de trabalho), porém devemos nos adaptar a ele de uma forma mais agradável. Como conviver com as metas arrojadas? Se esforçando. Como aumentar os resultados? Se dedicando. Como ser feliz no trabalho? Sendo gentil. A receita é singela e gratuita. Basta querer.

*Luiz Gabriel Tiago  é escritor, palestrante, consultor em treinamentos e especialista em Gentileza Corporativa. Conhecido como Sr. Gentileza, aborda em suas apresentações, cursos e workshops a gentileza no ambiente profissional, qualidade no atendimento e capacitação profissional.

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