Aumenta a valorização do profissional empreendedor

Data 26/01/2015

Na hora da seleção para uma vaga de emprego, os recrutadores esperam encontrar na bagagem dos candidatos mais do que apenas formação técnica e experiência. Valores como criatividade, boas ideias, visão estratégica, capacidade de enxergar mais longe, inquietude e fazer mais do que o ‘dia a dia’ precisam aparecer. Além da ausência de medo ao colocar tudo isso em prática para se arriscar na defesa de uma ideia. O perfil, típico de quem quer inovar com um novo negócio, tem se valorizado nas empresas, fora dos níveis gerenciais e executivos. São os intraempreendedores ou empreendedores corporativos. “Eles têm o que eu chamo de ‘raiva criativa’”, define a presidente da consultoria de recursos humanos Grupo Foco, Eline Kullock. Para ela, esse processo passa por ter uma boa ideia e levá-la adiante. “A pessoa tem de ser capaz de convencer o chefe ou a organização.”

Cerca de 70% das empresas que procuram a consultoria de Eline se interessam pelo perfil “empreendedor”. Na MSA Recursos Humanos, que trabalha com recrutamento para diferentes posições, o cenário é parecido. “Mais de 50% das vagas têm exigências ligadas a um profissional focado em resultados”, conta o sócio Rodrigo Sion. Segundo ele, os gestores buscam pessoas abertas a riscos e com visão geral do negócio.

Apesar disso, o termo empreendedor corporativo ou intraempreendedor ainda carece de aceitação dentro das empresas. “Aparece como inovação, pensar fora da caixa, porque muitos gestores de RH têm medo de falar em empreendedorismo e os colaboradores saírem para montar negócio”, diz o professor de empreendedorismo do Insper Marcelo Nakagawa.

Estratégia

Quando não garimpava talentos para si, a presidente do Grupo Foco tropeçou na jornalista especializada em marketing Valéria Lima Salem, de 37 anos. “Eu tinha saído de um processo seletivo de uma empresa concorrente do Foco e não fui contratada, mas eu tinha certeza de que seria útil. Então pensei: ‘se não vou ser útil lá, vou ser útil no mesmo segmento’”, relembra Valéria.

Ela deu início a uma busca por companhias de recrutamento e seleção e caiu no site do Foco. Não gostou do que viu. “Eu achei o site muito ruim, então procurei quem era a presidente da empresa e mandei um e-mail para ela”, conta, rindo. Eline gostou da impertinência. Algumas reuniões depois, com um plano de comunicação em mãos, a jornalista já era parte da consultoria. “Eu vi alguém com ‘raiva criativa’”, acrescenta Eline.

Há também quem gostaria de ter um perfil empreendedor, mas não reúne as qualidades necessárias para isso. Nesses casos, o diretor da Faculdade de Administração da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Silvio Passarelli, acredita que a formação em cursos que favoreçam o entendimento da lógica empresarial, como administração de empresas, pode ajudar. Outro ponto a vencer são os “paradigmas internos”, como timidez e medo de arriscar. De acordo com Eline, resolver isso não é simples. “Precisa ter autoconhecimento”, reflete. Passarelli concorda. “Em alguns casos, terapia ajuda.”

Sem receita

A maneira de agir deve ser analisada com base no ambiente e na situação da organização. “De repente é preciso ter uma visão tática para promover mudanças em ambientes com alta resistência às mudanças, e não audácia e coragem”, avalia o professor do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral Cláudio Boechat.

Para Passarelli, quem é muito empreendedor pode até sofrer com restrições. “Chamam de puxa-saco, falam que estão ‘querendo aparecer’, levar vantagem, mas é algo natural da pessoa, não há intencionalidade”, considera. Porém, o professor Nakagawa alerta para exageros. “Às vezes, até atrapalha ser muito empreendedor. É preciso sempre o equilíbrio entre a execução de acordo com as regras e a busca por novos resultados.”

Mas isso não é motivo para se intimidar. Ao contrário. “Pelas perspectivas para 2015, todos que querem manter o emprego deveriam se preocupar em empreender mais, porque vai ser um ano muito difícil para a economia”, acrescenta.

Para Nakagawa, as empresas tenderão a manter pessoas que tragam mais resultados com menos recursos. “E é aí que entra essa capacidade de inovação, de empreender, olhando a empresa onde você trabalha como seu negócio.”

Características do colaborador empreendedor

Tem boas ideias – É capaz de sugerir inovações que alavanquem o negócio; é bem visto pelos gestores

Pensa como dono –  “Se fosse meu negócio o que eu faria?” Esta é a pergunta que deve guiar o intraempreendedor

É bem relacionado – Tem bom relacionamento interpessoal e acredita no que está propondo, o que é fundamental

Enxerga mais longe – Pensa em longo prazo e percebe novas demandas, o que traz benefícios à carreira

Tem visão estratégica – Sabe usar a ferramenta certa no momento correto

Foca em resultados
-Tem foco e nitidez do caminho e de onde quer chegar

Vai além do dia a dia
– Faz mais do que sua função, pavimentando uma carreira de sucesso; equilíbrio é a chave

Sempre se desafia –
É destemido ao correr riscos por uma boa ideia, o que é a alma do empreendedor corporativo


Essa notícia foi publicada no site Estadão, em 19/01/2015

Comentários