Carreiras e profissões com prazo de validade

Data 31/03/2014

*Por Renato Bernhoeft

O glamour e o fascínio, que envolvem algumas atividades e segmentos do mercado consumidor, não permitem, muitas vezes, transparecer os desafios que as mesmas representam para todos aqueles que dele dependem ou possuem um forte envolvimento.

Referimo-nos aos artistas, modelos publicitários ou de beleza, esportistas e até alguns profissionais liberais. São algumas das carreiras e profissões que apresentam características muito transitórias, tanto no mercado de trabalho como do consumo.

O desafio é ainda maior para pessoas que foram transformadas em personagens – criaturas públicas muitas vezes dissociadas da figura humana – e cuja existência, atitudes e comportamentos são transformados em um produto que é oferecido ao mercado com prazo de validade previamente estabelecido.

Matéria publicada pela revista “Veja”, sob o título “A segunda vida”, descreve e analisa a história e desafios de algumas modelos brasileiras que obtiveram muito sucesso nas passarelas da moda. “Elas tem quase dez anos de profissão, viajaram o mundo inteiro a trabalho e estão com um pé na aposentadoria – isso tudo aos 20 e poucos anos. Estamos falando, claro, das modelos: grandes nomes da geração de brasileiras que invadiu as passarelas do mundo na década passada e estão desembarcando no Brasil de mala e cuia, empurradas do alto do pódio por uma nova leva de menininhas altas, magras e muito mais jovens”.

O grande desafio para todos os profissionais que percorrem um caminho similar ao das modelos é tomar consciência da aproximação, ou até do momento, em que deve se reinventar. E isto bem antes de se tornar uma figura obsoleta na profissão escolhida. Ou seja, conseguir sair ainda no auge da carreira e não aguardar o período da decadência.

E mais importante ainda, encontrar uma nova atividade onde possa manter seu brilho, autoestima e, de preferência, compatível com algum aspecto da sua experiência anterior. Para agentes e profissionais relacionados com este mundo da moda a transição nem sempre é um processo fácil. Mas ela se mostra inevitável.

No mundo dos esportes alguns dos nomes que podem ser lembrados, como referências nesta atitude e sabedoria de afastar-se no auge de uma carreira, é possível relacionar Pelé, Gustavo Borges, Zidane, para ficar apenas com alguns dos nomes mais conhecidos.

A grande lição que todas estas experiências nos podem transmitir, e elas se aplicam a todas as atividades humanas, é a importância de compreender que existe um momento em que devemos nos desprender de alguma posição, carreira ou atividade. E, o ideal é fazer isto quando ainda estamos no auge, evitando uma saída melancólica. O que pode até se tornar motivo de pena e lástima dos demais.

É um bom lembrete também para empresários, executivos e outras categorias profissionais que se empolgam com o poder – ou status – que lhes é “emprestado” pelas corporações ou mercado. E esta iniciativa não está relacionada diretamente a questão da idade. Mas, acima de tudo, pela necessidade de preservação da autoestima.


*Renato Bernhoeft é fundador e presidente do conselho da höft consultoria – transição de gerações. Atua como consultor e palestrante no Brasil e no exterior. Também é articulista e autor de 16 livros sobre empresas familiares, sociedades empresariais e qualidade de vida.

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