Com excesso de mão de obra, geração Y chinesa se preocupa com futuro

Data 22/07/2013

Gotas de suor escorrem pelo rosto de Yang enquanto ele mexe numa pilha de currículos. Na manhã de um domingo, ele e outras centenas de recém-formados – além de um grupo grande de pais ansiosos – lotam os estandes de recrutamento no ginásio dos trabalhadores de Pequim, em uma das muitas feiras de emprego da capital chinesa. O ar é mais quente e abafado dentro do que fora.

Yang, que só se identificou pelo sobrenome, passa rapidamente por tendas de seguradoras, imobiliárias e da Beijing Auspicious Culture Communications. Pôsteres do lado de fora de cada uma das barracas descrevem os requisitos básicos para operadores de telemarketing, gerentes de RH e organizadores de eventos, mas Yang não está interessado. Ele se formou na Universidade de Tecnologia e Negócios de Pequim neste ano com um diploma em administração internacional, e ainda espera encontrar um emprego em uma multinacional desse setor. Ele estima que metade da sua turma de 2013 ainda está procurando emprego – todos cientes de que a imprensa estatal da China já denominou repetidamente que este ano será “a temporada mais difícil de encontrar empregos para recém-formados”.

Ao longo da década passada o governo chinês incentivou a expansão rápida da educação superior. Assim, os dirigentes do país pretendem melhorar a força de trabalho e afastar a economia da indústria de salários baixos. Neste ano, 6,99 milhões de estudantes se formaram em universidades na China, um aumento de 190 mil em relação ao ano passado. É quase quatro vezes o número de formados 10 anos atrás. Mas a demanda por jovens profissionais na China não aumentou na mesma velocidade. Um estudo do governo do ano passado indica que a taxa de desemprego de recém-formados entre 21 e 25 anos era de 16%, quatro vezes a taxa de desemprego oficial das áreas urbanas.

Nos últimos meses, a economia da China desacelerou para o que parece ser o nível mais baixo dos últimos 20 anos; o crescimento do PIB no segundo trimestre caiu para uma estimativa de 7,5%. As contratações também parecem ter diminuído. O Ministério da Educação entrevistou 500 grandes empresas chinesas em fevereiro sobre seus planos de recrutamento. O ministério estima que 15% menos posições serão oferecidas neste ano, em relação ao ano passado.

A Sra. Cai, uma mulher de 50 anos vestindo uma blusa verde e calça marrom, também caminha pela feira de empregos – sem o conhecimento da sua filha, que acabou de se formar em finanças. Mas Cai sente a obrigação de ajudar, ou tentar ajudar, as perspectivas da sua filha única, para a confusão dos recrutadores. Ela está ocupada coletando panfletos em um dos estandes quando o Sr. Zhang, de cabelos grisalhos, passa por ela. Ele é um pai dando uma volta na feira, com os currículos do seu filho na mão.

Yang, o formado em administração internacional, diz que espera conseguir um salário inicial de 3 mil renminbi (US$ 487). Outro profissional em busca de emprego, que estudou desenvolvimento de software, diz que 2.500 renminbi (US$ 405) seria suficiente. O valor é comparável ao salário médio de um trabalhador de fábrica, que a organização governamental All-China Federation of Trade Unions calculou ser 2.2290 renminbi (US$ 372) em 2012. As baixas expectativas salariais também indicam que a grande oferta de recém-formados na China diminuiu seus valores no mercado de trabalho.

Mesmo com a feira de empregos lotada, ainda é comum escutar recrutadores chineses reclamarem que eles não conseguem encontrar os candidatos certos. O Sr. Gao, um recrutador para uma distribuidora de roupas, está em pé ao lado de um pôster do fundador da companhia apertando a mão do presidente Xi Jinping (a julgar pela cintura de Xi, ele está muito mais jovem). Gao busca representantes de vendas e coletou dúzias de currículos em algumas horas, mas ele lamenta o calibre e a atitude dos candidatos. O fator mais essencial no processo de contratação não é a formação do estudante, mas a "capacidade" deles – ou a disposição para trabalhar bastante e aprender novas habilidades. "A China tem muitas pessoas talentosas, mas é difícil encontrar profissionais persistentes", diz.

Um discurso frequente entre os recrutadores é que o sistema educacional da China estimula a memorização, e não a solução de problemas, o que gera pessoas melhores em passar em provas do que em trabalhar de fato. Em um estudo de 2013 com empresas americanas que têm operação na China, os participantes disseram a Câmara de Comércio Americana de Xangai que a pouca oferta de profissionais e de gerentes qualificados eram sua terceira e quarta maiores preocupações, respectivamente (logo após o aumento do custo de trabalho e a desaceleração da economia chinesa).

Um estande na feira de empregos de Pequim anuncia posições para tradutores e gerentes de logística na África e não atrai uma multidão muito grande. No entanto, a Sra. Pan, uma pequena recrutadora que se abana com um panfleto que contém o mapa do continente africano, não está preocupada. "Todo ano a maioria dos nossos candidatos aparecem na última hora. Depois que os recém-formados ficam bastante desesperados e sentem que não têm mais opções", diz.

 


*Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 16/07/2013

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