Com que freqüência sua empresa discute a diversidade?

Data 20/10/2010

 

*Por Alba Cantanhede-França

Desde Henry Ford até os dias atuais, constatamos que as mudanças, ao longo das décadas, refletem as diferentes transformações pelas quais a sociedade passou e, consequentemente, sua influência nas relações entre os profissionais e as empresas. Se em 1900, o profissional era mais um, hoje, ele é a “graxa da engrenagem”. Não é só por um bônus atraente que os profissionais optam por uma empresa em detrimento de outra. Mesmo em início de carreira tem-se privilegiado relações de coexistência, convívio, troca de ideias, aprendizado e, principalmente, igualdade de oportunidades para todos. Trabalhar em uma empresa que está atenta às diferenças e, como estas se dão entre profissionais, são como “gotas de ar” que dão peso na balança na busca por um espaço de atuação.

É comum presidentes, diretores e gerentes afirmarem que em suas empresas não existe nenhum tipo de preconceito, seja ele qual for – etnia, gênero, religião ou opção sexual. Entretanto, os olhares mudam e o desconforto aparece quando são citados exemplos dos mais variados e simples. Percebemos então, o quanto, na maioria das vezes, o indivíduo sequer reflete a respeito de suas ações frente ao diferente.

Somos como papagaios, repetimos falas, conversas e nem ao menos nos perguntamos: se essa atitude fosse dirigida a mim, eu estaria aqui rindo, julgando, apontando o dedo? Certamente, que não. Infelizmente, a solidariedade em situações de discriminação só acontece quando somos atingidos. Já, ao conversarmos, individualmente, com os demais profissionais da empresa, o preconceito se materializa e o papel da organização se torna relevante e fundamental.

Recentemente, conversando com duas profissionais femininas, do setor automotivo, elas comentaram o quanto é desconfortável quando a empresa não tem de modo claro uma política ou um canal interno para se discutir a questão da diversidade. Um exemplo que se tornou corriqueiro e, portanto, normal, são as piadinhas desagradáveis que retratam situações envolvendo gays, masculinos ou femininos, verbalizadas pelos “chefes” com olhar direcionado ao profissional, não assumido, mas que todos acreditam ser gay.

Assumir ou não sua opção sexual é resultado também da maneira como a empresa aborda e trata o assunto internamente. Sabemos que a estrutura reflete as ideias e os valores dos seus líderes, e a omissão frente ao tema ou o claro preconceito dificilmente dará qualquer chance ao profissional de assumir sua opção.

Afinal, quem é que deseja ser alvo de olhares e cochichos? Aos gays, o olhar do preconceito. Aos portadores de deficiências especiais, a piedade. Ao religioso, a intolerância. Aos negros, a sua superioridade. Paramos por aqui, porque senão a lista não terá fim.

Conflitos internos existem, a questão é saber como lidar com eles. Em geral, são tratados de duas maneiras: os envolvidos que se entendam, afinal, suas divergências não são “problemas” da empresa; ou demite-se, quando o conflito extrapolou o limite do aceitável. Quais as implicações decorrentes destas diretrizes? Na primeira, cria-se uma animosidade entre profissionais, que muitas vezes é a causa direta de rixas entre áreas dividindo a empresa em pequenas facções. Na segunda, aplica-se o conhecido “cortar o mal pela raiz”. Entenda-se, de que mal? Aquele que desconhecemos e, mesmo assim julgamos?

Atuar em um ambiente corporativo que me permite ser quem sou, reforça não só a minha autoestima, como também fortalece o respeito entre indivíduos. A aproximação entre setores antagônicos ou mesmo por distanciamento físico em uma organização, quando envolvidos em atividades específicas, gera a cooperação e, naturalmente, o respeito. E, como resultado final, a coexistência. As diferenças perdem forças diante do conhecimento, integração e comunicação. É preciso estimular o contato com o outro, aquele que é diferente de mim.

Uma empresa que estimula a diversidade não está promovendo apenas ações internas. Normalmente, estas extrapolam os seus muros, na medida em que os profissionais passam a refletir suas atitudes. Afinal, quem já não passou em sua vida privada ou mesmo profissional por algum constrangimento, que nada mais era do que um julgamento velado?

Esse artigo foi publicado na HSM Online, em 20/10/2010 e foi escrito por Alba Cantanhede-França, diretora da Atmann Consulting e responsável pelo Blog DiversidadeBrasil. Site: www.atmannconsulting.com.br. Blog: http://blog.diversidadebrasil.com.