Como as empresas estão lidando com a AIDS no ambiente corporativo?

Data 01/06/2013

1- Em 2012, o primeiro estudo brasileiro sobre prevenção e tratamento a Aids, nas empresas, divulgou dados alarmantes sobre o engajamento das organizações em ações de tratamento e prevenção ao vírus HIV. Como você entende esse panorama? A falta de movimentação por parte das organizações para o combate a Aids ainda reflete certo preconceito e falta de informação envolvendo o assunto?

Marcela Arruda:
O combate à AIDS no ambiente de trabalho ainda enfrenta preconceito e discriminação. Dentre as respostas recolhidas durante a pesquisa do Ministério da Saúde com empresas, para justificar a não realização de ações de prevenção das DST e aids no ambiente de trabalho, tivemos respostas como: "Na minha empresa, todas as pessoas são casadas", "Aqui na empresa só tem um homossexual", "A minha cidade é pequena e não tem aids por aqui". Essas respostas, são exemplos claros e preocupantes da desinformação sobre o assunto e, apontam o quanto ainda precisa ser feito para incentivar o desenvolvimento de programas de prevenção e informação sobre a doença no País.

O estudo a que você se refere é a primeira ampla pesquisa no País a apresentar um panorama das ações de prevenção à AIDS desenvolvidas por pequenas e médias empresas no Brasil. Foram entrevistadas 2.486 empresas de todas as regiões do País, o que representa cerca de 400 mil trabalhadores.

Não consideramos que seja uma falta de movimentação por parte das organizações em relação ao tema, já que 64,5% das empresas pesquisadas considerem que o tema DST e aids deve ser discutido no local de trabalho. No entanto, apenas 14% realizaram ações e programas sobre essas doenças em seus ambientes de trabalho nos últimos 12 meses.

2 – Quais dificuldades foram levantadas junto as empresas que não investem nesse tipo de ação?


Marcela Arruda:
Grande parte das empresas (47,8%) relatou falta de necessidade como motivo para não realizarem ações, projetos e programas sobre HIV, AIDS e outras DSTs. Cerca de 23 % das empresas explicou que ações de prevenção não são prioritárias e 13% demonstrou falta de interesse. Esses números nos mostram a necessidade de um trabalho contínuo de mobilização e conscientização junto às empresas sobre a questão da AIDS e outras DST no local de trabalho.

3 – A maior parte das empresas sabem lidar com funcionários portadores do vírus HIV? Existe alguma legislação ou programa do governo que apoie as organizações que dão suporte aos colaboradores que possuem a doença?


Marcela Arruda:
Nas empresas que relataram desenvolver atividades, destacam-se os seguintes dados:

91% divulgaram os modos de transmissão e prevenção da infecção pelo HIV;
89% incentivaram o uso de preservativos;
81% contrataram profissional para realizar palestras sobre o tema;
60% apoiaram o aconselhamento e a testagem voluntária;
50% distribuíram gratuitamente preservativos.
Cerca de 31% afirmaram realizar ações também junto a comunidade.

A preocupação com a questão da AIDS nos locais de trabalho levou o Ministério da Saúde a criar, em 1998, O Conselho Empresarial Nacional para prevenção ao HIV, aids – CEN Aids, formado por 16 grandes empresas. A ideia é combinar todos os esforços públicos e privados para conter a disseminação do HIV no Brasil e propor um espaço nas empresas para falar abertamente sobre as questões de sexualidade e DSTs no ambiente de trabalho, adequando a ação às dinâmicas das empresas.

Além disso, o Ministério da Saúde encaminhou à apreciação da Câmara dos Deputados a Recomendação 200 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que reúne uma série de orientações para promover ações de proteção à saúde do trabalhador. São princípios para nortear políticas e programas de responsabilidade social na gestão empresarial voltados à prevenção das doenças sexualmente transmissíveis (DST) e AIDS no mundo do trabalho.

4 – Você acredita que o engajamento das empresas com essa causa pode efetivamente ajudar seus funcionários a enfrentarem esse desafio?

Marcela Arruda:
Não temos dúvidas em relação a isso. O engajamento das empresas irá ajudar na qualidade de vida de seus funcionários sejam soropositivos ou não. Propomos que a discussão do tema nas empresas leve em conta não apenas os direitos humanos de quem vive com HIV/aids, como também a não discriminação no ambiente de trabalho, a confidencialidade sorológica da pessoa que vive com HIV, e a promoção do acesso a programas de prevenção, tratamento e atenção.

5 – Pode-se afirmar que as empresas também estão cumprindo seu papel social ao realizar ações como essas?

Marcela Arruda: Sim, o papel social das empresas ao discutir a questão do HIV e da aids passa pela promoção da solidariedade e pelo combate à discriminação. Esses são instrumentos que a sociedade dispõe e que podem ser incorporados pelas empresas para minimizar o sofrimento das pessoas soropositivas. Além disso, é necessário que esse manejo dos casos de AIDS nas organizações sejam conduzidos segundo os preceitos da ética e do sigilo.

Devem ser discutidos, também, a questão da demissão sem justa causa, o direito a ajustes razoáveis em caso de demissão e a não obrigatoriedade de testes para o HIV como condição para admissão também são abordados no documento.

6 – Em sua opinião, por que é importante que as empresas ofereçam programas de apoio aos portadores do vírus HIV e também ações de prevenção e combate a Aids? Quais resultados as empresas que investem nesses programas podem obter?

Marcela Arruda:  As empresas têm uma responsabilidade social junto à comunidade e a seus funcionários. Além disso, o oferecimento de programas de apoio aos portadores do vírus de HIV e o trabalho de prevenção junto aos funcionários representa um reconhecimento dos possíveis impactos imediatos, em médio ou longo prazo causados à economia da empresa pelo HIV. Essa conscientização também propicia uma melhor administração dos custos e quedas de produtividade decorrentes das ausências provocadas pela doença.
 


Como as empresas estão lidando com a AIDS no ambiente corporativo?

*Marcela Arruda é Assessora Técnica do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

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