Cresce a adesão das empresas ao modelo de home office

Data 13/02/2013

O Censo 2012 jogou luz sobre uma tendência que muitos acreditam inevitável, mas que ainda não havia sido devidamente medida: o home office. Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 30 milhões de brasileiros trabalham em casa, consolidando um movimento que começou com empresas de tecnologia e hoje é engrossado por profissionais de diferentes segmentos da economia.

A qualidade de vida dos colaboradores e a redução nos custos para os empregadores são os principais motivos apontados para o crescente número de pessoas que passaram a trabalhar remotamente. Para quem aderiu ao modelo, outro fator importante é o aumento da produtividade. Levantamento da empresa de recrutamento Monster, feito com 1.200 participantes, constatou que 51% dos entrevistados acreditam que o trabalho renderia mais se feito home office.

O dado é corroborado por recente estudo da Universidade de Stanford, no qual os pesquisadores avaliaram o desempenho de 250 colaboradores de uma empresa chinesa de telemarketing. Metade dos profissionais trabalha em casa quatro dias por semana, enquanto o outro grupo segue todos os dias para o escritório. O resultado apontou que 13% dos colaboradores remotos aumentaram o desempenho e fizeram mais ligações telefônicas, aumentando a produtividade e o ganho da empresa.

A percepção é sentida também pelas empresas brasileiras. Na Unilever, onde a prática de home office começou há quatro anos, a diretora de Recursos Humanos para a América Latina, Lucyane Rezende, destaca a redução dos custos e o ganho de qualidade de vida dos profissionais como motivadores, com consequentemente aumento da produtividade. A iniciativa também se mostra um diferencial na retenção de talentos. “Para nós, tanto faz se a pessoa está em casa ou no escritório, o importante é que ela cumpra com suas responsabilidades”, diz.

Uma das beneficiadas com a possibilidade de trabalhar em casa duas vezes por semana é Marina Miranda, gerente de Treinamento da Unilever. Morando em Campinas e trabalhando em São Paulo, ela diz que o principal benefício é a possibilidade de continuar no interior, onde a qualidade de vida é melhor. “Além disso, ganho quatro horas para outras atividades, tempo que perderia no trânsito até chegar ao escritório”, argumenta. Ela cita ainda o aumento da produtividade. “O trabalho rende mais e eu consigo me organizar melhor”. Na Unilever, a executiva tem a opção de escolher quais dias trabalha em casa. “Podem variar, mas, normalmente, fico em casa às segundas e sextas”, conta.

Outra empresa que adota o home office é a Philips. De acordo com a vice-presidente de Recursos Humanos, Alessandra Ginanante, 85% dos colaboradores administrativos (que não atuam em fábrica) trabalham no sistema fully mobile ou mobile, trabalhando de casa em, pelo menos, 20% do tempo. “Este tipo de flexibilidade cria um ótimo ambiente que inspira e envolve todos os funcionários a trabalharem em conjunto de forma mais eficiente”, diz a executiva.

Na Deloitte, além do home office, os colaboradores podem trabalhar em outros lugares, como restaurantes com acesso à internet ou mesmo em espaços de trabalho de clientes. Segundo o diretor de RH, Roberto Sanches, a prática, que ocorre informalmente desde a criação da consultoria, ganhou força nos últimos seis meses. O executivo diz que antes de liberar um colaborador para trabalhar nessa modalidade, a empresa analisa as reais condições para que isso funcione bem. “Avaliamos se a pessoa tem um espaço adequado em casa ou onde vai trabalhar, além de orientá-la com palestras sobre gestão de tempo, pois ela passa a trabalhar por entrega de projetos e não mais por horas”, salienta.

No Ibope foi instalado um projeto piloto com os profissionais da área de Recursos

Humanos. Mário Navas, diretor de RH do instituto, trabalha em casa há um ano. Para ele, analisar cada caso é fundamental para que a prática seja um sucesso e cresça ainda mais nas empresas. A meta do Ibope é que 16% dos quase 2.500 colaboradores possam trabalhar home office em alguns anos.

De acordo com Alvaro Mello, presidente da BSP – Business School São Paulo e da Sobratt (Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades), o estudo inicial que as empresas fazem é fundamental. Para ele, a empresa tem de analisar o perfil da pessoa, o seu nível de comprometimento e a característica da função a ser desempenhada. “Além disso, o ambiente em que o colaborador vai trabalhar precisa ser adequado, se possível com isolamento acústico”, sugere.

Os obstáculos legislativos do trabalho em casa

Na opinião dos executivos de RH, o home office só tende a crescer no País. “É um caminho sem volta, não tem como não aderir”, avalia Lucyane Rezende, diretora de Recursos Humanos da Unilever para a América Latina. Para ela, no entanto, alguns obstáculos precisam ser superados para que a prática realmente se torne comum, e um deles é a questão legal.

De acordo com o artigo 72 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), todo profissional que não exerça cargo de confiança, em estabelecimentos com mais de dez trabalhadores, tem a obrigação de marcar ponto manual ou eletronicamente. Caso ele trabalhe fora da empresa, diz a CLT, o profissional deverá anotar as horas em uma “ficha ou papeleta”. “Aqui, nós não ampliamos o programa para 100%, justamente porque não controlamos o horário de ninguém”, diz ela, referindo-se aos colaboradores dos setores administrativos.

A empresa optou, então, por oferecer o programa aos profissionais de nível de coordenação, cumprindo o que determina a CLT, uma vez que esses cargos são considerados de “confiança”. Pensando nos demais, a Unilever criou programas alternativos para compensar, como o “Friday free”. “A pessoa trabalha uma hora a mais de segunda a quinta e pode sair ao meio-dia na sexta”, exemplifica.

Outro obstáculo a ser vencido é a resistência que alguns chefes ainda têm em relação à prática. Para Lucyane a ideia de perder a “supervisão” dos colaboradores causa certo desconforto para alguns deles. “Há líderes que mostram essa insegurança, mas tudo é uma questão de adaptação e de trabalhar esses mitos internos”, completa.

 

*Essa notícia foi publicada no site Canal RH, em 6/2/2013

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