Cresce a preocupação com segurança

Data 18/11/2013

Na noite de terça-feira passada, Thomas Kudsk, 'head' de relações com investidores para América da Genentech, empresa do grupo farmacêutico Roche, desembarcou no aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo. O executivo dinamarquês estava a caminho do hotel quando seu carro foi interceptado por dois homens armados, que mandaram seu motorista encostar. Ao invés disso, ele decidiu acelerar e fugir. Os bandidos dispararam. Kudsk saiu ileso, mas o condutor acabou baleado na mão.

O episódio ajuda a explicar a razão pela qual cada vez mais as companhias estão se preocupando com a segurança de seus principais executivos. Especialmente nas multinacionais que recebem expatriados, a escalada da violência (ou, pelo menos, da sensação de insegurança) nos grandes centros urbanos brasileiros exige que elas ofereçam serviços relacionados à proteção pessoal no pacote de benefícios. E não é para menos.

A cidade de São Paulo, por exemplo, registrou aumento de 30% nos casos de latrocínio (roubo seguido de morte) no primeiro semestre deste ano comparado ao mesmo período de 2012, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado.

Ao mesmo tempo, dados da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese) mostram que o faturamento desse segmento cresceu 9% no ano passado em relação ao de 2011, ultrapassando os R$ 4 bilhões, com grande destaque para os sistemas de circuito fechado de TV. Já as empresas do setor de blindagem de veículos registram alta de até 35% nos pedidos deste ano – segundo a Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin), o Estado de São Paulo detém 72% desse mercado no país.

Ricardo Francisco Napoli da Silva, diretor administrativo operacional da empresa de segurança Haganá, afirma que o número de sequestros – principal preocupação dos executivos antigamente – diminuiu consideravelmente. No entanto, houve a migração para crimes contra o patrimônio, roubo e furtos. "A dificuldade do Estado em garantir a segurança de todos tem levado diversas empresas e instituições financeiras a nos procurarem para a contratação de serviços de proteção executiva", afirma.

Geralmente, uma empresa especializada é contratada para mapear a rotina do executivo tanto no âmbito pessoal quanto no profissional. Após uma avaliação dos riscos que envolvem deslocamentos, visitas e viagens frequentes, elabora-se um projeto de segurança personalizado para ele e que, eventualmente, estende-se para seus familiares. "Com base nessa análise, definimos qual é o aparato que vai ser adotado para garantir a segurança", afirma Marcelo Forma, sócio da ICTS, empresa de origem israelense que atua no setor.

Esse projeto, de acordo com ele, pode abranger desde carro blindado, escolta e motorista com treinamento em direção defensiva até varredura nos sistemas de telefonia e informática da empresa, instalação de sistemas eletrônicos de segurança na residência do VIP (como são chamados os protegidos) e investigação dos empregados que trabalham na casa, como faxineiras, babás e jardineiro.

Forma ressalta que o tamanho do investimento nesses serviços depende do nível de maturidade da empresa em relação ao tema. Muitas multinacionais, por exemplo, colocam benefícios ligados à segurança no contrato do CEO e dos principais diretores. "De maneira geral, crescemos cerca de 20% ao ano. Entre 2011 e 2012, no entanto, registramos aumento de 50% nos negócios para atender ao grande fluxo de expatriados que vieram trabalhar no Brasil", afirma.

Ainda assim, ele diz que a grande maioria dos clientes procura a empresa somente depois de algum incidente já ter acontecido. "É uma espécie de resposta da companhia para esse executivo", diz. A atuação dos agentes, por outro lado, é toda baseada na prevenção – embora eles sejam capacitados para "entrar em ação", isso raramente acontece.

Na opinião de Ademar Barbosa, diretor de operações da Verzani & Sandrini Segurança, isso é importante porque, mesmo se a intervenção for bem-sucedida, poderá estressar e até traumatizar o executivo. "É preciso identificar e eliminar constantemente os riscos. Trabalhamos ao máximo nesse sentido para não precisar agir", explica.

Já houve ocasiões em que agentes conseguiram neutralizar um assaltante ou tiveram que lidar com ameaças anônimas de sequestro de familiares sem que o executivo soubesse. Maurice Braunstein, presidente do grupo GR, afirma que esses profissionais precisam estar preparados para as mais diversas situações, que vão desde jantares e reuniões formais até viagens a lugares remotos. Além disso, muitas vezes é preciso acompanhar o cliente em seus momentos de folga. "Já tivemos um cliente que era triatleta. Os agentes se dividiam, mas precisavam acompanhar de perto os treinamentos", conta.

Existem também os executivos que, independentemente da violência das grandes cidades, possuem uma atividade verdadeiramente arriscada e que precisam de proteção. Durante os seis anos em que trabalhou comandando a área de risco e antifraude de uma multinacional do setor de telecomunicações, o administrador A.K., que preferiu não se identificar nesta reportagem, não foi exatamente um sujeito popular. Devido à natureza de sua função, ele passava o dia praticamente trancado com sua pequena equipe em uma sala com câmeras de vigilância, vidros blindados, paredes com isolamento acústico e um segurança na porta.

Na própria companhia, poucos sabiam qual era sua real atividade. "Era orientado a dizer apenas que fazia parte do departamento de tecnologia", explica. Tudo isso servia para garantir a segurança de A.K., que muitas vezes investigava e descobria crimes envolvendo não apenas clientes e fornecedores mas também desvios e "esquemas" de funcionários da própria empresa.

Mesmo depois de uma ameaça real – um tiro foi disparado durante a madrugada contra a janela do andar onde trabalhava -, ele conta que não sentia medo durante o expediente, mas fora dele. "Não tinha essa mesma proteção quando estava na rua. Com o tempo, comecei a me sentir paranoico e decidi que não valia mais a pena fazer aquilo", afirma ele, que hoje ocupa o cargo de diretor de produtos em outra organização.

Dentre os novos serviços oferecidos no segmento, a ICTS cita uma espécie de linha de emergência que funciona 24 horas. O objetivo é oferecer suporte para o protegido e sua família em circunstâncias que podem oferecer algum perigo, mas que não chegam a ser caso de polícia. "Em um acidente de trânsito leve, ou se o carro quebrar ou furar um pneu, por exemplo, mandamos uma equipe para auxiliar", diz.

Silva, da Haganá, destaca que as tecnologias e ferramentas usadas para a proteção pessoal de executivo estão diretamente ligadas à atratividade, a vulnerabilidades e oportunidades – que ele chama de "trilogia". "Trata-se do poder de atração gerado ao criminoso, dos pontos fracos e do melhor momento para o marginal agir", diz.

O número de agentes destacados para os VIPs, de acordo com Braunstein, pode variar de 2 a 40. "Depende da necessidade e da intensidade da coisa. O importante é que o executivo se sinta seguro para manter o foco apenas nos negócios", diz. O ex-jogador e hoje empresário Ronaldo Nazário, por exemplo, revelou recentemente que gasta cerca de R$ 1,5 milhão por ano apenas com segurança particular.

Outro caso emblemático é o de Jeff Bezos, CEO da Amazon.com. Em 2012, ele recebeu US$ 1,68 milhão, o que inclui um salário-base de cerca de US$ 80 mil e mais US$ 1,6 milhão para custos relacionados a sua segurança. Bilionário, o executivo afirma que não precisa de um salário tão grande, uma vez que é dono de quase 20% das ações da Amazon. Por outro lado, a companhia arca com o alto investimento que garante a tranquilidade de Bezos.

 


*Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 18/11/2013

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