Cresce o risco de conflito de gerações nas empresas

Data 02/09/2013

Diferentes gerações precisam conviver mais no mercado de trabalho, apontam consultores de RH. O motivo disso é um fenômeno demográfico: as carreiras dos brasileiros duram mais.

Projeções divulgadas na última semana pelo IBGE apontam que, nas próximas cinco décadas, a expectativa de vida dos brasileiros deve aumentar de 73,9 para 81,2 anos.

A tendência é que a distribuição da população por idade deixe de ser uma pirâmide e se torne mais parecida com um retângulo. Essas mudanças têm reflexos no mercado de trabalho.

 O último relatório do Ministério do Trabalho sobre a distribuição etária dos trabalhadores indica o envelhecimento: a faixa de idade cuja participação no mercado mais aumentou foi a de quem tem entre 50 e 64 anos (veja gráfico ao lado).

Uma pesquisa da consultoria KPMG aponta alguns dos motivos que podem gerar conflitos entre diferentes gerações nas companhias.

Conduzida com 1.500 respondentes no Reino Unido, os dados revelam diferenças nas atitudes das gerações mais velhas e mais jovens.

Por exemplo: 24% dos profissionais que nasceram depois de 1980 dizem que as organizações serão cada vez mais desafiadas pelos seus funcionários. Entre os mais velhos, o índice é de 12%.

QUESTÃO DE TEMPO

Eline Kullock, 58, presidente da empresa de recrutamento Grupo Foco, diz que "quem é da geração Y acha que reunião de quatro horas é longa. E não é. Para quem é 'baby boomer' isso é tranquilo."

No mercado de RH, chama-se de "baby boomer" quem nasceu entre 1945 e 1964, de geração X os que vieram ao mundo entre 1965 e 1980 e de geração Y os rebentos que vieram depois disso.

Mariana Maluf, 25, analista de marketing da Electrolux, costuma lidar com profissionais já próximos dos 50 anos. "Nós não nos prolongamos muito em um assunto, optamos por uma decisão e pronto, ao contrário dos profissionais mais velhos, que precisam de mais tempo para analisar e decidir", conta.

Para Kullock, as empresas precisam ter políticas internas para acomodar esses diferentes modos de agir em relação ao trabalho.

Na construtora Tecnisa, os funcionários fazem avaliações deles mesmos, dos colegas e superiores. O RH tabula os resultados e monta as equipes com base nisso, a capacidade de trabalhar com pessoas de diferentes idades é um dos itens levados em conta, relata Marcello Zappia, diretor de RH.

A gerente de projetos Margareth Koch, 56, afirma que essa heterogeneidade é boa porque gera "um ambiente de trabalho mais descontraído". Um companheiro de equipe dela, o gerente Felipe Dias, 28, ressalta um ponto positivo de trabalhar com pessoas mais velhas: "A rede de relacionamentos que trazem esses colegas".

"No ambiente corporativo, é preciso preparar as pessoas para falar com interlocutores de outras gerações", diz Flávio Reis, sócio da consultoria de apresentações La Gracia.

 Ele exemplifica: um executivo mais velho precisa ser treinado para saber responder ao ser contestado por colegas mais jovem.

Outro ponto de atrito que a KPMG aponta são as oportunidades do mercado.

Entre os entrevistados do Reino Unido, 46% afirmam que os mais jovens só irão ascender à medida que os outros saem do mercado -o que demora cada vez mais para acontecer, já que as pessoas trabalham até idades cada vez mais avançadas.

"No Brasil, o mercado de trabalho está longe de ser maduro como o europeu, então, isso não ocorre tanto aqui", diz Alexandre Santille, diretor-executivo da empresa de treinamentos Lab SSJ.

 


*Essa notícia foi publicada no site Folha de São Paulo, em 01/09/2013

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