Cursos de MBA usam esporte e teatro para formar líderes

Data 14/10/2013

Competições de vela, aulas de ioga e interpretação. Pode parecer a programação de um clube, mas, na verdade, são atividades de MBA.

Esses cursos de pós-graduação, cuja missão é dar aos executivos uma visão geral das várias facetas dos negócios, estão mudando programas para treinar as habilidades comportamentais dos alunos. O objetivo é capacitá-los em fatores como adaptação a novos ambientes e flexibilidade.

"Essas habilidades requerem a imersão em atividades que são representações razoavelmente precisas do mundo real das organizações", afirma David Garvin, professor da Escola de Negócios de Harvard. "Palestras e debates por si só não ensinam habilidades sociais."

Esse tipo de metodologia acaba gerando aulas inusitadas. Gutenberg Souza Oliveira, 44, teve de participar de uma regata em um veleiro como parte do curso na BSP (Business School São Paulo).

Na competição, realizada em Boston (EUA) por meio de uma parceria da escola com a Universidade de Suffolk, cada aluno tinha uma função específica na embarcação.

"É um ambiente em que tudo pode acontecer. Todos dependem um do outro para, por exemplo, mudar o rumo do barco. É necessária muita coordenação e espírito de grupo", conta Oliveira.

O coordenador dos programas de MBAs da BSP, Fernando Marques, afirma que cerca de 40% do curso é voltado apenas para as habilidades comportamentais (conhecidas pela sigla em inglês "soft skills"), o que inclui palestras sobre autoconhecimento, espiritualidade e aulas de ioga. "Avaliar a viabilidade econômica de um projeto é uma função natural de um executivo e pode ser aprendida com aulas técnicas. Mas tocar a implementação desse projeto é complexo: o profissional precisa estimular a equipe, expor suas ideias e negociar com vários públicos."

Na Fundação Getulio Vargas em São Paulo, uma das técnicas é parecida com um jogo de RPG ao fazer com que os alunos interpretem papéis: eles são divididos em grupos pequenos para treinar negociação e trabalho em equipe.

O engenheiro Sidnei Pereira, 31, é um dos alunos da escola e afirma que está aprendendo a se adaptar a diferentes ambientes. "Lidar com clientes, colegas de trabalho ou fornecedores hostis tem muitas sutilezas. As pessoas podem ter dúvidas sobre o que você defende, mas você tem de reverter isso, mostrar vários pontos de vista, ter firmeza e expressão corporal correta."

Medir a eficácia do aprendizado e o sucesso de uma habilidade comportamental também não é fácil para uma escola ou gestor. A abordagem mais aceita pelos especialistas é propor que um grupo faça uma avaliação conjunta e, por meio de debates, cheguem a uma conclusão mais consensual.

Na Fiap (Faculdade de Informática e Administração Paulista), as avaliações são feitas por meio de jogos. O professor Armando Oliveira conta que, por exemplo, os alunos têm que fazer o planejamento e execução de projetos como a construção de miniaturas de torres, domos e pontes.

"Nesse formato, procuramos avaliar os indicadores de entrega no prazo, custo e qualidade dos projetos", afirma. "Mas também são dadas metas individuais e organizacionais para que sejam desenvolvidas habilidades de comunicação, empatia e liderança e para que sejam estruturadas parcerias entre os alunos."

Na tentativa de modificar o comportamento dos alunos, vale até o teatro.

Na Unifei (Universidade Federal de Itajubá), uma das disciplinas inclui encenações e brincadeiras que parecem de criança, por exemplo, estourar bolas de bexiga coladas na parte de traz dos cintos dos colegas, por exemplo.

"É interessante ver como os alunos, em sua maioria gerentes de empresas, viram novamente crianças. Logo após, são tiradas conclusões sobre o comportamento das pessoas", afirma Edson Pamplona, coordenador de MBA da instituição.

E não são apenas os executivos os interessados em melhorar o comportamento para o trabalho. Renato Cerqueira, 50, coronel da Polícia Militar que fez MBA no Insper, diz que técnicas de negociação e motivação de colaboradores são úteis no seu dia a dia, ele tem 400 pessoas em sua equipe, entre oficiais e praças.

"São pessoas que passam situações aflitivas e só vão realizar um bom trabalho se entenderem suas responsabilidades e a importância de sua função."

 


*Essa notícia foi publicada no site Folha de São Paulo, em 13/10/2013

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