De olho na balança

Data 06/09/2011

Desde que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou, em 2009, que a obesidade ganha terreno entre os brasileiros – na época, o levantamento mostrou que 12,5% dos homens e 16,9% das mulheres eram obesos e que metade população adulta tinha excesso de peso –, o assunto vem deixando as páginas de beleza para ocupar lugar de destaque na saúde pública.

A boa notícia é que as empresas se transformaram em grandes aliadas nesta luta contra a balança. Mais do que fatores estéticos, o mundo corporativo está preocupado com os efeitos da obesidade sobre a produtividade e o absenteísmo dos funcionários. Sem contar que o excesso de peso está associado ao aumento do risco de doenças crônicas – como infarto do miocárdio, derrame cerebral e diabete, enumera o médico Alberto Ogata, presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).

Ao entenderem a gravidade da situação, as empresas engrossam as estatísticas de criação de programas voltados à orientação e reeducação alimentar, além da promoção de hábitos saudáveis – como atividades físicas regulares, por exemplo. O objetivo não é apenas ter funcionários em boa forma, mas sim tê-los saudáveis e bem dispostos. “Os benefícios são inúmeros, como o aumento da autoestima, da motivação e a redução da incidência de doenças físicas e psicológicas”, explica a gerente nacional do Vigilantes do Peso, Fernanda Fernandes.

Dados da organização atestam a mudança: em 2011, dobrou o número de companhias associadas ao programa, na comparação com 2010. “Cada vez mais as empresas se conscientizaram que vale a pena investir nisso”, diz Fernanda. Há três formas de os funcionários das empresas associadas se beneficiarem do serviço: participando das reuniões in company, frequentando palestras fora do escritório ou seguindo o método com o kit Vigilantes do Peso em Casa.

Executivos na mira

Mas essa não é a única forma que as empresas têm de se envolverem. Campanhas internas de conscientização e facilidades como médicos, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos para consultas periódicas também estimulam o engajamento dos funcionários. Segundo a endocrinologista Rosana Radominski, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a organização desempenha um grande papel quando oferece condições de tratamento a seus empregados, além de uma alimentação saudável e do incentivo para a prática esportiva.

Esse foi o caminho escolhido pelo Grupo Algar, conglomerado mineiro com negócios nas áreas de telecomunicações, serviços e turismo. Desde 2002, a empresa mantém o Programa de Desenvolvimento Individual da Saúde, que deslocou o eixo do “remediar” para o “prevenir”. As ações do programa têm foco nos 272 executivos do grupo, que anualmente passam por avaliações com cardiologistas, nutricionistas, preparadores físicos e psicólogos, estabelecendo compromissos de melhoria e recebendo metas que devem ser atingidas – sob pena de até mesmo perder 10% do valor da participação dos lucros. “Não dá para ter executivos competentes, que encaram os desafios desse mercado extremamente competitivo, mas que estão doentes”, afirma a diretora de Desenvolvimento da Universidade Corporativa do Grupo Algar (Unialgar), Elizabeth Amaral.

A escolha do público alvo para o trabalho – embora Elizabeth garanta que o benefício deve ser estendido em breve para o restante da pirâmide – faz ponte com uma pesquisa da empresa de planos de saúde Omint. O levantamento ouviu 15,3 mil executivos de todo o país e mostrou que 18,99% dos gerentes e diretores do sexo masculino são obesos, índice acima da média nacional de 12,5% para homens adultos apresentada pelo IBGE. Além disso, segundos dados da Omint, 96% dos entrevistados admitiram não se alimentar tão bem quanto deveriam. Esse é um ponto que o programa da Algar procura cobrir, e não somente durante a permanência dos profissionais nas empresas. Elizabeth informa que muitas cozinheiras de executivos, esposas e até maridos, já foram aprender a cozinhar em oficinas de nutrição oferecidas como parte do programa.

Mulheres são mais disciplinadas

O diretor regional da Algar Telecom em São Paulo, André Neves, de 38 anos, era do time que não se preocupava com o cardápio. Fã confesso de “porcarias, como batata frita e hambúrgueres”, foi preciso um trabalho de reeducação alimentar para que suas metas fossem atingidas. A boa notícia é que deu tudo certo: por meio do programa, ele retomou o gosto pelas atividades físicas e trocou os alimentos processados por versões integrais – algo que lhe parecia impensável antes.

Os sete quilos a menos na balança, em um ano, garantiram ao executivo o cumprimento da meta e controle dos níveis de colesterol e glicemia, seus principais focos. Mas Neves não está sozinho. Os números do programa do Grupo Algar mostram uma queda no quadro dos executivos sedentários e acima do peso. Em 2002, 70% deles não praticavam nenhuma atividade física. Hoje, essa porcentagem caiu para 30%. Além disso, neste ano, apenas seis participantes perderam 10% do bônus por não atingirem as metas.

Quanto ao engajamento de homens e mulheres, Elizabeth é categórica: elas se esforçam mais. “A mulher é mais disciplinada, se cuida, segue à risca o plano de ação com cada um dos profissionais”, conta a diretora. Elas são 22% do total do grupo atendido pelo programa, mas apenas uma está entre 40 classificados como obesos nas unidades do Grupo Algar. A percepção de Elizabeth é corroborada por Fernanda, do Vigilantes do Peso: “Em termos de perseverança, as mulheres são a maioria”, afirma.

Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 30/08/2011.