De volta à faculdade

Data 05/02/2013

No final de 2006, Cristiane da Silva se juntava a outros colegas nos corredores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) como profissional graduada em física. Depois de um mestrado e dois anos como professora, percebeu que aquele não era seu lugar. Vislumbrou satisfação profissional na engenharia, área para a qual migrou em 2012, quando prestou outro vestibular. Ela ainda tem pela frente alguns anos de vida acadêmica e sabe das dificuldades que virão depois disso. “Terei mais de 30 anos quando me formar e estarei concorrendo com pessoas dez anos mais jovens (teoricamente preferidas pelas empresas), mas procuro não pensar muito nisso porque também sei das minhas qualidades.”

O caso de Cristiane não é único. Juliana Martins se formou em 2006 em zootecnia. Depois de formada trabalhou na Associação de Criadores de Nelore do Brasil. Porém, em busca de novas oportunidades, graduou-se em 2012 em administração de empresas. "Se pudesse voltar no tempo, acho que não teria feito zootecnia, apesar de gostar muito de animais. Primeiro iria investigar mais a fundo a profissão", afirma. Atualmente Juliana busca novas oportunidades no mercado de trabalho. “Como administradora tenho um campo muito mais amplo", declara.

Assim como aconteceu com Juliana e Cristiane, é muito comum jovens profissionais se sentirem insatisfeitos com a profissão depois de formados. Os motivos são variados, mas alguns cuidados antes da escolha da graduação podem evitar transtornos. "O jovem deveria dar mais atenção aos processos de aconselhamento e orientação de carreira antes de fazer uma escolha por impulso, porque é moda ou cedendo à pressão da família", afirma Mara Turolla, da diretoria de Coaching, Counselling e Mentoring da Career Center.

Ela ressalta que a escolha de carreira hoje em dia não é para sempre, "mas é algo que acompanha os profissionais em uma fase muito importante de sua vida adulta". Por isso, ela acredita que o melhor seria evitar uma segunda graduação. "Se a pessoa pretende mudar de área, mas não de maneira radical, às vezes, uma pós resolve", diz. Entretanto, se a mudança é para uma área totalmente diferente e exige um conhecimento específico muito importante (como medicina e direito, por exemplo), o jeito é mesmo voltar para a faculdade. Mesmo assim, a consultora recomenda que isso só seja feito depois de fracassadas várias tentativas para se entrar na área de formação ou se a insatisfação profissional prevalecer.

Se a dúvida sobre a carreira começa ainda na faculdade, uma boa solução é começar a fazer estágios, o que permite entender melhor a realidade da profissão. "Muito do sentimento de insatisfação vem de expectativas irreais com relação à carreira escolhida. Muitas vezes o jovem tem uma imagem distorcida de determinada profissão e se frustra no dia a dia", afirma Mara. Caso já esteja formado e trabalhando, a consultora aconselha que se tente a mesma carreira em outros lugares. "Esforço de adaptação e resiliência são importantes, pois ninguém começa a vida profissional de maneira fácil", diz.

 Porém, se for preciso voltar à universidade, ela indica procurar primeiramente a ajuda de um profissional qualificado para aconselhamento de carreira, fazer muita pesquisa e conversar com pelo menos cinco profissionais ativos na nova profissão, para tentar descobrir como elas são na prática.

A busca por uma nova graduação afeta também a relação do profissional com o mercado de trabalho. “De maneira geral, esse retorno aos estudos acaba revelando um erro no processo de escolha", aponta Mara. Entretanto, como o mercado vai enxergar essa mudança vai depender da área de atuação em que o profissional estiver trabalhando, da atitude, como ele explica as mudanças e do esforço que faz para compensar essa alteração.

Um novo curso, sobretudo se for complementar à primeira área de formação, a despeito dos desafios que pode impor, pode trazer vantagens competitivas. Claudio Anjos, diretor de Educação de uma organização internacional britânica sem fins lucrativos, é formado em administração de empresas e tem mestrado na área. Porém, após construir uma carreira de sucesso, formou-se em direito. "É um curso complementar para qualquer formação, principalmente para os profissionais que optam por carreira na área de Humanas", afirma. Essa complementaridade favoreceu seu desenvolvimento profissional. "Um administrador precisa ser organizado e objetivo nas suas ideias, enquanto um advogado necessita ter uma visão ampla das consequências futuras das ações presentes", afirma.



*Essa notícia foi publicada no site Canal RH, em 28/1/2013