Dezesseis clichês de carreira que todo mundo repete – e não deveria

Data 28/08/2012

Quando o assunto é carreira, atire uma pedra quem nunca bancou o especialista e encheu a cabeça de um amigo ou colega de trabalho de conselhos. Mas, especialistas advertem, nestes casos, é muito fácil cair num clichê – daqueles que nem a realidade mais acredita. Confira quais os clichês de carreira que são propagados por aí, segundo especialistas de carreira (de verdade):

“Você tem que planejar os próximos cinco anos da sua carreira”

A questão está presente em boa parte das entrevistas de emprego feitas por aí. Saber a resposta é essencial para mostrar seus valores e intenções para o recrutador. Mas se agarrar fielmente aos planos de carreira não é uma boa estratégia.

“As coisas mudam demais. Você corre o risco de recusar oportunidades porque elas não têm relação com seu objetivo final”, afirma Gisela Kassoy, especialista em carreira e criatividade . “A gente não conhece todo nosso potencial. A gente pode se envolver com coisas que nunca pensamos e acabar gostando”.

“Faça o que você ama que o dinheiro te seguirá”

Fazer o que você ama é essencial. Agora, é ilusão pensar que isso é garantia de que o dinheiro virá. “A pessoa gosta tanto do que ela faz que pode optar por um tipo de trabalho que pague menos”, afirma Gisela. Agora, segundo a especialista, não gostar do trabalho e não ter um bom salário “é uma dupla tragédia”.

“Se você gosta do seu trabalho, será sempre feliz”

História de carochinha, conto de fadas ou ficção científica pensar que o fato de gostar do seu trabalho é garantia de sorrisos fartos todos os dias. A vida profissional é bem mais complexa do que isso. Por mais apaixonante que sua carreira seja, uma coisa ou outra pode não agradar você. E é essencial aprender a lidar com isso.

“A profissão está para a nossa era assim com o casamento estava para os anos 60. As pessoas pensavam que bastava se apaixonar para que tudo estivesse resolvido. O amor salvava tudo”, afirma Gisela.

Como o amor entre duas pessoas não salva – e tem lá seus altos e baixos, toda função profissional também possui seus “poréns”. "Você pode amar seu trabalho, mas talvez não goste de lidar com as políticas da empresa, com a falta de autonomia”, diz a especialista. E por aí vai.

“O amor à primeira vista pode ser um equívoco tremendo assim como a antipatia e o desinteresse à primeira vista também”, afirma.

“Para ter sucesso na carreira, é preciso ser chefe”

Nem sempre. Tudo depende do seu referencial de sucesso e satisfação profissional. “Sucesso é relativo”, afirma Joseph Teperman, sócio da Flow Executive Finders. “Muita gente é feliz com uma posição de especialista”.

Não é preciso chegar a um cargo de liderança para provar para os outros que você está crescendo na carreira. Muitas empresas, por exemplo, oferecem planos de carreira em Y – aqueles destinados para quem tem um perfil mais técnico.

A mesma questão cabe para quem já está no cargo de diretor e sente a pressão dos companheiros para mirar um cargo de presidente. Nem todos querem a responsabilidade e a pressão que é comandar uma empresa.

Agora, o único jeito de saber qual plano de carreira é mais coerente com o seu perfil é conhecendo muito bem a si mesmo. “É preciso autoconhecimento para saber onde se quer chegar”, afirma o especialista.

“Para ficar rico, você tem que ser empreendedor”

Mais da metade dos jovens brasileiros afirmam que, em algum momento de suas carreiras, terão um negócio próprio, segundo levantamento recente da Cia. De Talentos. O retorno financeiro e a autonomia que o empreendedorismo pode dar são alguns dos fatores para tanta empolgação em torno do tema.

Mas, Fernanda Mota, sócia-diretora da M3, pondera: “abrir um negócio próprio ainda é muito arriscado”. Poucos são os que conseguem sobreviver ao primeiro ano de nascimento da nova empresa. “É preciso ter uma noção de administração de empresas, de empreender e de como trabalhar com dificuldades”, diz.

“Existe um limite para o crescimento profissional”

O fato de chegar ao cume da sua área profissional não significa que é hora de se acomodar. Ao contrário. “Hoje em dia, as carreiras são muito dinâmicas. Você pode estar no topo um dia e no outro, demitido”, diz Gisela.

Mas não é só isso. “O conhecimento não tem fim. Sempre existirá alguma coisa para você aprender e se atualizar”, afirma a especialista. “Este lá (onde você pode parar de crescer profissionalmente) não existe”.

“Profissões em alta são garantia de emprego”

Se todo mundo está falando sobre uma profissão ou especialização, cuidado. A demanda elevada de hoje pode ser a saturação do amanhã. “Todo mundo se prepara para as posições que estão mais em alta e com isso, o mercado fica saturado, não tem mais espaço para aquelas pessoas”, afirma Fernanda, da M3.

“Se você, realmente, não estiver uma identidade com aquele mercado, vai chegar uma hora que você não vai mais para frente”, diz a especialista.

“Quem tem um salário maior é mais feliz”

“Apenas 20% das pessoas mudam de emprego por causa do salário”, diz Teperman, da Flow. “Isso faz parte de um clichê macro da vida que diz que dinheiro traz felicidade”. Quem já recebeu um aumento interessante sabe que, na prática, isso não é verdade.

Teperman conta que pesquisas mostram que ganhadores de loteria até ficam muito felizes ao receber a bolada. Mas a felicidade volta a níveis semelhantes ao que a pessoa tinha antes de ficar rico.

“É possível ter controle de tudo quando o assunto é carreira”

Você pode ter um currículo impecável, uma formação teórica capaz de fornecer as melhores sacadas e uma ótima percepção do mercado. Mas nada disso é suficiente para dar a você total controle sobre o que pode suceder nos dias que se seguem. “Algumas variáveis você até pode controlar, mas não todas”, diz Gisela.

“Ideias boas se vendem sozinhas”

A sua sacada pode até ser sensacional, mas se você não souber como embalá-la, as chances da ideia não ser aceita aumentam, afirma Gisela. “As pessoas tendem a se apaixonar pelas próprias ideias e não levam em conta as questões políticas, nem como deve apresentá-las. Não é bem assim”, diz a especialista.

“Fazer hora extra no trabalho é sinônimo de produtividade”

Definitivamente, ficar horas a mais no trabalho não significa que você tem tudo para ganhar o título de funcionário do mês. “Quem tem a mesa lotada de afazeres, vira a noite trabalhando, não necessariamente é o mais produtivo”, diz Fernanda. Em alguns casos, isso até pode ser sinônimo de desorganização.

“A fórmula do sucesso alheio terá o mesmo efeito para você”

Não é porque o mundo está falando do último viral do momento, que você deve fazer o mesmo. Não é porque o caminho escolhido pela concorrência deu certo, que você deve segui-la. Ao contrário: “Se está todo mundo fazendo a mesma coisa, é hora de cair fora”, aconselha.

Ela explica que ao copiar aquilo que já é a bola da vez, você “não terá o efeito surpresa”. E por isso os riscos de não dar certo são elevados. A dica é seguir, sim, as tendências. Mas fugir de tudo que é clichê. Anotou?

“Faça o curso que todo mundo fez/faz”

“Reciclar você tem que se reciclar sempre. Mas fazer o mesmo MBA que todo mundo já fez na empresa não é o caminho", afirma Gisela. “Aposte em um curso diferente que torne você especial, que traga uma contribuição diferente para a companhia”. E que seja coerente com suas aspirações profissionais.

“Ter uma carreira internacional é essencial – e vai fazer você feliz”

Muita gente por aí, provavelmente, já sentiu inveja daquele amigo que roda o mundo a trabalho. Mas, apesar de interessante, carreira internacional não é para todo mundo. “Você passa metade do mês dentro de um avião, dormindo em hotel. É difícil ter rotina, dificulta o relacionamento”, afirma Teperman.

“Mercado de trabalho é ruim para todos que têm mais de 40 anos”

O papo de que depois dos 40 anos é difícil se recolocar no mercado de trabalho é ultrapassado. Com o descompasso entre procura e oferta de profissionais qualificados, os recrutadores estão de olho nos currículos cheios de experiência – algo que só os mais velhos podem oferecer. Mas essa realidade só vale para profissionais que estejam atualizados. E, claro, tenham muita energia, afirma o especialista da Flow.

“Se mudar de carreira, tudo que aprendi até agora será em vão”

Quem decide dar uma guinada na carreira e partir para outra área profissional pode ficar tranquilo: tudo o que você aprendeu até agora pode ser sim usado no novo emprego. “O conhecimento sempre é aproveitado. Talvez você não utilize as mesmas competências, mas, indiretamente, você pode transformar a experiência em conhecimento”, afirma Fernanda.

 

*Essa notícia foi publicada no site Exame.com, em 27/08/2012