Eficiência ou criatividade?

Data 09/11/2011

* Julio Pompeu

O mundo corporativo, às vezes, é bem engraçado. Um dia desses um sujeito bem engravatado e de topete irrepreensível soltou sem dó:

– Nossos colaboradores são resilientes!

O nome "colaboradores" é a atual versão politicamente correta do que antigamente chamavam de empregados, e os sindicatos de trabalhadores. Para facilitar, é gente que obedece alguém dentro da empresa e ganha para isso. Até aí, tudo bem, mas “resilientes”, eu achei bem estranho. Era a primeira, de muitas vezes, que ouvia isso em uma corporação. Já conhecia o termo da física, mas sabe Deus o que ele queria dizer com isso.

– Como é? – Perguntei sem conseguir esconder minha ignorância.

– Resilientes. Vem de resiliência, da física…

Disso eu já suspeitava. Informação tão inconsistente quanto inútil. Fiz cara de pôquer.

– Resiliência é a propriedade que alguns metais têm de se deformarem e, quando submetidos a pressão, voltarem à forma original…

Pressão. Agora sim, uma expressão que faz sentido no ambiente corporativo. Mas continuei com a cara de pôquer na esperança de meu engomado interlocutor chegar logo ao que interessa: o que ele queria dizer com resiliência?

– Para nós, quer dizer que nossos colaboradores têm a capacidade de se submeter a novos desafios e funções o tempo todo. Que são flexíveis e conseguem se adaptar a qualquer ambiente.

– Sei, conseguem se adaptar a qualquer ambiente… como uma ameba?

– Isso! – Disse com uma empolgação tão grande que até hoje não sei se foi porque não prestou atenção no que eu disse ou se colaborador para ele era sinônimo de ameba. Preferi não descobrir a resposta.

Para explicar melhor a tal resiliência, ele resolveu me mostrar o ambiente de trabalho. Amplo salão, sem as claustrofóbicas baias, com mesas redondas, vários gaveteiros com rodinhas e notebooks. Cada colaborador, ou ameba, possui seu notebook e seu gaveteiro. Já que todos são resilientes, a cada tarefa uma nova equipe se forma em torno de uma mesa redonda, com os colaboradores carregando seus notes e gaveteiros.

Olhando assim, parece muito interessante, afinal, o trabalho, sempre diferente e com pessoas diferentes, tende a não ser rotineiro e nem tedioso. Com os colaboradores obrigados a se adaptarem constantemente a novas atividades, a criatividade é incentivada. Mas conversando com eles, a coisa decepciona.

Sendo a única coisa rotineira a falta de rotina, ao invés da suposta alegria o que os colaboradores manifestavam era desconforto. Sentiam-se como eternos novatos nas atividades da empresa, mas sem a empolgação dos primeiros dias de um novo emprego. No entanto, eram cobrados como se fossem experts nas tarefas. Sem a experiência acumulada, tinham a sensação de constante improviso e da realização atabalhoada das tarefas. Em suma, reclamavam.

As rotinas têm uma razão de ser. Otimizam procedimentos. Mas nenhuma empresa será ótima em tudo se exagerar na rotina. A flexibilidade do ambiente também tem suas virtudes, dentre elas, a de estimular a criatividade, mas o exagero na dose também tem suas complicações. O segredo de um ambiente eficiente e, ao mesmo tempo, criativo é o equilíbrio entre rotinas e liberdades, como isso é difícil de conseguir, erra-se na medida para um ou outro lado. E para compensar a falta de criatividade ou a lentidão da falta de rotinas, pressionam os colaboradores.

Pensando bem, acho que a apropriação do jargão da física é perfeito. As substâncias resilientes deformam-se e reformam-se sempre sob pressão. Difícil é conseguir uma gestão equilibrada que resulte em criatividade e eficiência sem pressão, quando acharem a fórmula, vão precisar importar outro jargão.

* Júlio Pompeu é graduado em Direito e em Filosofia, mestre em Direito e doutorando em Psicologia. Atualmente preside o Conselho de Ética Pública do Estado do Espírito Santo e leciona ética na Universidade Federal do Espírito Santo. Com a finalidade de tornar a filosofia, em especial a ética, acessível ao grande público, oferece cursos e palestras na Casa do Saber do Rio e de São Paulo e em órgãos públicos e empresas desde 2004 sobre Filosofia moderna e contemporânea.