Eles querem espaço para fazer o que sabem

Data 05/02/2013

A maioria dos profissionais seniores, com mais de 50 anos, está insatisfeita com o emprego atual, aponta uma pesquisa feita recentemente pela 4Hunter Consultoria. De acordo com os dados, quase 60% das pessoas nessa faixa de idade dizem estar descontentes profissionalmente. O índice é superior à média geral obtida pela pesquisa (55%) ao ouvir profissionais de todas as idades, o que faz dessa parcela de trabalhadores a mais insatisfeita no universo do estudo.

Nem salário, reconhecimento ou promoção. O que gera insatisfação entre o público mais maduro, é o clima organizacional. Ou seja, a “falta de espaço” para trabalhar e empregar sua experiência de modo a fazer a diferença nas organizações. “Nessa idade, os profissionais já passaram por diversas fases. Desde a conquista do primeiro emprego, do primeiro cargo de gestão, do retorno financeiro. Agora, nessa altura, eles querem desfrutar do trabalho de maneira diferente. Eles olham para a própria vivência e querem aplicá-la dentro da organização”, analisa o consultor de carreira e diretor executivo da 4Hunter, Carlos Ferreira.

Foi justamente a percepção de que estava em um ambiente onde não era mais ouvido que levou o então diretor jurídico corporativo de uma empresa do setor de serviços Japyassu Resende de Lima, de 53 anos, a deixar o emprego. Ele conta que a organização passava por um processo de retomada da imagem perante o mercado, o que implicava em duas frentes de trabalho. A corporativa e a institucional. A primeira frente estava sendo trabalhada adequadamente, conta ele. Já a segunda, pela qual era o responsável, não. E por resistência da empresa, diz ele.

“A imagem da empresa estava desgastada diante todos os clientes, parceiros, fornecedores, Era necessário atacar fortemente essa situação, era preciso recuperar a imagem institucional para sustentar a imagem corporativa. Durante três meses, eu senti que a empresa não queria trabalhar isso”, relata.

O executivo conta que a recusa por parte da presidência a seguir o planejamento desenhado por ele passou a desmotivá-lo. “Quando se tem um choque de valores entre a empresa e o executivo algo tem de acontecer”, diz. “O que determina o papel do executivo é basicamente segurança empresarial. E o que é isso? É a conduta que você adota de modo a garantir que a empresa se perenize no tempo. E isso passa por olhar o lado institucional”, afirma.

Estar em uma empresa na qual se partilha dos mesmos valores, e onde se é ouvido não é desejo apenas de quem é um alto executivo, alega Ferreira, da 4Hunter. Entretanto, segundo ele, nessa fase da carreira isso passa a pesar muito mais. “Esses executivos já têm maturidade. Não querem mais tapinhas nas costas, não precisam mais disso. Seu desejo é que a empresa absorva a sua experiencia”, afirma.

“Quando se é mais jovem não se dá tanto peso para isso (ser ouvido). Agora, quando chegamos a um nível sênior você precisa disso. Precisa colocar toda a sua expertise a serviço da organização. Não se quer mais apenas salário, o que se quer é ser ouvido”, reitera Lima.

O desejo de ter os conhecimentos aproveitados de forma ampla leva muitos profissionais desta faixa de idade a procurar empresas menores, que passam por ciclos de crescimento e precisam se profissionalizar na gestão e nos processos, observa a diretora da Mariaca, Fernanda Campos. A empresa atua no recrutamento de executivos e em transição de carreira.

“Muitas vezes ocorre falta de sintonia entre os momentos atravessados pela empresa e por esses profissionais, o que cria a impressão de que a empresa não consegue aproveitar aquilo que ele tem de melhor por já estar em uma fase mais acomodada”, diz.

Essa foi a saída encontrada por Ricardo Faccin, hoje diretor geral da Bantec, empresa têxtil com atuação focada no setor automotivo, para manter a satisfação com o trabalho em alta. Depois de construir sua carreira em multinacionais do setor automotivo, o executivo se viu seduzido pelo desafio de reestruturar as operações de uma empresa familiar do setor de plásticos.

“Ao longo da minha carreira, passei por diversas áreas dentro das empresas. Desenvolvi projetos em TI, finanças e compras, o que me deu uma visão muito generalista sobre processos. E percebi que esse conhecimento poderia fazer mais diferença em uma empresa pequena, nacional, do que em uma gigante com alto nível de organização”,diz.

Depois de dobrar o volume de negócios da empresa, recebeu o convite para trabalhar na Bantec, onde tem desafio semelhante. “É preciso sempre ter objetivos, de outro modo você se aborrece. É buscar espaços onde seu conhecimento é necessário.”

De acordo com Fernanda, esse desejo leva uma parcela desses profissionais a abrir seus próprios negócios ou a trabalhar como consultores. “Passar a atuar como conselheiro em várias empresas pode ser outra alternativa para quem se vê sem espaço na organização”, indica.

Contudo os especialistas alertam para o fato de que ainda que a mudança de emprego possa significar o fim de toda essa insatisfação, esse processo deve ser conduzido com calma, de forma consciente. “As pessoas relacionam desenvolvimento de carreira com mudança de emprego. Mas nem sempre essa relação ocorre. É preciso então analisar se não irão enfrentar os mesmos problemas em outra organização. Já vi executivos que mudaram para a concorrência por se sentirem pouco valorizados e meses depois se deram conta de que fizeram uma escolha errada”, diz Ferreira.

Ter a visão daquilo que se quer nessa etapa da carreira é o que vai guiar melhor essa escolha, aponta Fernanda. “Ter um projeto de vida, um plano de metas torna mais fácil a jornada após os 50 anos, pois é possível ter mais clareza sobre os passos que o profissional irá dar”, explica.

“Isso é uma responsabilidade dele. O que ocorre é que às vezes depositamos esse papel na empresa. É um erro, eu é quem tenho de ser o dono da minha carreira e eu é quem tenho de estabelecer minhas metas”, ressalta Faccin.

 


*Essa notícia foi publicada no site Estadão.com.br, em 4/2/2013

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