Eles querem separar o profissional do pessoal

Data 07/05/2013

Profissionais do mundo todo enfrentam dificuldades em conciliar as demandas da vida pessoal e profissional. Pesquisa realizada pelo Hay Group em 2012 com mais de 5 milhões de pessoas em vários países mostra ser esta a realidade de 39% dos entrevistados. Em relação ao resultado de 2011, houve avanço de 7 pontos, o que acendeu o sinal vermelho entre os especialistas. Se forem mantidos, os modelos atuais de gestão vão levar, inevitavelmente, a perda de talentos, seja por meio de pedidos de demissão, seja pelo afastamento decorrente de doenças ligadas ao ambiente de trabalho. “Estamos caminhando para um ponto insustentável”, afirma Elton Moraes, consultor do Hay Group.

Considerando apenas o Brasil, o descontentamento em relação à interferência do trabalho na vida pessoal atinge 36% das 620 mil pessoas entrevistadas. Na edição anterior do estudo esse porcentual era menor, de 30%.

O crescimento no número de brasileiros insatisfeitos com o desequilíbrio entre o lado profissional e o pessoal, em 2012, é o maior já captado, considerando tanto os dados históricos do País como os obtidos em outras nações. “Os níveis de insatisfação costumavam variar cerca de dois pontos porcentuais para mais ou para menos de um ano para o outro. Ficamos preocupados quando percebemos um aumento de sete pontos da população que está descontente”, diz Moraes, um dos responsáveis pela pesquisa no Brasil.

Segundo ele, o aumento do descontentamento é fruto, principalmente, do descompasso entre o volume de trabalho a ser realizado e o reconhecimento pelos resultados obtidos. Cada vez mais, as organizações têm adotado a política do “fazer mais por menos”. “A sobrecarga de trabalho, desacompanhada da oferta de benefícios adequados, vem minando a satisfação e o engajamento dos profissionais, mesmo em países como o Brasil, em que as equipes são culturalmente mais inclinadas a vestir a camisa da empresa”, afirma Moraes.

Nos últimos anos a estrutura das empresas passou por mudanças significativas em função de avanços tecnológicos. As novas ferramentas possibilitaram que um número maior de tarefas fosse realizado por menos pessoas. Com a conjuntura econômica desfavorável, essa tendência de enxugamento das equipes se agravou. O grande problema é que a redução dos quadros não foi conduzida de forma responsável e sustentável, o que levou a uma sobrecarga de trabalho. A área de gestão de pessoas tem papel central na reversão desse quadro. Cabe a ela elaborar políticas que alinhem a estratégia de negócios da empresa com o oferecimento de maior suporte aos funcionários, para que estes possam realizar as tarefas de forma mais eficiente, evitando, assim, que a vida profissional invada o espaço que deveria ser dedicado a atividades pessoais.

O estudo mostra que os profissionais que recebem esse tipo de ajuda das empresas estão mais satisfeitos com seus pacotes de remuneração: nas organizações que desenvolvem práticas que estimulam o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, 58% dos entrevistados acreditam ser bem remunerados pelas atividades que executam. O porcentual cai para 36% nas demais companhias. No Brasil a diferença é ainda maior: 66% e 39%, respectivamente.

Rotatividade maior

A inexistência de ações que contemplem as necessidades das equipes fragilizam os laços entre empregados e empregadores. Conforme o levantamento do Hay Group, um em cada quatro colaboradores que não recebe suporte para equilibrar questões pessoais e profissionais planeja mudar de emprego nos próximos dois anos. O quadro é preocupante, uma vez que o crescimento da rotatividade de colaboradores tem um impacto financeiro nas organizações.

Considerando-se um salário anual médio de US$ 35 mil e um custo de substituição de 50% da remuneração, uma empresa com 10 mil funcionários economizaria, em dois anos, cerca de US$ 17,5 milhões se reduzisse em 10% seu turnover, estima o Hay Group. “Além dos gastos diretos, com contratações, as mudanças constantes na equipe afetam o clima organizacional, prejudicando o desempenho das pessoas”, explica o consultor.

As empresas precisam agir o quanto antes para se reaproximar de seus talentos e garantir a sustentabilidade de seus negócios. Para isso, é importante que elas capacitem seus líderes, que cada vez mais precisam saber engajar as equipes, ouvir melhor as pessoas, oferecer direcionamento aos seus subordinados e distribuir as tarefas de forma clara e justa. Ao mesmo tempo, é preciso preparar os colaboradores para elencar prioridades, de forma que se dediquem a atividades com maior valor; oferecer capacitação para que todos os indivíduos estejam aptos a tomar decisões e fornecer recursos adequados para que o trabalho possa ser realizado de forma eficiente. “Os resultados ainda terão de ser entregues, mas as necessidades e o bem-estar dos colaboradores serão levados em conta nesse processo”, completa Moraes.

 


*Essa notícia foi publicada no site Canal RH, em 02/05/2013

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