Empregos tradicionais atraem empreendedores

Data 07/12/2015

As férias são uma descoberta para Barnaby Voss. Em seu atual trabalho, no Google, ele consegue se desligar de tudo quando tira uma folga. Não era o que acontecia em seu papel anterior de cofundador da BlikBook, uma plataforma virtual para estudantes e acadêmicos do ensino superior. "Quando você é um empreendedor, não consegue tirar férias decentes. Você trabalha em período integral e não para de pensar na empresa. É muito difícil esfriar a cabeça."

Para aqueles que se sentem amarrados na vida corporativa, o sonho da startup pode ser tentador. As vantagens geralmente são a autonomia, o entusiasmo e a possibilidade de ganhar muito dinheiro. Empreendedores disruptivos são os garotos-propaganda desse modelo de negócios. Um exemplo é Travis Kalanick, que foi um dos fundadores do Uber em 2009 e hoje tem uma fortuna de US$ 6 bilhões, segundo a revista "Forbes".

Empregos tradicionais atraem empreendedores

Mesmo assim, há pessoas como Voss que fazem o caminho inverso e trocam a vida de empreendedor por um cargo em uma grande companhia. Além disso, muitos outros são forçados a procurar um emprego "tradicional" quando suas próprias empresas quebram. Essa pode ser uma pausa curta, até que eles se arrisquem novamente, ou uma mudança duradoura, mas esses empreendedores que viraram funcionários se deparam com prazeres inesperados – e também restrições – na vida corporativa.

Voss diz que adorou os cinco anos que passou consolidando a BlikBook e que foi um período fundamental para seu desenvolvimento profissional. "Coloquei-me em situações desconfortáveis e aprendi a lidar com isso". A camaradagem entre seus parceiros no negócio também foi importante: "A equipe era pequena e eu gostava disso. Éramos nós contra o mundo e isso nos ajudou a criar laços fortes".

Mesmo assim, quando chegou a hora de vender a companhia para o grupo americano Civitas Learning, ele percebeu que queria dar uma pausa no empreendedorismo e entrou para o Google como executivo da área de marketing. A segurança teve grande peso na decisão, pois ele não se sente mais responsável pela empresa inteira se algo dá errado: "Sei que isso não vai derrubar a companhia. Antes, eu achava que iria." Hoje, ele gosta da experiência e do apoio que pode ter com um grupo de tecnologia desse porte. "Você não precisa saber tudo. Pode conseguir ajuda e ver o que outras pessoas já fizeram."

Chris Doman, graduado em ciências da computação e criador de um mecanismo de busca de hotéis junto com um amigo da faculdade – que posteriormente eles venderam -, trabalha hoje na área de segurança cibernética da PwC. O treinamento foi um dos motivos que o levaram a entrar para a consultoria. Enquanto trabalhou com o amigo, ele se sentiu "estático", desejando se desenvolver na carreira. "Quando eu estava por conta própria, adquiri maus hábitos no setor tecnológico, e queria melhorar. Agora, as pessoas me ajudam nesse ponto."

Foi o que aconteceu com Chloe Macintosh, cofundadora da Made.com, uma varejista on-line de móveis. Hoje, ela é consultora da Soho House, um clube privado que oferece serviços diversos. "É bom fazer parte de algo e se concentrar em aprender com os outros", diz. Chloe vê seu trabalho atual como uma pausa importante após cinco anos construindo uma companhia do zero.

"Acho que pular de uma startup para outra não é uma coisa muito saudável", diz. Em sua opinião, é impossível ser criativo – algo essencial em companhias iniciantes- se você está prestes a ficar esgotado. "É preciso manter a sanidade e ter muita energia para começar uma empresa. A tensão é constante."

Ela também acredita que passar um período como funcionária pode fornecer uma dose de humildade aos empreendedores. "Muitos dizem que não conseguem trabalhar para os outros. Isso pode ser um sinal de ego inflado demais e também de que eles talvez não seriam bons gestores."

Chloe Macintosh questiona a aura romântica que cerca o empreendedorismo. "As pessoas querem preservar a cultura da startup. Para quê? Isso pode ser terrível. Você não tem mais vida própria, não tem mais benefícios." Há também, continua ela, uma crença entre os funcionários de grandes empresas de que os pequenos empreendimentos estão livres das fofocas de trabalho. "As políticas são diferentes, mas as startups precisam discutir, por exemplo, como dividir o capital. As pessoas acham que dirigir uma empresa própria é mais simples, mas não é."

Chris Barton, cofundador do aplicativo de música Shazam, que em 2004 trocou a empresa pelo Google, na época com apenas cerca de dois mil funcionários, diz que a dicotomia entre empresa estabelecida versus startup é falsa. Muita coisa, afinal, depende do estágio de desenvolvimento em que o negócio está. Mesmo assim, ele admite a ilusão de que uma empresa nova está livre da burocracia. "É um erro. Em uma grande companhia, você pode conseguir até mais liberdade e tempo para criar."

Poder se concentrar em uma parte do negócio, como fazem os funcionários, é libertador. "Na Shazam eu me preocupava com tudo, o tempo todo. No Google, posso me dedicar à minha área." Atualmente, ele comanda as parcerias com o Dropbox, que armazena arquivos na nuvem

Narry Singh, empreendedor baseado no Vale do Silício por 19 anos, tornou-se diretor-gerente de estratégias de negócios digitais da Accenture Strategy no ano passado, porque sentiu que seria o melhor lugar para se destacar. "Valorizo a distribuição e a escala de uma grande companhia. Você pode ter a melhor ideia do mundo, mas ela não será boa se apenas sete pessoas a estiverem usando."

Grandes empregadores, especialmente os bancos, vêm tendo que repensar seus cargos de entrada e a cultura corporativa para segurar e atrair talentos que têm optado pelo empreendedorismo. Stephen Stott, executivo-chefe da Stott & May, uma companhia de recrutamento de executivos, diz que as grandes empresas precisam se adaptar com a implementação de incubadoras e encorajar prêmios por inovação.

Mas Voss aconselha cautela aos empreendedores tentados a mudar. "Com frequência as empresas afirmam querer alguém com perfil e experiência empreendedora, mas na verdade elas não querem." Ele diz que embora seja difícil avaliar a cultura de uma companhia pelo lado de fora, é importante pesquisar o máximo possível, conversando com seus funcionários.

Os vários níveis de hierarquia podem ser um choque para os empresários que estavam acostumados a ter o comando. "Na minha empresa, eu podia instalar um servidor da internet em dez minutos. Isso não seria possível na PwC", ressalta Doman.

Essa notícia foi publicada no site do Valor Econômico, em 02/12/2015 

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