Empresas caçam alunos brasileiros no exterior

Data 08/01/2013

Em 2012, pela primeira vez, a companhia aérea TAM foi até as escolas de negócio mais renomadas dos Estados Unidos e da Espanha para recrutar alunos de MBA. A prática, que já existia na chilena LAN há sete anos, foi incorporada pelo lado brasileiro da Latam – após a fusão das duas empresas. "Cerca de 40% dos altos executivos da companhia têm MBA internacional. Esse tipo de formação traz um resultado diferenciado", afirma Claudia Palaikis, gerente de recrutamento e seleção da TAM.

Nesta primeira experiência, a preferência da companhia foi por estudantes latinos, em razão dos locais de trabalho. Ao chegar nas escolas, em julho, a TAM abordou 703 alunos. Desses, 278 foram considerados candidatos "target" e 200 fizeram uma primeira entrevista telefônica. Passada essa seleção, 183 foram escolhidos e 121 decidiram participar de fato do processo de recrutamento.

Ao fim, 60 passaram para a fase final de entrevistas, que aconteceu no mesmo dia nas cinco cidades em que a empresa tem escritório – São Paulo, Santiago, Miami, Lima e Bogotá. No Brasil, a TAM entrevistou 16 executivos e fez proposta para 11 deles. Eles foram convidados para cargos de coordenação ou gerência e a maioria já deu retorno positivo.

A TAM é apenas uma das empresas brasileiras que abriram os olhos para os MBAs internacionais de primeira linha. Danute Gardziulis, sócia-diretora da consultoria de recrutamento e avaliação de executivos Gardz, trabalha na área há 15 anos e diz que, no começo, eram poucas as companhias do país que recrutavam esse tipo de profissional.

"Apenas bancos e consultorias buscavam esses executivos. Hoje, somaram-se a esse grupo empresas de outras áreas", afirma. Ela cita como exemplos os setores de bens de consumo não duráveis, indústrias de base, de recursos naturais e da área de comércio eletrônico. "As empresas, cada vez mais, estão percebendo o valor do MBA para o executivo."

Para Denise Barreto, sócia da consultoria de recrutamento GNext, os bancos e as consultorias ainda contratam 70% dos alunos, mas, de fato, outras indústrias vêm aumentando gradualmente sua participação. Ela diz que o aumento também está relacionado à internacionalização das companhias brasileiras, o que fez com que elas passassem a buscar mais executivos com mentalidade global.

Além disso, Denise menciona que, com a crescente importância do Brasil para os mercados internacionais, as multinacionais passaram a delegar esse recrutamento para suas unidades brasileiras. "Antes, o processo de seleção era feito globalmente, pelas matrizes, e o Brasil não estava incluído", explica. Junta-se a esse cenário, o fato de cada vez mais brasileiros estarem fazendo um MBA no exterior, seja pelo maior acesso à informação sobre esses cursos, maior disponibilidade financeira ou por uma maior conscientização da importância desse tipo de formação para o desenvolvimento da carreira.

A farmacêutica Sanofi é mais um exemplo de empresa que passou a recrutar alunos de MBA este ano. O projeto é global, mas a unidade brasileira ficou responsável pela escolha dos executivos que vão trabalhar aqui. "Devem ser dois selecionados no Brasil ao final do processo e dez no total", afirma Rosilane Purceti, diretora de recursos humanos da companhia. Ela explica que a empresa está se tornando mais diversificada e, por isso, busca profissionais com diferentes experiências acadêmicas e de vida.

Os escolhidos, selecionados nas escolas de primeira linha dos Estados Unidos e da Europa, passarão por um programa interno de dois anos. Depois disso, assumem um cargo na diretoria da farmacêutica. "Serão seis meses no Brasil, seis meses na matriz, na França, e mais dois blocos de seis meses em outros locais onde a empresa atua", explica Rosilane. O processo de seleção ainda não está concluído, mas a diretora estima que haja entre cinco e seis candidatos para cada vaga aberta.

Na companhia, nunca foi obrigatório para um diretor ter um MBA fora do país. Rosilane afirma, no entanto, que a dedicação integral exigida por esses programas no exterior traz uma grande experiência de vida e um aproveitamento melhor do conteúdo oferecido no curso, o que acaba diferenciando esses profissionais. Ao escolher cursar um programa de MBA "full-time" no exterior, o executivo pode suspender a sua carreira pelo período do curso – que pode ser de 12, 18 ou 24 meses.

Danute, da Gardz, diz que a experiência com o MBA fora do país vai além do desenvolvimento das competências técnicas que o programa se propõe. "Esse tipo de vivência ajuda a desenvolver as chamadas 'soft skills', que envolvem a adaptação a novos ambientes, comunicação, trabalho em equipe e liderança. As escolas também se preocupam com isso", diz.

Segundo a consultora, em um MBA no exterior, o aluno consegue adquirir essas competências porque precisa conviver intensamente com os pares para os trabalhos em grupo – normalmente de diferentes países. Além disso, tem contato com professores de alto nível e precisam administrar a pressão pela intensidade do curso, além da ansiedade de não saber o que vai acontecer após o MBA.

Com a aquisição de tantas habilidades, esses profissionais sempre foram muito demandados ao fim do curso. Há pouco tempo, no entanto, nem todos pensavam em voltar ao Brasil. "Há seis anos, o executivo com MBA no exterior tinha o objetivo de trabalhar lá fora. Com o reposicionamento do país no cenário global, eles passaram a querer voltar", diz Denise, da GNext.

No Itaú Unibanco, a busca por profissionais com MBA nas escolas de primeira linha no exterior é fato consolidado e antigo. A diferença é que, antes de 2009, o programa não era formal. "O próprio Pedro Moreira Salles [presidente do conselho de administração do banco] aproveitava suas viagens internacionais e ia até as escolas para conhecer e entrevistar os brasileiros que estavam por lá", conta Maria Carolina Lourenço Gomes, superintendente de gestão de talentos da instituição.

Hoje, o banco tem um cronograma estabelecido de visita às principais escolas de negócios dos Estados Unidos e da Europa. Maria Carolina conta que alguns executivos da instituição financeira vão até as escolas apresentar a empresa nos "road shows" organizados pelas próprias instituições de ensino. Em uma segunda fase, representantes do banco voltam às escolas para realizar as entrevistas, tanto para posições em tempo integral quanto para os estágios, chamados de "summer jobs".

Maria Carolina diz que o Itaú Unibanco recruta tanto brasileiros como estrangeiros, desde que esses últimos tenham entendimento da língua portuguesa. Geralmente, esses profissionais chegam ao banco para ocupar posições gerenciais e, segundo a superintendente, as vagas são abertas em várias linhas de negócio como private, asset, tesouraria, comercial e varejo.

No primeiro ano em que o programa foi estruturado, em 2009, apenas um aluno foi recrutado. Neste ano, foram nove. "São profissionais diferenciados, com 'mindset' global e pensamento estratégico", diz Maria Carolina, explicando as razões da busca por esse tipo de profissional. "Além disso, eles adquirem uma riqueza de conhecimento pelo contato com professores 'top'", ressalta.


*Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 7/1/2013