Empresas deixam de ver profissionais que se demitem apenas como traidores

Data 18/08/2014

Carlos Guedes, 38, era diretor financeiro na empresa de tecnologia Micro Focus e pediu demissão no ano passado porque surgiu a oportunidade de um emprego que, ele acreditava, lhe traria novos desafios. Mas acabou se decepcionando e voltou para o antigo empregador após apenas oito meses.

Guedes é o caso clássico "profissional bumerangue", que deixa a empresa mas depois deseja voltar.

Esses funcionários já foram muito estigmatizados pelo mercado, considerados traidores, mas agora são vistos como um grupo que pode trazer benefícios.

"Às vezes a pessoa não quer sair, não está infeliz, mas surge uma oportunidade e ela quer tentar algo novo", diz Brad Harris, professor da Universidade de Illinois (EUA) e autor de estudos sobre o tema.

Segundo ele, em geral o funcionário que retorna à companhia é mais comprometido, já que viu que "a grama do vizinho não é mais verde" – a segunda passagem costuma ser mais longa que a primeira.

Marco Leone, diretor-geral da Micro Focus, diz que houve uma mudança de cultura na empresa: superar o dogma de não recontratar funcionários e perceber que a flexibilidade maior pode ser vantajosa para ambos os lados.

Harris diz que as companhias hoje aceitam mais esse tipo de situação, reagindo a um comportamento dos próprios profissionais: é natural que eles não queiram passar a vida toda em um mesmo emprego e queiram conhecer novos ambientes.

Mas ainda há resistência a recontratar antigos funcionários. Adriana Garcia, diretora de recursos humanos da fabricante de materiais de construção Amanco, diz que esse tipo de situação passa por uma análise criteriosa: é preciso avaliar o contexto da saída, o histórico de desempenho e o que aconteceu com a empresa durante o período.

Existe também o receio sobre a mensagem transmitida aos outros funcionários, especialmente nos casos em que a pessoa sai e volta em um cargo mais alto.

"Se um analista se demite e volta dois anos depois em um cargo maior, o recado que eu dou é que é preciso sair da companhia para crescer".

Um estudo feito por Harris e professores das universidades da Carolina do Norte, Cincinatti e Cristã do Texas aponta que uma das vantagens dos profissionais bumerangues é aproveitar os conhecimentos que eles adquiriam enquanto estavam fora.

Nei Tremarin, 49, saiu da empresa de tecnologia Mercado Eletrônico em 2012 para ir trabalhar na área comercial de uma companhia que estava abrindo o capital na Bolsa de Valores.

"Foi uma oportunidade bem legal porque a empresa estava em um processo positivo e interessante do ponto de vista profissional para mim", conta.

No período, ele diz ter aprendido mais sobre como expandir negócios internacionalmente e desenvolver novos mercados.

Há seis meses, foi chamado pelo empregador anterior para usar essa experiência e fazer a marca da Mercado Eletrônico ficar mais conhecida no exterior.

SEM RECLAMAÇÕES

Algumas empresas têm de aceitar o retorno por causa do perfil dos profissionais. A agência de marketing The Group trabalha hoje com cerca de dez funcionários bumerangues em uma força de trabalho de cem pessoas.

O presidente da empresa, Fernando Guntovitch, diz que é difícil reter funcionários porque e equipe é muito jovem e quer descobrir coisas novas no mercado.

Guntovitch, da The Group, conta que é raro a companhia não aceitar o retorno de algum funcionário.

"Ele volta mais maduro e para de reclamar sobre certas coisas: entende que é preciso ter regras e outras questões burocráticas", afirma.

Mesmo em casos como o da empresa, em que há um entusiasmo maior sobre os benefícios de quem sai e depois volta para a empresa, existem critérios para aprovar a recontratação.

Na hora de fazer análise, o RH considera a entrevista de desligamento do funcionário, a opinião do gestor para quem ele vai trabalhar e quanto tempo ele ficou fora da empresa. A empresa não recontrata funcionários que tenham ficado menos de um ano fora, que seria o tempo para ganhar maturidade e experiência.

A condição da saída é um dos contextos mais analisados pelas empresas ao arbitrar sobre uma recontratação. Por isso, especialistas recomendam que o profissional seja transparente sobre o que está motivando a decisão.

"Se a pessoa está saindo porque tem um novo desafio e quer tentar, é isso que ela tem que falar. Todo mundo vai compreender", aconselha Maurício Goldstein, da consultoria de gestão Corall.

Dov Bigio, 37, foi chamado de volta pela Locaweb depois de ter apostado em uma oportunidade que terminou não dando certo.

Em 2011, após seis anos na companhia, ele teve a chance de trabalhar em uma empresa iniciante que estava se reestruturando. Mas, apenas quatro meses depois, a equipe para a qual ele foi contratado foi desfeita.

"Eles resolveram mudar todos os rumos. Não foi nada de acordo com as expectativas que eu tinha", afirma.

Como manteve contato com os antigos colegas, ele contou o que tinha acontecido e pediu para avisarem caso soubessem de alguma vaga, e a empresa o chamou de volta. "O que valeu foi ter começado a dar valor para coisas com as quais eu talvez estivesse desgastado na primeira", diz.

 

Essa notícia foi publicada no site Folha de São Paulo, em 17/08/2014

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