Empresas flexibilizam horário de trabalho e facilitam a vida dos funcionários

Data 30/01/2012

 

Já imaginou ter tempo para organizar sua vida pessoal sem que isso interfira nas suas obrigações profissionais? Ou seja, cumprir sua agenda pessoal sem prejudicar a do trabalho – ou vice-versa. Pois para algumas pessoas isso não está mais apenas no campo da imaginação. Há funcionários de algumas empresas que já contam com o benefício da flexibilidade no horário de trabalho. A ideia é simples: há a liberdade de gerenciar o dia conforme as necessidades pessoais. E ninguém trabalha menos por isso. As cargas horárias – ou prazos de entrega de projetos – são respeitados. A diferença é em que período isso será feito. Mamata? Nada disso, dizem os especialistas. Trata-se, na verdade, de uma estratégia inteligente das organizações.

“A Cochrane Collaboration (órgão internacional que revisa e analisa pesquisas na área da saúde) avaliou uma série de estudos sobre assunto e confirmou que a flexibilidade no trabalho está fortemente associada a alguns indicadores de saúde”, informa o neurologista Ricardo Afonso Teixeira. “E funcionário com saúde não dá prejuízo. Tem menos doença, falta menos. É isso é retorno para a empresa.” O médico explica ainda que as pesquisas apontaram para três pontos: a hipertensão, o equilíbrio psíquico e o sono. “Há vários olhares sobre o trabalho (com relação à saúde), e um deles é o respeito à individualidade e à vida pessoal, onde entra o fator de flexibilidade do horário de trabalho”, esclarece Teixeira, também diretor do Instituto do Cérebro de Brasília (ICB).

Banco de horas

Entre as organizações que adotaram o sistema, a Bosch aparece como uma das pioneiras. Os funcionários da área administrativa da empresa – como os do Departamento Financeiro e o de RH, por exemplo – já podem administrar seus horários desde 1974. “Esse sistema funciona no contexto de um banco de horas, no qual o mensalista pode ter até 120 horas negativas e 60 positivas”, explica Renê Lopes, gerente de Recursos Humanos da planta de Campinas. “Se, por exemplo, a pessoa precisa chegar por volta do horário do almoço, ela combina com seu chefe e deixa esse período devedor no banco de horas.” O funcionário tem ainda a opção de usar esse “saldo” para se ausentar por meio período, o dia todo ou até mesmo por vários dias seguidos. “Essas 120 horas equivalem aproximadamente a 14 dias úteis”, segue o gerente. “Desde que seja negociado com a respectiva liderança, o funcionário pode usar esses dias de forma consecutiva, para fazer uma viagem, por exemplo.”

Segundo Lopes, a experiência ao longo desses 36 anos tem mostrado que, de fato, o sistema beneficia o funcionário e também a empresa. “O ganho é de mão dupla”, afirma. “Você tem um funcionário mais motivado, o que influencia no dia a dia.”

Funcionário da Bosch há dez anos, o analista de controladoria José Lobo é um exemplo dessa motivação. “O principal benefício da flexibiliade é a satisfação do funcionário e a tranquilidade de ele poder executar essas tarefas de ordem pessoal despreocupado com relação a essa questão do horário de trabalho”, afirma Lobo, que utiliza o benefício para levar o filho no colégio, podendo chegar às 9h no escritório, em vez de às 7h50, seu horário normal. “O ambiente melhora mesmo, eu posso dar o exemplo dos meus colegas de trabalho, que também usufruem o benefício e conseguem conciliar suas agendas, fazendo cursos de idiomas pela manhã, indo à academia ou levando e buscando os filhos na escola.”

Liberdade e responsabilidade

A Enken Comunicação Digital é outro caso de flexibilidade de horário para funcionários desde que foi criada, em 2004. No entanto, assim como acontece na Bosch, não é todo o quadro que consegue lançar mão do sistema, tudo depende do perfil de cada ocupação. “Trabalham com horários flexíveis somente os profissionais que ocupam cargos que permitam esse tipo de comportamento e que consigam fazê-lo de maneira eficaz”, explica David Reck, diretor da empresa. “Ou seja, um profissional de atendimento, por exemplo, dificilmente poderá iniciar o expediente em um horário qualquer, já que a grande maioria dos clientes atendidos trabalha em horário comercial.”

A medida confere muito mais liberdade para o dia a dia – um dos objetivos da iniciativa, segundo Reck. “É fato que todos temos problemas para resolver”, comenta. “Com um horário mais flexível isso é possível e o colaborador se sente mais motivado, já que tem um tempo livre para si próprio.”

Por outro lado, o diretor chama a atenção para a responsabilidade que essa liberdade traz. “É importante instruir os mais jovens, pois é grande a tendência a se perder em situações como essa de flexibilidade nos horários”, pondera. “Atualmente, todos os colaboradores possuem até uma hora de tolerância para atrasos na entrada e saída e cerca de 10% colaboradores adotam horários mais alternativos em algumas ocasiões ou de forma permanente.” Mas Reck é coruja com seus funcionários e conta que nunca teve problemas. “A equipe é bastante madura, fato importante para trabalhar dessa maneira.”

Melhora no trânsito

Embora faça questão de salientar que se trata de um paliativo, o urbanista e professor de planejamento urbano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) João Sette Whitaker admite a relação entre a flexibilidade de horários nas empresas e o trânsito. Mas essa equação não é das mais simples. “A questão central é que a estrutura de carga de veículos em São Paulo já está saturada há anos”, analisa. “Então você percebe que essas soluções são paliativas e têm muito pouco efeito, porque nós temos mil carros por dia entrando na frota municipal.”

No entanto nem tudo é tão cinza. Determinado bairros da cidade que concentram um grande número de empresas poderiam, sim, ter um trânsito menos afogado se a própria vizinhança se mobilizasse. “Por exemplo, se todas as empresas que estão localizadas nas proximidades da avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini (Zona Sul de São Paulo) adotassem essa política, você poderia eventualmente ter um impacto”, afirma Whitaker. “Não na cidade toda, mas numa região.”

Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 17/06/10.