Empresas investem mais em qualificação profissional

Data 04/01/2012

Mesmo com a diminuição do ritmo de contratações por conta da crise econômica, as empresas dos setores de mineração e siderurgia estão investindo pesado na formação de profissionais especializados. Com a expansão dos projetos nessas áreas, a demanda por mão de obra é grande e a saída encontrada pelas companhias tem sido apostar em programas de qualificação. Os números impressionam. Somente a Vale recrutou de janeiro a outubro do ano passado 19 mil trabalhadores – 14,5 mil deles no Brasil. A ThyssenKrupp CSA, que de 2007 até agora selecionou e formou 2,5 mil profissionais, abre anualmente 100 vagas qualificadas para a área de operação. E a ArcelorMittal, cuja rotatividade de pessoal é de 3% a 4% ao ano, busca anualmente 500 novos profissionais.

Segundo Onildo Marini, diretor executivo da Agência para o Desenvolvimento Tecnológico da Indústria Mineral Brasileira (Adimb), o alto nível de especialização é a maior dificuldade do setor. Da prospecção ao plano de desenvolvimento são realizados estudos aerogeofísicos, topográficos e geológicos que exigem a contratação de geólogos especializados em sensoriamento remoto e topografia, além de geofísicos, químicos e geoquímicos, entre outras atividades.

"Geólogos e geofísicos são requisitados por outros segmentos da economia. É dura, por exemplo, a concorrência com o setor de óleo e gás. A Petrobras busca o engenheiro ainda na universidade. E as empresas de mineração têm que ser competitivas com salários equivalentes", observa Marini. O diretor da Adimb explica que a demanda de contratação é cíclica na mineração. "Na crise de 98, quando houve forte queda no preço das commodities, a procura por mão de obra caiu bastante. Em 2010, houve incremento no preço e reaquecimento. Mas este ano houve nova queda e as empresas estão colocando o pé no freio", justifica.

Esse cenário atinge também a siderurgia. A ArcelorMittal reduziu à metade as contratações no segundo semestre, informa o vice-presidente de RH, Ricardo Garcia. Segundo ele, a grande lacuna do setor é de engenheiros metalúrgicos, e já há escassez de engenheiros mecânicos. A empresa investiu nos últimos três anos R$ 45 milhões em capacitação e participa do Consórcio Mínero Metalúrgico, ao lado da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais e empresas da região, para fomentar a formação de mão de obra. A iniciativa se dá por meio de convênios com universidades federais mineiras, parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e Centros de Formação Técnica. Internamente, a siderúrgica promove programas de trainee – na última edição, 100 engenheiros foram enviados para plantas em alguns dos 60 países em que a empresa opera. "Eles já estão fora há 2 anos e meio e em janeiro começaremos a repatriá-los para suprir as demandas do Brasil", anuncia.

No início de sua operação no país, a ThyssenKrupp CSA capacitou 1,8 mil profissionais — um terço deles com treinamento intensivo no Senai. A empresa ainda contratou 800 profissionais de áreas técnicas e 280 com algum conhecimento siderúrgico, beneficiados com treinamento na Alemanha, de 12 a 18 meses.

Hoje, segundo Valdir Monteiro, diretor de recursos humanos, a empresa avalia novo modelo de formação e capacitação, o de universidade dual: o aluno passa metade do curso na universidade e os últimos anos aprendendo na prática na siderúrgica, já como contratado. "Estamos conversando com uma universidade alemã e com empresas no Brasil, como a Gerdau, interessada no projeto. Mas minha dificuldade hoje é de retenção. Em 12 meses, perdemos 12 engenheiros para o setor de petróleo", lamenta.

A Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), que atua na difusão do conhecimento técnico, oferece cem cursos de capacitação por ano. Entre eles, pós-graduação lato sensu em metalurgia, mineração, transformação mecânica e laminação, em parceria com a PUC-MG e a Universidade Federal de Ouro Preto. Em 2009, desenvolveu o estudo Talentos da Siderurgia. "O levantamento mostrou a necessidade de investir muito até 2014. Ou formamos profissionais ou vamos importar gente. Em 2010, foram expedidas licenças de trabalho para 25 mil estrangeiros", alerta Horacídio Leal Barbosa Filho, diretor executivo da ABM.

A Vale não enfrenta problema de oferta de mão de obra. "A empresa é reconhecida como boa empregadora, o que existe é deficiência de qualificação", diz Desiê Ribeiro, gerente geral de educação e desenvolvimento. A Vale investiu em 2011 R$ 168,1 milhões (US$ 90 milhões) em treinamento — R$ 148 milhões (US$ 79,2 milhões) no Brasil –, por meio de programas que qualificam profissionais em todos os níveis.

O Programa de Formação Profissional prepara jovens do ensino médio e de escolas técnicas – foram 8,2 mil de 2003 a 2010, e mais 2,7 mil em 2011. Já o Programa de Especialização Profissional recruta engenheiros com três a cinco anos de experiência e aplica pós-graduação intensiva: beneficiou 485 profissionais (de 2008 a 2010) e mais 175 neste ano. Neste ano, a Vale registrou ainda a participação de 2.182 profissionais no curso de desenvolvimento de lideranças. "Temos 95% de aproveitamento nesses programas", diz Ribeiro.

A Gerdau, por sua vez, fez aporte de R$ 21,1 milhões em 2010 em treinamento e desenvolvimento, por meio de programas como o Sistema de Capacitação Industrial (SCI). A empresa mantém ainda programas de estágio, trainee e de capacitação técnica específica (aciaria, laminação, mineração) e o Gerdau Business Program – GBP, de educação executiva, para formar líderes globais.

Atualmente a MMX, que realiza treinamentos e cursos de qualificação em parceria com o Senai e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), aplica o Programa de Qualificação Profissional a trabalhadores que serão absorvidos na operação da Unidade Serra Azul, em expansão.


Essa notícia foi publicado no Valor Online, em 2/01/2012.