Empresas investem no combate à dependência química

Data 22/01/2013

Um operador de máquinas da Goodyear começou a cheirar cola aos 13 anos. Pouco tempo depois conheceu a maconha e, aos 28 anos, virou usuário de cocaína. Exaurido pelos problemas causados pela dependência química, ele decidiu mudar o estilo de vida. E foi na empresa que encontrou o apoio necessário para dar fim ao vício. A ajuda partiu de um programa de combate à dependência química, o Prosa G, implantado na fábrica da Goodyear em Americana (SP). Como o operador de máquinas, quem decide participar do projeto, que tem duração de dois anos, recebe acompanhamento médico e psicológico.

Durante o primeiro ano, o apoio é estendido aos familiares e a etapa final do tratamento incluiu 30 dias de internação em uma clínica especializada, além de todo suporte posterior.

Outro funcionário da Goodyear, da área de construção de pneus, abandonou a dependência ao álcool, engrossando a lista dos quase 60 colaboradores que o programa já reabilitou desde sua implementação, em 2005. Ele conta que já conhecia o programa por meio das palestras na empresa, mas só aceitou a ajuda quando percebeu que a dependência afetava sua rotina, inclusive durante o expediente. “Eu deixei de ser responsável, não tinha compromisso com o trabalho, não cumpria todas as normas e tinha deixado até de usar alguns equipamentos de segurança”, afirma. Hoje, aos 37 anos, não sente saudade da vida que levava anteriormente.

Para o gerente de Recursos Humanos da Goodyear de Americana, José Carlos Marzochi, o segredo da eficiência no combate ao abuso do álcool e entorpecentes no ambiente de trabalho é um programa voltado tanto para os interesses da companhia quanto dos colaborares e de seus familiares. “O assunto exige atenção especial das áreas de Medicina do Trabalho, Assistência Social e RH das organizações que buscam melhoria contínua”, diz Marzochi. Ele lembra que o consumo de drogas está diretamente relacionado a acidentes de trabalho, queda de produtividade, absenteísmo e deterioração das relações sociais e familiares.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 71% dos usuários de drogas ilícitas em todo mundo estão empregados e fazem parte do mercado de trabalho. Os profissionais ouvidos pela reportagem destacam que, se não fosse o apoio recebido da empresa, não teriam abandonado o vício. “Voltei a sonhar”, ressalta o operador de máquinas, que se diz ainda mais feliz por ter estabelecido um elo mais forte com a filha.

Redução do fumo

Já o programa antitabagismo da ArcelorMittal, em Tubarão (SC), conseguiu reduzir de 34% para zero o número de fumantes entre seus 4,8 mil colaboradores. Desde o início, em 1993, a produtora de aço contabilizou uma economia de R$ 30 milhões com despesas médicas. Aberta para os contratados e também para os terceirizados, a iniciativa espera, além do benefício financeiro, contribuir para que nenhum desses profissionais tenha futuramente uma das 53 doenças a que estão mais expostos os dependentes do cigarro.

O programa surgiu após a realização de uma pesquisa, em 1992, que mapeou o número de fumantes, há quanto tempo fumavam e qual o interesse em parar com o vício. O tratamento inclui a formação de grupos de apoio, palestras educativas, acompanhamento médico e uso de medicamentos, exames periódicos e implantação de áreas restritas para o fumo.

Segundo o gerente de Saúde e Medicina da ArcelorMittal, Fernando Ronchi, a primeira turma contou com 20 empregados que aderiram imediatamente. O programa foi ganhando força na medida em que os resultados eram percebidos pelos colegas. “O tratamento é realizado em grupo, em que cada empregado conta suas experiências, aflições e constrangimentos, além de refletir sobre a importância de parar de fumar”, afirma Ronchi. Quem precisa de suporte medicamentoso conta com uma equipe multidisciplinar que garante todas as orientações e suporte. “As reuniões acontecem a cada quatro semanas, durante seis meses”, acrescenta o gerente, complementando que o controle passa a ser feito posteriormente por meio dos exames periódicos.

Um programa antitabagista também faz parte da política da Dow Brasil. A iniciativa visa melhorar a qualidade de vida dos profissionais e já resultou em redução considerável do percentual de tabagistas na empresa. No início do projeto, em 1995, 24% dos colaboradores eram fumantes; em 2012, apenas 5% deles fumavam. Lucio Ribeiro, coordenador dos Serviços de Saúde da companhia, explica que quem adere à iniciativa tem, além de toda a estrutura de apoio, subsídio de 80% na compra dos medicamentos necessários para abandonar o vício. “Acreditamos que os investimentos em iniciativas como essa são ínfimos comparados ao retorno”, diz ele, referindo-se aos benefícios tanto para a empresa quanto para o colaborador.

Apesar dos resultados satisfatórios, as empresas que dão suporte aos dependentes ou que têm projetos nesse sentido são exceções no Brasil, segundo a psiquiatra e conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecilia Roselli Marques. Preocupada com as consequências do trabalho sob efeito de substâncias químicas, Ana é favorável a políticas empresariais sobre drogas e a adoção de testes toxicológicos obrigatórios no ambiente de trabalho, principalmente em atividades que colocam a vida de outras pessoas em risco, como operadores de máquinas. Uma ideia da gravidade são os dados do Ministério da Saúde, que registram que o álcool é responsável por 50% do absenteísmo – terceira causa de faltas ao trabalho – e licenças médicas – três vezes mais que outras doenças. O abuso de álcool também reduz em até 67% a capacidade produtiva do funcionário e é responsável por cerca de 25% dos acidentes de trabalho. “As empresas precisam encarar a dependência química de frente, como uma doença e sem preconceitos”, afirma Ana Cecilia.

No Brasil, exceto a Lei 12.619/12 – que obriga o motorista profissional a submeter-se a exames toxicológicos – não existe nenhuma previsão legal para a realização desses testes por parte do empregador, explica Giancarlo Borba, advogado especializado em direito trabalhista. Livre para decidir se deve ou não submeter a equipe ao procedimento, Borba alerta para outros detalhes. “É importantíssimo que seja esclarecido que o exame será feito por profissionais especializados, usando métodos confiáveis e que o resultado permanecerá em total sigilo”, afirma ele, que completa: “Além disso, deve se deixar claro que o resultado admite contraprova”.


*Essa notícia foi publicada no site Canal RH, em 16/1/2013