Empresas pensam em novas formas de criar interação entre funcionários

Data 07/05/2013

As empresas não querem mais deixar a criatividade para o acaso. As companhias estão pensando em novas maneiras de encorajar interações entre profissionais que normalmente não trabalham juntos. A esperança é que essas conversas casuais entre pessoas com habilidades diferentes possam gerar novas ideias, levar a novas soluções ou, pelo menos, a um aumento na camaradagem no ambiente de trabalho.

Para que essas relações aconteçam, algumas empresas adotam uma abordagem científica – colecionar e analisar dados sobre suas equipes e calcular matematicamente a probabilidade de determinados funcionários se encontrarem. Em alguns casos, elas estão apertando colaboradores em espaços menores para que eles tenham mais chances de esbarrar uns nos outros. Algumas companhias, ainda, instalam recados divertidos, como trívias, para fazer com que colegas de trabalho conversem em áreas em que normalmente não o fariam, como elevadores.

Mas apesar da popularidade da "serendipidade" (descobertas positivas feitas por acaso), tema discutido em vários painéis na conferência de tecnologia South by Southwest Interactive, é difícil saber com certeza se os esforços compensam. O verdadeiro desafio, dizem  empresas e especialistas, não é apenas conectar funcionários com colegas de trabalho, mas promover as conexões entre os profissionais certos.

"As relações mais produtivas são difíceis de fabricar", diz Jason Owen-Smith, sociólogo da Universidade de Michigan que estuda a colaboração entre empregados.

A planta para a nova sede do Google, que deve ficar pronta em 2015, foi feita para maximizar conversas casuais entre colegas, que a empresa diz serem responsáveis por inovações como o Gmail e o Street View. "Nós queremos que seja fácil para os 'Googlers' colaborarem e se encontrarem uns com os outros", diz uma porta-voz da empresa.

Não surpreende que os planos do Google sejam resultado da obsessão da companhia com dados. Por exemplo: todos os funcionários do complexo de mais de 100 mil metros quadrados devem estar a uma distância de dois minutos e meio de caminhada um do outro. A empresa e a firma de arquitetura NBBJ pesquisaram a velocidade com que as pessoas andam e mediram o diâmetro do espaço de diversos ângulos. Além disso, a planta do térreo é mais estreita do que em escritórios normais, mantendo equipes à vista umas das outras.

Estudos descobriram que ter funcionários trabalhando próximos uns dos outros leva a mais colaboração. Pesquisadores da Universidade de Michigan que analisaram 172 cientistas descobriram recentemente que, quando os pesquisadores compartilhavam os mesmos prédios e se encontravam a caminho de lugares – ou seja, quando andavam entre os laboratórios e os escritórios, o banheiro mais próximo ou o elevador –, eles tinham mais chance de colaborar: para cada 30 metros de "sobreposição territorial", as colaborações aumentaram em até 20%.

“Quanto mais frequentemente você vir e se encontrar com um colega, mais chance você tem de começar uma conversa com ele”, diz Owen-Smith, principal autor do estudo. "Se essa pessoa sabe de coisas que você não sabe, esse processo pode levar à transferência de informação", diz ele.

A empresa de varejo on-line Zappos vai encorajar a "colisão" de profissionais na nova sede de 18 mil metros quadrados em Las Vegas, para onde vai se mudar neste outono. Inspirada por cidades densas, que geram mais interação do que subúrbios espaçosos, a Zappos vai destinar um espaço de nove metros quadrados por funcionário, ao invés dos 13 disponíveis no atual escritório. As salas para intervalos serão "muito pequenas, para que as pessoas literalmente colidam", diz Patrick Olson, gerente sênior de desenvolvimento de campus da Zappos.

Menos espaço por pessoa também é uma forma de cortar custos.

O novo escritório também foi desenhado para que os 1.500 funcionários tenham contato próximo com a cidade como um todo. A empresa vai fechar uma passarela que conecta a garagem com o prédio de escritórios, para que os colaboradores tenham que andar mais para chegar ao edifício, passando por pedestres no caminho. A Zappos também vai abrir o lobby do prédio como um espaço gratuito de coworking, para que os seus funcionários possam interagir com profissionais de outras empresas e visitantes. Nos elevadores, a companhia espera instalar jogos eletrônicos, como quizzes, para quebrar silêncios constrangedores, diz Olson.

"Nós vemos esses pontos de conexão no térreo como mágica", diz Olson, que trocou um emprego na área de tecnologia para um trabalho no setor imobiliário depois de uma conversa por acaso com seu atual chefe e conheceu sua noiva em um evento no trabalho.

Outras empresas estão testando "quebra-gelos" para aproximar funcionários. David Rose, pesquisador do MIT, desenvolveu em parceria com as empresas de design Gensler e Tellart uma série de instalações interativas que devem ser usadas no fim deste ano nos escritórios de São Francisco e Portland da empresa de tecnologia Salesforce.com, e eventualmente em outras companhias.

Entre as instalações estão um quiosque de "botão de almoço", que combina funcionários com interesses similares para almoçarem juntos naquele dia. E há um "portal da conversa" – um sistema de videoconferência ao fim de uma longa mesa de café – para ajudar a "gerar conversas informais" entre profissionais de escritórios ao redor do mundo, diz Rose. Outra é uma "mesa de equilíbrio de conversas", onde uma tela animada oferece feedback instantâneo se alguém está monopolizando a conversa.

Os funcionários da Salesforce.com de Portland podem eventualmente entrar e sair por "portas votantes", em que perguntas como "torta ou bolo?", ou "seu trabalho está motivando seu gênio interior?" farão os colaboradores escolherem entre uma porta de "sim" e outra de "não". A empresa não quis comentar os planos.

Os esforços nem sempre precisam custar muito dinheiro. Nos últimos dois anos, a National Public Radio promoveu seis "dias de serendipidade", em que cerca de 50 funcionários de departamentos diferentes, como digital, engenharia, recursos humanos e redação, se oferecem voluntariamente para pensar em novas ideias e projetos durante um período de dois dias. Uma ideia do programa é "trabalhar com grupos que normalmente não trabalhariam juntos durante a semana", diz Lars Schmidt, diretor sênior de aquisição de talento e inovação, que diz que nas últimas seções ajudou a desenvolver um programa de treinamento em mídias sociais.

Na empresa de marketing de Boston CTP, os funcionários trocam de mesas e escritórios todo verão. A empresa começou a iniciativa para encorajar mais contato entre executivos criativos e de conta, que não costumam sentar próximos uns dos outros ou interagir muito.

Tentativas de criar serendipidade não são totalmente novidade. Steve Jobs desenhou a sede da Pixar com banheiros centrais para que as pessoas de todos os departamentos esbarrassem umas nas outras. E empresas têm adotados plantas abertas ou até passado a não ter lugares marcados para que os funcionários interajam mais. Ao anunciar a proibição ao home office, o Yahoo comentou em um comunicado interno que encontros nos corredores ou na lanchonete podem levar a novas ideias.

Mas a maioria das empresas ainda é "muito primitiva nisso", diz Greg Lindsay, professor visitante da Universidade Nova York que estuda interações no ambiente de trabalho. "Elas comprimem as pessoas no mesmo espaço, colocam máquinas de café e esperam que algo de bom aconteça.”

*Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 03/05/2013

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