Empresas que demitiram e fizeram cortes às pressas durante a crise agora enfrentam dificuldades

Data 30/01/2012

 

Com a retomada do crescimento econômico, muitas empresas estão se dando conta que agiram apressadamente na hora da crise e começam a sofrer as consequências tomadas para resolver problemas no calor do momento. E, na grande maioria das vezes, a onda de demissões e cortes de custos que se viu não só foi desnecessária como criou para as companhias uma série de questões difíceis de contornar, como a escassez de talentos. O grande erro foi ter feito as reformas na estrutura na hora errada. “As empresas, em vez de repensarem a gestão quando estão em alta, deixam para resolver na hora da crise e as decisões acabam sendo tomadas para solucionar problemas em um curto prazo, o que pode impactar negativamente mais para frente”, explica Antonio Tadeu Pagliuso, consultor da Holus Gestão Organizacional.

No cenário atual de economia aquecida, com a indústria e o comércio a toda, uma das grandes consequências das decisões apressadas no momento de crise é a falta de pessoal qualificado. “Não só a primeira iniciativa quando surgiu a ameaça da crise foi reduzir o número de pessoas como foram cortados funcionários com maiores salários, justamente aqueles que detêm maior conhecimento”, diz Pagliuso. Os talentos demitidos no ano de incertezas começam a fazer falta, especialmente em um momento no qual profissionais qualificados estão se tornando verdadeiros artigos de luxo no mercado brasileiro. Agora,o período é de readmissão, porém com uma certa dificuldade. “A escassez de talentos vem sendo uma crescente”, avalia o especialista.

Um setor que vem sofrendo muito é o da indústria. Encontrar engenheiros qualificados no mercado tem sido uma verdadeira saga. Ainda mais com a proximidade da Copa do Mundo e da Olimpíada, eventos que vêm exigindo uma corrida do setor de infraestrutura para dar conta das obras necessárias. “O Brasil tem na agenda dois grandes eventos que já estão sendo impactados”, avalia Pagliuso.

O grande problema, segundo o especialista, é a falta de planejamento. “Um bom engenheiro leva cerca de dez anos para ser formado. A Copa do Mundo é daqui quatro anos e as Olimpíadas em seis, ou seja, não vai haver tempo para formar novos profissionais”. Segundo ele, “a empresa tem de pensar no crescimento no momento das vacas gordas, tem de sentar e planejar um crescimento sustentável levando em conta diferentes cenários”.

Busca constante

Antonio Caminhato, diretor do Grupo Soma, avalia que as empresas, agora, devem voltar seus investimentos para a retenção de talentos. “As empresas devem estar atentas não apenas para remunerar seus colaboradores como também devem implantar as políticas de gestão que os profissionais de recursos humanos vêm falando há anos e não eram ouvidos pelos decisores, que optavam por investir em outras áreas.”

A busca por uma gestão eficiente, segundo Caminhato, deve ser uma constante e não ser pensada somente em momentos de crise. “As empresas que no passado investiram em políticas de retenção de talentos estão menos frágeis para manter suas equipes”, explica. “A troca de emprego por um salário melhor é uma realidade inimaginável alguns anos atrás”.

A economia brasileira, ao ser bem menos impactada pela crise que as grandes potências mundiais, mostrou robustez e revelou, também, que as empresas podem se programar para planejar a atuação de uma maneira mais linear, sem ter de tomar decisões em períodos de crescimento muito elevados ou de temor de uma crise.

A Suzano Celulose e Papel é um bom exemplo. “Ela se propôs a atacar a crise em vez de se preparar para ela. A empresa não teve números elevados de cortes e se propôs não colocar o pé no freio, apenas tirar do acelerador”, afirma Pagliuso. “O ideal é que as empresas não tenham picos de crescimento para que, a uma primeira adversidade, tenham de dar passos para trás”, finaliza.

Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 26/08/10.