Empresas vão arrumar a casa em 2015

Data 19/12/2014

Após as incertezas que marcaram 2014, os consultores de carreira já traçam as previsões para o mercado executivo nos próximos 12 meses. Em termos gerais, as análises apontam para um período de transição entre a estagnação atual para avanços mais consistentes em 2016 e 2017. O ano que vem, dessa forma, será uma "ponte", ladeada de muitas indefinições para um crescimento mais estruturado.

Para André Freire, presidente da Odgers Berndtson, empresa de recrutamento de executivos, ainda é necessário entender os rumos da economia e do segmento de infraestrutura, sob o impacto de variáveis como a Operação Lava-Jato. O cenário nebuloso, em sua opinião, é uma oportunidade para os profissionais demonstrarem suas competências. "Os momentos de crise colocam o executivo à prova", diz. Além disso, escolhas erradas ou apressadas, feitas quando a economia estava favorável, se tornam mais evidentes, o que pode resultar em maior movimentação nos quadros das empresas. "A maior parte das oportunidades que vão surgir para os executivos em 2015, como já aconteceu este ano, virá de substituições", afirma. Além das trocas por performance, Freire destaca as que vão ocorrer por corte de custos, que levam a uma espécie de "juniorização" nas contratações.

Outra tendência é a combinação de funções, também com o objetivo de enxugar a folha de pagamento. Um exemplo é a junção de áreas como operações, logística, "supply chain" e compras sob o guarda-chuva de um mesmo gestor. Na perspectiva de Jacques Sarfatti, diretor-presidente da Russell Reynolds no Brasil, o ano de 2015 estará mais aquecido que o atual. O consultor argumenta que muitas empresas vão desengavetar contratações e projetos que estavam congelados. "Passadas Copa e eleições, o mercado já começou a dar sinais de melhora", avalia. De acordo com ele, com parte da equipe econômica do governo definida, as companhias estão se organizando para rever suas estratégias de negócio. "Não voltaremos a um patamar excepcional, mas será melhor que o de stand-by do início deste ano."

Gino Oyamada, sócio-gerente da Fesa, concorda que a nomeação do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, traz um alento, pois sinaliza que a política macroeconômica precisa ser revista. "Empresários com visão de futuro se antecipam à melhora do mercado para tomar medidas, considerando novos negócios e a entrada em novas regiões". Segundo Oyamada, as movimentações no mercado executivo também vão estar relacionadas ao aumento do número de fusões e aquisições no país, que invariavelmente requerem mudanças no capital humano das organizações.

Nesse panorama, redefinições de estratégias na área financeira deverão motivar a busca por "controllers" e CFOs, de acordo com Sarfatti. Para Oyamada, esse gestor precisa ter a capacidade de administrar custos e estruturar uma relação diferente com o mercado financeiro. "O Brasil precisa descobrir novas fontes de financiamento, uma vez que o modelo via bancos públicos está esgotado. As fontes privadas deverão se fortalecer." Ainda nessa seara, uma das apostas de Renata Dinkelmann, diretora da Egon Zehnder especializada no setor financeiro, é na demanda por profissionais de tecnologia financeira.

São eles que cuidam da automação de processos na área, como os de crédito e financiamento. Além disso, Sarfatti, da Russell Reynolds, destaca o setor de TI como um dos mais aquecidos. "Começa a haver uma incorporação da parte de digital nas estratégias dos negócios das empresas", afirma o headhunter. Outros profissionais que serão bastante requisitados, segundo Freire, são os engenheiros – especialmente os que falam inglês e aliam conhecimentos técnicos a competências de gestão. "Os mais qualificados estão empregados e não querem sair. Os salários estão inchados", enfatiza.

Os consultores também destacam que haverá demanda por CEOs devido aos investimentos de fundos de "private equity" estrangeiros em companhias brasileiras de porte médio – com faturamento entre R$ 50 milhões e R$ 300 milhões. "Será preciso procurar talentos para as posições de presidente ou gerente geral com o intuito de obter uma melhor estrutura de governança", afirma Freire. Os executivos que serão cobiçados por essas corporações, segundo Renata, são os que fizeram carreira em multinacionais sólidas e reconhecidas. Os CEOs também deverão ser alvo de universidades, que buscam uma gestão mais profissional a partir do momento em que, por exemplo, começam a ter ações negociadas em bolsa.

Um setor que continuará em crescimento e empregando executivos, de acordo com os especialistas, é o farmacêutico. "A população está envelhecendo, e o próprio governo investe no segmento de saúde", diz Sarfatti. De acordo com Renata, o acesso da classe média emergente ao sistema de planos de saúde fomenta o surgimento de oportunidades de gestão também em hospitais e fabricantes de máquinas e equipamentos. As exigências por resultados das companhias levarão ainda à abertura de vagas para conselheiros, na opinião de Sarfatti. Segundo ele, as empresas detectam a necessidade de ter conselhos mais fortes e atuantes, que olhem para o negócio mais detalhadamente. "Tratam-se de conselheiros independentes e com visões distintas, mas com capacidade de acompanhar o que será executado em relação ao plano de negócios", afirma.

As adequações estratégicas em virtude do momento econômico do país vão atingir também os departamentos de recursos humanos e de marketing. Para Freire, os profissionais de RH mais valorizados serão os de perfil consultivo e estratégico, dada a necessidade de reter e qualificar pessoas internamente. Buscar opções no próprio quadro de funcionários na hora de preencher uma vaga, aliás, será prioridade nas empresas no ano que vem. "Elas precisam desenvolver um olhar mais crítico para o desenvolvimento de seus talentos", afirma Renata. As áreas comercial e de marketing, por sua vez, demandarão pessoas com uma visão mais inovadora, com o objetivo de criar ações que reforcem a diferenciação da concorrência.

No que diz respeito a salários, os executivos que planejam buscar oportunidades de trabalho em 2015 não devem esperar por grandes propostas. Os contratantes, na avaliação dos consultores, vão oferecer benefícios e desafios de carreira. "Vejo um movimento de baixa de salários e pessoas dispostas a trocar vantagens financeiras por maiores responsabilidades e desafios", diz Renata, da Egon Zehnder. Incentivos financeiros de médio prazo como atrativo também estarão em alta.


Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 17/12/2014

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