Escassez de talentos evidencia falha na formação em escolas

Data 13/10/2014

A disputa por talentos no mercado de trabalho global está longe de se tornar menos árdua. A busca, no entanto, não é só por competências de liderança, mas sobretudo por habilidades técnicas específicas como as de TI e engenharia. Essas são conclusões de um estudo mundial da empresa de recrutamento e seleção Hays nos 33 países em que atua.

Nick Cox, CEO regional para a Europa da Hays, esteve no Brasil para um encontro com o "board" da companhia. Segundo o executivo, as dificuldades relativas à escassez de profissionais mais qualificados surgem devido a desalinhamentos entre estratégias corporativas, políticas governamentais e os programas das escolas de negócio e universidades.

Há também um desequilíbrio entre as habilidades que as pessoas têm e as que são requeridas pelas organizações. Para ele, as instituições de ensino estão ficando muito preocupadas em municiar os alunos com "soft skills" e deixando de se aprofundar em conhecimentos técnicos.

No Brasil, a disparidade entre a demanda e a oferta de profissionais talentosos se tornou menos latente com o desaquecimento da economia, na comparação com anos anteriores. "É um fenômeno, porém, que vai crescer novamente se nada for feito a respeito."

Na opinião de Cox, mais pessoas hoje vão às salas de aula, mas isso não significa que elas estão aprendendo o que realmente precisam. Assim, as corporações devem dar prioridade aos talentos "na base", provendo inclusive apoio financeiro aos estudantes e orientando-os na aquisição de habilidades específicas que irão potencializar suas carreiras. "O mercado de trabalho mudou muito. Há dez anos, por exemplo, não havia a necessidade de conhecimentos em TI que temos hoje", afirma.

Por enquanto, essa postura proativa por parte de empresas e gestores na formação de perfis alinhados aos negócios está mais no discurso do que na prática. "Aos poucos os líderes têm percebido que não se pode sempre trazer pessoas de fora para preencher lacunas. É preciso estar mais próximo das universidades e alimentar o mercado treinando quem está no nível de entrada". Esse garimpo de jovens talentos é realizado exemplarmente na Índia, afirma.

Outro ponto levantado pela Hays é a diferenciação entre imigração em massa e migração qualificada. Na opinião de Cox, os governos deveriam estabelecer políticas para facilitar, e não restringir, a entrada de profissionais de alto nível nos países, especialmente os com competências na área de TI.

Em relação a características próprias dos cargos de liderança, o executivo vê a flexibilidade como o grande desafio em mercados em que o crescimento econômico esteja estagnado. Desenvolver as pessoas nesse sentido, segundo ele, não é responsabilidade das escolas de negócio, e sim das empresas, por meio de programas de educação corporativa.

O diretor da Hays ressalta que cada programa tem de ser adaptado à cultura e à estratégia da companhia. Se o objetivo é obter um crescimento rápido em um mercado dinâmico, os profissionais precisam ser desenvolvidos em uma velocidade compatível, e, nesse caso, surge outro desafio. É comum que negócios que crescem muito rapidamente não consigam formar pessoas no mesmo ritmo. "É preciso usar ferramentas como mentoring, treinamento interno e cursos externos. Além disso, mais companhias deveriam colocar seus executivos sêniores em programas de MBA para intensificar suas habilidades básicas."

As práticas de negócio têm de ser ágeis o suficiente para sobreviver em cenários financeiros tanto positivos como negativos. Planos de ação para os próximos cinco anos, exemplifica Cox, precisam ser reavaliados a cada ano do quinquênio – assim como as estratégias para atrair e reter os melhores profissionais.


Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 08/10/2014

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