Ética no meio corporativo

Data 05/01/2011

LG: Para você, o que seria ética profissional?

Júlio: Considerando que ética é um modo de vida coletiva, ou seja, um conjunto de normas, princípios de convivência e reflexão sobre a vida que vale apena ser vivida, então a ética profissional seriam esses mesmos elementos aplicados não a todas as instâncias da convivência, mas particularmente ao ambiente de trabalho e suas singularidades.

LG: Qual o papel da ética no sucesso de um profissional atualmente?

Júlio: Para entender bem esta questão, vale a pena retornarmos a primeira resposta:

Imagine se nossa vida social fosse totalmente comandada pela natureza, como se as regras sobre como nos relacionamos fossem instintivas. Se assim fosse, todos, independente da cultura ou do tempo em que vivem, agiriam uns com relação aos outros sempre da mesma forma. Parece claro que não é isso que acontece. Pessoas diferentes em lugares diferentes agem de formas diferentes, reconhecem e respeitam regras diferentes sobre como viver e conviver bem. Conclusão: a esta liberdade que temos, de normatizar a nossa própria existência, que torna a ética possível. Livres da natureza nas nossas relações, podemos questionar sobre como é melhor conviver.

Mas se temos essa liberdade, então porque criamos regras comuns? Temos, por um lado, a liberdade de criarmos as normas da nossa própria vida, mas, por outro lado, usamos essa liberdade para criarmos regras morais e sociais, porque socialmente criadas e que acabam por nos tornarem menos livres. Livres da natureza, mas presos uns aos outros, e o que somos. A resposta: criamos regras comuns porque se a ética e a preocupação com a vida boa, parte significativa das ações que podem melhorar ou piorar nossas vidas não são praticadas por nós mesmos, mas pelos outros a nossa volta. Não basta, portanto, cuidarmos de nossas próprias atitudes, a vida boa pressupõe que cuidemos das ações dos outros também.

Esclarecido esse ponto, retomamos a pergunta. Se a ética profissional pauta a convivência entre profissionais, ser um profissional ético é ser fundamentalmente alguém bom para com os demais de sua profissão. É ser alguém cujo comportamento profissional pode ser conhecido de antemão, alguém em cujas ações podemos confiar. Em suma, quando agimos eticamente em nossa profissão mandamos uma mensagem para os outros, iguais a nós: somos confiáveis, moralmente previsíveis.

O que consagra cada um de nós profissionalmente não são nossos próprios juízos e atitudes, mas o julgamento do outro. É o aplauso do público e admiração dos pares que faz do artista alguém consagrado em seu meio; o ator que se julga fenomenal, mas que ganha vaias do público e o desprezo dos colegas é um fracasso, a despeito de sua autoestima. Uma vez que nosso sucesso depende do aplauso alheio, ser confiável é fundamental.

A consagração sempre foi assim, dependente do juízo alheio, mas talvez isso fique mais claro no ambiente empresarial contemporâneo. As empresas hoje estão menos hierarquizadas ou mesmo naquelas de forte hierarquia, as distâncias sociais entre os de cima e os de baixo se mostram atenuadas. Não é raro que presidentes de empresas deem ouvidos aos mais humildes funcionários, assim como empresas realmente se preocupem com o que seus funcionários pensam da empresa e de suas atitudes. Não agem mais como Ford, que teria dito que os seus empregados não seriam pagos para pensar. Num ambiente assim, o número de pessoas a quem devemos nossa consagração dentro e fora da empresa e como os clientes aumenta, o que desperta nossa responsabilidade para com as formas de convivência com um número maior de pessoas. Em suma, em empresas autoritárias, a ascensão pode sustentar-se em bajulações, mas em empresas modernas e democráticas o sucesso profissional depende fundamentalmente de um comportamento ético e profissional.

LG: Qual a importância do código de ética em uma empresa?

Júlio: São importantes, ajudam, mas não são tudo o que se precisa para a criação de um ambiente ético numa empresa. Explico: quando alguém age de acordo com a norma do código de ética é possível se perguntar se, afinal, a conduta ética foi praticada porque o agente tinha a convicção de que agir daquele modo era o correto ou, ao contrário, no que dependesse de sua vontade faria o contrário, mas agiu diferentemente somente porque havia um código de ética e tinha medo das consequências por sua violação? Há uma diferença clássica no discurso filosófico entre a ação moral e consciente da norma moral e a jurídica e de acordo com a norma jurídica ou moral. Agir de acordo com uma norma não significa que o agente tenha a consciência do bem ou mal praticado pela sua atitude.

Mas códigos tem o seu papel. São, por um lado, um guia de conduta para todos na empresa e, por outro, são uma mensagem enviada aos que se relacionam com a empresa, como parceiros e clientes. Ele é uma demonstração de como a empresa espera proceder internamente, como se fosse um raio-x do caráter coletivo da empresa.

Há ainda um terceiro papel desempenhado pelos códigos, limite entre a obediência e a consciência. As vezes sabemos com clareza o que é certo fazer, mas isso nem sempre torna a ação mais fácil de ser executada. Nestes momentos o código pode ajudar. Ao agir assumidamente em obediência ao código, o recalcitrante tira de seus ombros o peso moral de sua própria atitude. Explico: imagine uma empresa em várias dificuldades financeiras e que se vá obrigada a reduzir custos drasticamente, inclusive demitindo. O responsável pela contenção de despesas sabe que tudo aquilo é necessário, mas isso não torna necessariamente fácil demitir alguém. Ao fazê-lo sente-se estranhamente culpado, diretamente responsável pela tristeza alheia. Quando a ação é cometida em nome de outros ou do código ou de princípios que orientam as ações da empresa e que são conhecidos e compartilhados por todos, ela se torna mais fácil, mais leve.

LG: Quais seriam os itens essenciais nos códigos de ética das empresas?

Júlio: Alguns temas são essenciais, como uma definição dos valores, de princípios que orientem a concretização destes valores e de normas acerca dos conflitos que realmente acontecem dentro de uma empresa.

Porém mais importante do que o conteúdo de um código de ética e o modo como ele é constituído. A moral de um grupo deve ser obra deste grupo e não uma imposição. Há duas formas tradicionais de se criar normas, a primeira é a da norma ditada pela autoridade previamente reconhecida, a segunda é a que podemos chamar de espontânea, criada pelos procedimentos quotidianos, nas conversas em torno das garrafas de café, enfim, da convivência. O primeiro modelo não serve para códigos de ética, pois apenas refletiria a moral do criador do código. Para que ele seja um código respeitado, eficaz, reprodutor e produtor de bons valores na empresa, é preciso que ele seja uma obra coletiva.

LG: Como separar valores �ticos de valores morais?

Júlio: Podemos distinguir os conceitos de ética e moral, mas não separá-las.

Moral é uma qualidade atribuída a ações humanas. Quando uma ação é praticada por uma consciência livre para deliberar e converter sua deliberação em ação, então dizemos que essa ação  é moral e que dela resulta uma série de consequências com relação ao que a praticou. Se a ação foi livre, então poderia ter sido praticada de outro modo o que nos deixa a dúvida: da maneira como foi realizada, foi boa? Deveria ter agido diferentemente? Imagine se não houvesse nem uma consciêNcia responsável pela ação e tampouco liberdade para praticá-la, como uma avalanche. Ela é um acontecimento, mas não é moral.

Uma vez que a moral suscita julgamentos, proceder a eles o que chamamos de ética. Pode ser definida como uma espécie de ciência da moral. É uma atitude de refletir, de ponderar sobre a vida que vale a pena ser vivida, sobre como vivemos e deveríamos viver.

Repito: conceitos distintos, mas inseparáveis sob a perspectiva das ações humanas. A ação moral (consciente, livre e que torna seu agente responsável) pode ser boa ou ruim, ser boa quando de acordo com que eticamente deliberamos, ser ruim quando em desacordo com nossa reflexão ética.

LG: Na prática, quais as principais questões éticas com as quais o profissional se depara no ambiente de trabalho?

Júlio: Os dilemas éticos dentro de uma empresa não são tão diferentes dos que ocorrem fora dela. Uma empresa é um grupo social como vários outros, tornando-se singular pelo fato de haver entre as pessoas da empresa uma forma específica de hierarquia, valores e uma meta comum relativa ao objeto das atividades da empresa.

Desta maneira, as questões éticas giram em torno da convivência, especialmente relativos a duas ordens de problemas: hierarquia e concorrência. Empresas são ambientes hierarquizados, porém nem sempre a hierarquia é clara quanto a quem manda e quem obedece e com relação aos limites de mando do mandante e dever de obediência do obediente, ou seja, quem manda e até que ponto pode mandar? E, o que é legítimo ou aceitável em suas atitudes e o que pode ser esperado em contrapartida a elas?

Perceba que esta questão pode ficar mais complicada quando boa parte da hierarquia é autoatribuída, quer dizer, alguém desempenha uma função com tal qualidade que acredita poder, por essa virtude, ditar regras a seus colegas sobre como proceder no serviço.

Os problemas de concorrência são devidos ao fato que numa empresa é comum que mais de uma pessoa desempenhe uma mesma função ou realize um mesmo tipo de tarefa. Em sendo diferentes, cada um tenta realizar sua tarefa da forma que mais lhe parece apropriada, o problema é que essa maneira é diferente da de seu companheiro.

LG: Como agir diante de atitudes antipáticas de colegas de trabalho? E de superiores? E qual o papel do RH em situações como essas?

Júlio: Dilema antigo: denunciar ou não quem erra? Por um lado, dizem que cada um deve ficar na sua, pois agir de modo contrário seria deslealdade. Por outro, a omissão pode ser prejudicial para outros funcionários e para a própria empresa.

Acredito que a questão gira em torno da lealdade, mas não se trata de ser leal ou não com o companheiro. Não há um conflito do tipo ser ou não ser leal, mas do tipo com quem devo ser leal? A lealdade para com o colega, acobertando-o em seus atos antipáticos, e ser desleal para com os atingidos por estes atos e muitas vezes para com a própria empresa.

Claro que isso não significa que o dever primeiro de todos os funcionários e denunciar violações éticas para quem tenha o poder de punir o antipático. Pode ser que a violação ética seja mais por ignorância do que por maldade ou desvio de caráter. Nestes casos cabe sempre tentar denunciar a conduta para o próprio agente. Esclarecê-lo, convidá-lo a reflexão. Promover um melhor ambiente de trabalho é uma missão que pode ser desempenhada por todos.

O RH pode desempenhar um papel importantíssimo nestes casos. De nada adiantaria um bom código de ética, construído de forma participativa e que reflita o real espírito da empresa se, ao aplicar estas normas, ao fazê-las observar, fossem tomadas atitudes injustas e desproporcionais. Cabe ao RH ser um bom juiz na aplicação e observção do código, educando e atuando nos conflitos interpessoais visando a promoção de um ambiente saudável e ético de trabalho, mas também punindo quando necessário. Punição não é uma atitude antiquada, o antiquado é usá-la como o primeiro e as vezes único – remédio e não como o último.

LG: E a ética no digital? Até onde a empresa deve interferir?

Júlio: No meio digital há um valor ético que se destaca dentre os demais: liberdade. Ela é priorizada muitas vezes em detrimento de outros valores igualmente éticos, como a privacidade. Damos um grande peso e liberdade e a partir daí não sabemos como fazer valer normas éticas no ambiente digital, pois qualquer norma, ainda que ética, nos parece um ato contrário da liberdade.

Este é um falso dilema. Não há liberdade absoluta, ela é uma utopia. O que temos são algumas liberdades que são mantidas ao preço de uma série de sacrifícios. Como o salário, que nos dá a liberdade e quando sobra dinheiro no fim do mês para adquirir coisas que desejamos, mas que tem como custo o trabalho, mesmo no dia em que não queremos trabalhar. Dia de chuva em que a cama parece mais aconchegante do que o habitual.

Mesmo a liberdade no mundo digital ou virtual tem um preço e a manutenção dessa liberdade é uma conduta ética.

No caso de uma empresa, vale a regra geral, toda ação moral nos torna responsável, pois devemos ter consciência e assumir nossas responsabilidades. Ser responsável não é interferir o verbo que traz a conotação de ação indevida, é agir de forma madura e responsável, atitude que se tomada por todos poderia gerar uma sociedade melhor. E, enfim, agir eticamente.

LG: Qual seria a fórmula do sucesso para um ambiente de trabalho realmente ético?

Júlio: Não acredito que exista uma fórmula do sucesso. Acredito, sim, na fórmula do fracasso: agradar a todos. A ética exige sacrifícios, que são os mesmos da boa convivência. Se cada um faz o que quer, o que temos é conflito e não convivência harmoniosa.

Mas apesar de não haver propriamente uma fórmula, há alguns princípios que se respeitados podem ajudar muito: respeito, autoconhecimento e principalmente com os próprios defeitos, clareza quanto aos princípios e valores da empresa e, sobretudo, atitudes compatíveis com esses princípios e valores.

Há uma espécie de fórmula geral que explica não o sucesso ético de um grupo social, mas que nos dá uma espécie de graduação dos esforços e virtudes necessárias e boa convivência: se todos nós nos amássemos, todos nós respeitaramos e a ética seria desnecessária. Na falta do amor mútuo, nos valemos da razão, que nos permitiria viver como quem ama, ainda que não houvesse o afeto; na falta mesmo da razão, a moral; na falta da moral, precisamos de normas; quando até mesmo as normas falham, vem a força. Precisamos, para conviver, de amor ou compaixão -, razão, moral, leis ou da força. Caba a nós escolhermos em qual destes instrumentos e o mais adequado é vida que vale a pena ser vivida.

Ética no meio corporativoGraduado em Direito e em Filosofia, Julio Pompeu também é mestre em Direito e doutorando em Psicologia. Atualmente preside o Conselho de ética Pública do Estado do Espírito Santo e leciona ética na Universidade Federal do Espírito Santo. Com a finalidade de tornar a filosofia, em especial a ética, acessível ao grande público, oferece cursos e palestras na Casa do Saber do Rio e de São Paulo e em órgãos públicos e empresas desde 2004 sobre Filosofia moderna e contemporânea.