Executivas se apoiam em maridos “donos de casa”

Data 30/12/2013

Quando Marielle Jan de Beur, executiva do banco Wells Fargo em Nova York, viajou a Hong Kong para persuadir investidores asiáticos a voltar ao mercado de títulos, o marido dela levou a filha para experimentar vestidos de debutante.

Ela faz parte de um grupo de mulheres que contam com um certo tipo de apoio que tem permitido que elas compitam com nova intensidade no mercado de trabalho: um marido que cuida da casa em tempo integral.

Em uma indústria ainda dominada por homens, essas executivas do setor financeiro fazem parte de um grupo pequeno, mas de crescimento rápido, que se beneficia do que chamam de ligação entre sua capacidade de atingir objetivos profissionais e a boa vontade dos maridos de lidar com tarefas domésticas.

Há 13 anos, quando Jan de Beur se casou, muitos dos seus colegas homens sugeriram que ela se tornaria inútil no trabalho. Mas se casar acabou se tornando uma das suas melhores decisões.

Quando ela ficou grávida, o marido dela, Jim Langley, estava fazendo longas jornadas em um escritório de arquitetura que o estava pressionando a se mudar de cidade. E ele ganhava menos da metade do que ela. A solução parecia óbvia.

Se alguém pergunta a Langley o que ele faz, ele poderia dizer que é um artista, mas ele apenas começou a vender seus quadros. Outros pais na mesma situação dizem que geralmente contam mentirinhas: que estão aposentados, que são consultores, que trabalham em casa.

Langley geralmente diz que é um dono de casa. "É assim que eu me chamo", diz. "Eu não diria que eu gosto", completa. E que tipo de reação das outras pessoas ele recebe? "Geralmente é uma longa pausa."

"Nós somos quase um casal dos anos 1950 ao contrário", diz Drew Skinner, marido de Nicole Black, também executiva do Wells Fargo. "Eu fico em casa, lavo a louça e a roupa. Faço tudo o que uma dona de casa faz. A diferença é que eu sou um cara."

Muitas dessas executivas descobriram que, mesmo com babás e empregadas domésticas, as exigências de se trabalhar no setor financeiro tornavam impossível o casal ter duas carreiras.

Não está claro se esses casais são líderes que marcham rumo à igualdade entre gêneros ou exemplos de como pouca coisa está mudando em Wall Street.

Em vez de mudar a cultura dos bancos, que promovem políticas de horários flexíveis e equilíbrio com a vida pessoal, essas mulheres dizem que, para serem bem-sucedidas, elas precisam aderir ao jogo de forma muitas vezes brutal, como acordar às 4h45 e passar por dias de competição incessante.

Neste ano, quatro das principais executivas do banco JPMorgan Chase decidiram viajar pelos EUA para descobrir por que havia tão poucas mulheres no maior banco do país e no setor.

Nos encontros com 2.500 mulheres, as executivas ouviram as mesmas mensagens. A adoção de horários flexíveis, que permitem que funcionários trabalhem de casa um ou mais dias da semana, carrega um certo estigma. E algumas delas estavam relutantes em aceitar promoções que exigissem mudanças que prejudicassem suas famílias.

Black e outras profissionais dizem que o verdadeiro benefício de ter um marido em casa é evitar distrações domésticas e competir melhor com outros profissionais homens -muitos deles têm mulheres que se dedicam apenas à casa. Ser o arrimo de família também pode significar ser levado mais a sério no trabalho, elas dizem.

EXCLUSÃO

Assim como acontece com as mulheres, alguns desses donos de casa confessam não saber como voltar ao mercado de trabalho depois de uma parada que eles achavam que seria temporária. E admitem não entender bem o trabalho de suas mulheres.

Outros se tornaram ávidos ajudantes, marcando massagens para as companheiras e dominando técnicas complicadas de cozinha.

Eles muitas vezes se sentem excluídos de uma infraestrutura social que as mulheres construíram por gerações para fazer com que ser dona de casa seja divertido.

"Quer algo esquisito? Tente combinar com uma mãe para as crianças brincarem na piscina", diz um pai.

Quando Ed Fassler, marido de uma executiva, estava ajudando com a compra de papel de embrulho para a escola, as mães se uniram para fazer o pedido -e o excluíram. "Meu marido não gostaria que você estivesse na minha casa com a gente", disse a organizadora.


*Essa notícia foi publicada no site Folha de São Paulo, em 29/12/2013

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