Executivos de RH desconhecem práticas para reter profissionais

Data 19/10/2011

Há quase dois meses, Guilherme Barros, 25, está à procura de três profissionais para a QueroPontos, "start-up" de gerenciamento de informações da qual é sócio.

Se os tivesse encontrado, diz, teria dificuldade de mantê-los na empresa. "Não sei como fazer", afirma.

Um dos obstáculos é o fato de o negócio ser de pequeno porte. "Nessa área, buscam-se grandes empresas."

Para ele, os profissionais estão mais atentos à remuneração. "É difícil reter com atrativos que não estejam ligados à parte financeira."

Mais que encontrar trabalhadores classificados como talentosos, retê-los tem sido um dos grandes desafios do mercado, avaliam especialistas consultados pela Folha.

"Falta entendimento do que é retenção e do que é talento", analisa Márcia Almström, diretora de recursos humanos da consultoria Manpower. Segundo a executiva, "não existem padrões e modelos de retenção".

Sondagem da ABRH Nacional (Associação Brasileira de Recursos Humanos), feita em agosto deste ano e obtida com exclusividade pela Folha, corrobora com a análise. Dos 379 profissionais de RH consultados, 31,3% afirmam não saber o que fazer para segurar os trabalhadores.

Desenhar plano de carreira atrelado a desempenho foi a técnica de retenção mais citada entre as opções (36,5%). Dar maior autonomia às pessoas é estratégia de 9,2%.

Para Eugenio Mussak, diretor de pesquisa da associação, falta apoio para que o RH consiga criar programas efetivos de retenção. Sozinho, afirma, ele "é inoperante".

Apesar da desaceleração da economia, as contratações continuarão em níveis elevados, e reter talentos deverá ser ainda mais difícil, segundo consultores de RH.

"Esse cenário torna as companhias reféns de profissionais acima da média", avalia Daniel Maldaner, da consultoria Muttare.

Outro motivo que deixará a disputa ainda mais acirrada é a maturação desses trabalhadores, afirma Dorival Donadão, sócio da consultoria DN Consult.

À medida que o tempo passa, os talentos ficam mais experientes e mais disputados.

Marcelo Ribeiro, gerente de RH da Zurich, de seguros, sabe o que é isso. Ao tentar segurar o quadro, muitas vezes é barrado pela concorrência. "Em pouco tempo, o mercado começa a comprar esses talentos. É uma bolha."

Para evitar perdas, Ribeiro utiliza a mesma estratégia: "Vamos atrás de pessoas de bancos e consultorias".

Estratégia

Vinicius Jorge, 25, superintendente de linhas financeiras da Zurich, recebeu "proposta atraente", mas ficou na empresa e foi promovido.

"A autonomia que tenho é o que mais me prende." Mas ele se questiona se teria ficado caso não tivesse recebido promoção e caso percebesse que não teria como crescer.

Carla Arcos, gerente de recursos humanos da Solaris, da área de equipamentos, afirma ficar atenta ao que acontece no mercado "para entender os funcionários".

Contudo, avalia, "é difícil reter, porque as pessoas têm necessidades diferentes".

Na Risotto Mix, de alimentação, a rotatividade é grande. "O país melhorou, e a oferta de emprego aumentou", justifica Adenilson Soares, sócio-diretor da rede.

Segundo ele, não falta investimento para conseguir manter os profissionais no quadro de funcionários. O custo indireto em ações de retenção, como programas de bem-estar, "é 115% maior que o direto [como política de salários e benefícios]".

A dificuldade em reter atinge 82,6% das empresas, segundo a ABRH. Para Maldaner, consultor da Muttare, a maior dificuldade é mudar a forma de gerir pessoas.

Essa notícia foi publicada no Folha Online, em 16/10/2011.