Falar sobre eleição com funcionários é tabu

Data 23/09/2014

No fim de agosto, por cerca de duas horas, algumas dezenas de funcionários da Pfizer se reuniram para debater as eleições deste ano, o desenrolar da campanha e a situação de candidatos a cargos políticos. A discussão foi realizada em pleno expediente, na sede da empresa. A iniciativa só não se caracterizou como uma insurgência por um detalhe: foi promovida pela própria Pfizer.

A farmacêutica decidiu organizar um debate sobre política e eleições com os cidadãos que ora integram seu quadro de funcionários. "É uma ação de diálogo sobre cidadania com nossos colegas, exatamente como fazemos com outros temas como envelhecimento e diversidade", diz Ciro Mortella, diretor de assuntos corporativos da companhia.

A tranquilidade com a qual a direção da Pfizer escolheu o tema, como afirmou Mortella, não é compartilhada por todas as empresas – pelo menos não parece ser para a maioria das 18 companhias procuradas diretamente pela reportagem e também para as clientes de quatro grandes agências de comunicação corporativa, igualmente contactadas. "Essa é a primeira vez que recebo um convite para falar sobre política aos funcionários de uma empresa", afirma Aldo Fornazieri, cientista político que fez a palestra sobre as eleições e respondeu a perguntas sobre o cenário político-eleitoral de 2014 na farmacêutica.

Fornazieri conta que já foi contratado diversas vezes para apresentar e debater análises políticas para os gestores, como forma de muni-los de informação sobre a situação do país. Trazer a discussão para o nível operacional é, na opinião do cientista político, uma contribuição da corporação para o maior protagonismo do cidadão.

O silêncio de muitas organizações nessa reportagem, algumas doadoras de campanhas, demonstra que política é um tema polêmico. De forma geral, as corporações evitam tanto estimular como também inibir ou disciplinar a manifestação das convicções dos funcionários. "A Constituição Federal assegura a liberdade e a convicção políticas. Ninguém pode ser privado disso", afirma Sólon Cunha, sócio do Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados na área trabalhista.

Cunha explica que a empresa pode pedir para o funcionário não usar broche ou qualquer material de propaganda eleitoral no trabalho. Para isso, o ideal é formalizar a recomendação em um regulamento interno. Na vida privada, entretanto, não há como disciplinar ou criar regras.

Em uma frase, o presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão, resume o dilema vivido e, muito provavelmente, compartilhado por outros empresários. "Nosso grande desafio é combinar o respeito à liberdade das pessoas com o respeito à característica apartidária do instituto", afirma.

O próprio Ethos se viu obrigado a discutir mais profundamente o tema. Depois de conquistar maturidade nessa reflexão, a direção criou um "código de conduta sobre a participação política de associados, dirigentes e demais colaboradores". É um documento de cinco páginas com regras sobre a participação dos colaboradores em questões político-partidárias. O objetivo é "garantir a permanência do caráter não partidário do Instituto Ethos". Entre os deveres dos funcionários estabelecidos no código está a obrigação de todos deixarem claro – se vierem a se "manifestar publicamente por meio de artigos, conferências, palestras, entrevistas ou outros meios – que suas opiniões políticas são pessoais e que não expressam a posição do Ethos".

Outro dever é informar à administração do instituto sobre qualquer atividade particular que possa influenciar ou entrar em conflito com as questões tratadas pela organização. O colaborador também deve "declarar-se impedido de tomar decisão ou de participar de atividades quando perceber a existência de conflito de interesse". A situação é complexa. Em uma análise mais extrema, se muitos funcionários de uma empresa forem militantes políticos e se declararem desconfortáveis com algumas atividades, a organização pode sofrer um revés.

Para evitar constrangimentos nas mídias digitais, a Locaweb criou há quatro anos um manual de conduta, disponível para os mil funcionários. "Até pelo perfil da empresa, todos que trabalham aqui estão nas mídias sociais de maneira pessoal ou profissional. Por isso, decidimos fazer um manual de boas práticas", afirma o gerente de marketing institucional Luís Carlos dos Anjos. O documento de 61 páginas não menciona o tema eleições. Apenas estabelece que toda comunicação deve ocorrer sempre com bom senso, respeito, ética e transparência.

Anjos observa que, desde que entrou na empresa em 2001, não lembra de algum gestor revelando em quem iria votar e muito menos de um dirigente se envolvendo em polêmicas eleitorais na web. Caso acontecesse, poderia ser um problema. Para ele, se o post de um gestor sobre o assunto fosse desrespeitoso, poderia gerar problema até nas relações com governo e 'stakeholders'. "Por mais que ele não esteja publicando aquilo em nome da empresa, ele faz parte do comitê que toma decisões pela empresa e é um representante da companhia."

De um gestor, a empresa tende a esperar um comportamento mais zeloso para os mais diferentes assuntos, como afirma João Laudo de Camargo, coordenador-geral do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) no Rio de Janeiro. "Qualquer episódio negativo envolvendo um gestor pode prejudicar a companhia. Um executivo está mais em evidência que funcionários que exercem funções mais auxiliares e muito mais correlacionado à imagem da empresa."

Tendo as empresas uma posição ou não sobre política e eleições, o fato é que a campanha eleitoral de 2014 tem dado o que falar. Nas redes sociais, centenas de milhares de pessoas têm se manifestado sobre o assunto. Um levantamento do núcleo de conteúdo do grupo Máquina da Notícia junto com a empresa Brandviewer mostrou que, entre abril e setembro, os brasileiros fizeram 13,1 milhões de publicações referindo-se aos candidatos à presidência da República que lideram as pesquisas – Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva – e também a Eduardo Campos, morto em 13 de agosto. Da semana do acidente com o avião que transportava Campos em diante, o volume aumentou ainda mais. Por conta da tragédia e também do início do horário eleitoral gratuito, o número de menções em agosto chegou a 5,7 milhões.

Não dá para negar que as pessoas vão discutir questões envolvendo o país e a comunidade, inclusive dentro das empresas, na avaliação do advogado Marcos Vinicius de Campos, diretor-executivo da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps). Campos entende, entretanto, que uma iniciativa é trazer o debate da política e da cidadania, como propôs a Pfizer no evento em agosto, e outra é provocar o debate entre os militantes dos partidos. "Obviamente, não é simples separar as duas coisas. Os partidos apresentam diferentes visões para a gestão pública e a legislação."

Oded Grajew, coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, defende que as empresas estimulem em vez de coibir o debate político entre os trabalhadores como parte de sua responsabilidade social. Grajew conta que, na época em que presidia a Grow, eram realizados, na sede da companhia, debates e palestras de candidatos de diferentes partidos com os colaboradores interessados. "Era uma forma de as pessoas conheceram as propostas de cada um", afirma.

O cientista político Aldo Fornazieri concorda com Grajew. Em sua opinião, as empresas têm uma parcela de responsabilidade na formação política de seus funcionários. "Elas não podem imaginar que estão separadas da comunidade", diz. Na Pfizer, a "ação de esclarecimento e de conscientização da importância das eleições" refletiu apenas o que acontece na sociedade, segundo o executivo da farmacêutica. "As manifestações [de junho do ano passado] mostraram, e a gente tem percebido, que as pessoas estão discutindo política de maneira geral", afirma Mortella.

 

Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 22/09/2014

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