Funcionários convivem com o que vendem

Data 23/09/2013

Há cerca de um ano e meio, o e-commerce de produtos para animais PetLove viu sua equipe crescer de forma inédita. De 8 funcionários, passou para 70 pessoas e um convidado muito especial – o mascote Faísca, um golden retriever que vive nos escritórios da companhia, em São Paulo. Apelidado de Petsi, o cachorro é o "xodó" dos 35 profissionais das áreas de administrativo, TI e marketing que trabalham na sede da empresa.

"Mais esperto do que o adestrador", segundo o diretor-presidente Marcio Waldman, Faísca dorme no café da empresa, se diverte na área aberta do escritório de 200 metros quadrados, costuma sair para passear com um grupo de funcionários depois do almoço e testa produtos novos enviados pelos fornecedores antes que eles sejam vendidos no site. Em dia de folga, já foi disputado por três funcionários que queriam levar o mascote para casa no mesmo fim de semana e até nadou no lago do sítio do diretor de marketing e negócios, Nando Guerreiro.

A ideia de trazer o negócio da empresa, que vende produtos de pet shop pela internet, para tão perto dos funcionários foi do próprio Guerreiro, uma semana após ser contratado. "Por sermos um negócio on-line, as pessoas muitas vezes ficam distantes dos produtos", diz. Apesar de a empresa fazer questão de contratar profissionais que tenham animais de estimação em casa, os executivos dizem que criar esse contato dentro do escritório foi importante para mudar o clima organizacional.

"A tensão do dia a dia diminuiu muito", explica Waldman, o fundador da empresa, que é veterinário e passa no "canto" de Faísca todos os dias para se despedir antes de ir embora para casa. A presença do cão ajudou também a consolidar a cultura de empresa de internet que o empreendedor buscava, além de ter facilitado a integração da equipe de profissionais de diferentes áreas. Para completar, o custo é mínimo. Os produtos para cuidar de Faísca são os mesmos vendidos pela empresa, que fez uma parceria com um pet shop próximo para os banhos. "As risadas que ele nos proporciona todos os dias já pagam", diz Guerreiro.

Práticas como essa são resultado de uma nova percepção de que funcionários de uma empresa também fazem parte da cadeia influenciadora de consumo. "Além de mostrar que a organização valoriza o colaborador, cria-se um vínculo entre as partes por meio do produto", explica a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Nacional), Elaine Saad. "Isso gera integração, conversa, e aumenta a identidade da organização", diz. Mesmo se tratando de uma prática próxima ao trabalho da área de recursos humanos, Elaine diz que é comum a iniciativa vir do departamento de marketing, como na PetLove.

Algo parecido acontece periodicamente na Elo7, uma plataforma para artesãos que permite a venda de produtos pela internet, onde toda última sexta-feira do mês é chamada de "craft day". A equipe de 34 pessoas – que triplicou desde que a empresa recebeu aportes nos últimos anos e deve aumentar para 40 até o fim de 2013 – é liberada mais cedo para participar de uma atividade de artesanato.

As mais recentes foram de tricô, mas técnicas como a pintura em cerâmica e estampa de camiseta também já foram ensinadas. "Isso aproxima o funcionário da vida do artesão, que é a nossa razão de ser, e ajuda na integração das equipes", explica Carlos Curioni, CEO da companhia, com sede em São Paulo. A atividade não é obrigatória, mas recebe a adesão de quase todos, segundo ele.

A ideia da iniciativa foi dos times de atendimento e de comunidade que, por terem contato direto com os artesãos, são profissionais com um perfil parecido ao dos usuários do site e sabem alguma técnica de artesanato. São eles que dão as aulas para os colegas – ou seja, o custo da empresa é só o de fornecer o material, e os resultados são muito positivos. "É interessante ver, por exemplo, gente que nunca fez tricô na vida se envolvendo. Faz todo o sentido para a equipe entender mais a fundo como essa atividade funciona", diz Curioni.

Para a coordenadora de projetos de educação corporativa da Fundação Instituto de Administração (FIA), Marisa Éboli, o grande trunfo desse tipo de prática é aproximar o profissional do produto por meio de uma vivência, e não de um treinamento formal. "São estratégias que mudam o comportamento da pessoa e criam aderência dela com o negócio. Isso vale mais do que qualquer curso", diz. Além de mexer com o emocional, que é a melhor tática de aprendizado, a professora diz que essas ações são uma forma de tornar concretos os valores, o discurso e a cultura da empresa. "Nada educa mais do que o exemplo", enfatiza.

Não são apenas empresas pequenas que apostam na vivência do funcionário para aproximá-lo do negócio. Na sede da marca de cosméticos Avon, também em São Paulo, de quarta a sexta-feira funciona o "Avon Beauty Consulting", um estande com maquiador profissional e produtos da marca onde os funcionários podem marcar sessões de maquiagem. Aberto tanto para o administrativo quanto para o operacional – e para mulheres e homens, que às vezes passam no estande para tirar o brilho do rosto -, o canto é mais concorrido nas noites de sexta-feira, quando há mais colaboradoras atrás de um "look" produzido.

"Todo funcionário é apaixonado por pelo menos um produto", diz a vice-presidente de recursos humanos da Avon Brasil, Alessandra Ginante. Esse foi, inclusive, o tema de uma campanha de comunicação interna que estampou fotos de profissionais nas dependências da empresa nos quais eles explicam qual o seu produto preferido da marca. O retorno dos funcionários por causa das sessões de maquiagem e de iniciativas como a loja que vende produtos com desconto acaba ajudando a empresa a pensar a estratégia de marketing e venda dos produtos.

Outra ação interna é promover o "dia do batom vermelho", ou o "dia do olhão", em que as funcionárias adotam sugestões na maquiagem – o que gera conversa e integração internamente, além de fazer elas encherem as redes sociais com fotos documentando o dia. "Todo mundo convive com os produtos, mas não seria assim se não houvesse esse trabalho de 'quebrar o gelo'", diz Alessandra, que admite que antes de entrar na companhia, vinda da fabricante de eletrônicos Philips, não ligava muito para maquiagem. Já no dia entrevista, fez questão de passar no estande do maquiador para retocar o "look".

 


*Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 23/09/2013

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