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Gestão Horizontal: fazer com x fazer para

Data 27/10/2014

Embora possa parecer impossível a convivência em um ambiente empresarial sem cargos, esse cenário já está sendo vivenciado por algumas empresas brasileiras, a Mercur é uma delas. Em entrevista à Huma, Breno Strussmann, Diretor-Geral da Mercur, explica quando começou essa nova visão na empresa e quais foram as mudanças enfrentadas pela organização. Confira a entrevista!

LG lugar de gente: Quando a Mercur decidiu adotar a Gestão Horizontal? Por que essa decisão foi tomada?

Breno Strussmann: Em um determinado momento, a empresa se deu conta de que para que seus valores e princípios seguissem como identidade da marca, seria necessário desconstruir seu modelo mental. Esse modelo era construído com base na hierarquia, por isso houve a necessidade de dar espaço à colaboração das pessoas.

Então, iniciamos em 2008 um processo de gestão emancipadora, com a virada de chave  em 2009. Cada unidade de negócio da empresa tinha seus objetivos e resultados a serem atingidos e concorriam por investimentos dentro do planejamento anual. Atualmente, nos organizamos em grupos multidisciplinares em que um ajuda o outro. Ou seja, há sempre um convite para que as pessoas sejam mais participativas e haja maior interação entre as áreas, independentemente, do cargo ou função de cada um.

É importante que todos enxerguem a conexão das atividades, desde sua origem até o usuário. Dessa forma, o negócio passa ser uma consequência e não a prioridade. Propósito que só faz sentido quando você passa a fazer com as pessoas e não apenas para elas.

LG lugar de gente: Quais foram as mudanças que essa nova postura trouxe para o dia a dia da empresa? De que forma funciona o processo de remuneração nessa nova cultura?

Breno Strussmann:
Trabalhamos hoje com o modelo de colegiado que atende cada vez mais as carências do mercado por meio de projetos multidisciplinares. A gestão se faz no desenvolvimento de determinada atividade. Os diálogos são bem intensos, por isso temos direcionadores, direcionamentos e posicionamento estratégico. As avaliações acontecem por meio de um processo de análise crítica dos projetos e atividades multidisciplinares dos grupos envolvidos.

A remuneração ainda é derivada de uma pesquisa de mercado com periodicidade anual, considerando empresas do mesmo porte e ramos de atuação diversos. Entretanto, iniciamos um estudo com todos os colaboradores para discutir o que poderia ser uma nova metodologia de avaliação, considerando a gestão colaborativa.

LG lugar de gente: Qual o papel do RH dentro da Mercur e nessa nova forma de gestão?

Breno Strussmann: O RH é hoje conceituado como TH, ou seja, pessoas não são recursos e sim Talentos Humanos. Atualmente, estamos revendo o papel do TH de forma a torná-lo menos centralizado e mais distribuído. A educação, a aprendizagem bem como o relacionamento precisam ser acolhidos e assumidos não somente pelo TH, mas por todos os colaboradores, independentemente de suas atividades.

LG lugar de gente: Quais foram os principais objetivos da Mercur ao adotar essa forma de gestão?

Breno Strussmann: Nosso objetivo, é a valorização da vida e o convite de que a organização trabalhe com as pessoas e não para o mercado, ou seja, o usuário final passa a ser considerado uma pessoa e não simplesmente um cliente. Isso é válido para toda a cadeia. Ou seja, deixar de fazer “para” e passar a fazer “com” as pessoas. Fornecedores, clientes e colaboradores.

LG lugar de gente: Que tipo de ações foram desenvolvidas para que essa nova cultura fosse aceita pelos colaboradores?

Breno Strussmann: Convidamos toda a organização a “destituírem-se” de seus cargos. “Fazer com” as pessoas, de uma maneira emancipadora, passa a ser o nosso combinado. “Fazer para” no sentido competitivo e controlador perde seu espaço. Temos processos de pesquisa e desenvolvimento, cliente e relacionamento, pensamento estratégico e uma incubadora para os projetos que interagem com todos os demais da empresa. Também temos um projeto de comunicação.

Começamos a fazer a leitura das consequências das nossas atividades, nada se abandonou, mas inserimos dentro do sistema essas leituras que foram sendo produzidas em todo o processo da organização.
Criamos um comitê e todos são responsáveis por entender os impactos das atividades. E também realizamos espaços de diálogo, aprendizagem e dinâmica. São as Rodas Viva e do Chimarrão, pois acreditamos que o diálogo inspira a descoberta. O diálogo acontece a todo o instante, é muito mais difícil, mas é necessário. É um movimento democrático. É um processo de educação que aprendemos com a Instituição Paulo Freire, a educação do comércio justo e o conhecimento se iniciam através de uma direção destituída. Procuramos fazer mais perguntas do que trazer respostas.

LG lugar de gente: Quais foram os resultados alcançados? 

Breno Strussmann: Os resultados podem ser identificados por meio da melhor qualificação de processos, tanto em serviços, produtos ou no engajamento que, consequentemente, impacta em toda a cadeia de valor da empresa. Mais relevante e significativo do que o resultado econômico e financeiro da organização, está a constante evolução do desenvolvimento humano e o seu entendimento com o propósito da organização, bem como compromisso delas como cidadãos planetários pela valorização da vida.

LG lugar de gente: Quais são os maiores desafios que essa nova forma de gestão impõe para a empresa?

Breno Strussmann:
A desconstrução dos sistemas, modelos mentais e convencionais vigentes que estão instituídos na sociedade através do mercantilismo. Sentimento que, consequentemente, gera demanda e consumismo irresponsável.

LG lugar de gente: Todas as decisões da empresa são tomadas de forma democrática ou ainda existe algum tipo de situação que exige a palavra final de um diretor?

Breno Strussmann: Os colegiados se organizam por processos e projetos. Aproximadamente 20 pessoas são do colegiado geral. Foram escolhidas dentre estrutura anterior que foi desmobilizada: diretores, gerentes e supervisores. Essas pessoas têm a função de serem guardiãs do processo de facilitação.

 

Gestão Horizontal: fazer com x fazer para

 

 

 

 

Breno Strussmann é Diretor Geral da Mercur

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