Gestores de RH apostam no diálogo entre faculdades e mercado para melhorar o capital humano

Data 22/09/2010

 

As discussões acerca do desempenho pessoal como grande diferencial na disputa das empresas pelas melhores posições – ou seja, a qualidade do capital humano – estão tendo cada vez mais importância entre gestores de recursos humanos, headhunters e estudiosos das dinâmicas do mundo corporativo.

Com o aumento da consciência de que na hora de avaliar processos e resultados, o ser humano é sempre quem vai fazer a diferença, os instrumentos de formação dos profissionais passaram, por sua vez, a ganhar igualmente mais atenção. A prova é o aumento do número de estabelecimentos de ensino superior privado nos últimos dez anos: 148% entre 1999 e 2009, conforme mostra o professor de economia Leonardo Trevisan, organizador, juntamente com o jornalista Klaus Kleber, do livro Produzindo Capital Humano – O Papel do Ensino Superior Privado Como Agente Econômico e Social (Editora de Cultura, 2010).

A obra é uma compilação das palestras do 11º Fórum Nacional: Ensino Superior Particular Brasileiro (Fnesp), realizado em setembro de 2009, pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) e que discutiu a contribuição das faculdades e universidades privadas para a qualificação profissional. “O ensino superior privado tem uma questão de números importante”, destaca Trevisan. “Ele é responsável por praticamente 90% das matrículas no ensino de terceiro grau.”

Ainda de acordo com o professor, embora a qualidade desse ensino – que tem formado quase que a totalidade dos profissionais atuantes hoje no mercado – mereça discussão, os números levam a um enfoque quantitativo também muito valorizado. “O que a gente pode falar nesse sentido (de qualidade versus quantidade) é sobre o aumento no número de ocupações [de postos de trabalho] provocado pelo ensino superior”, afirma. “Esse quadro, no estado de São Paulo, subiu 75%. Estou falando de empregabilidade, ou seja, as chances de uma pessoa que não tem ensino superior ser empregada são 75% menores do que as que têm.”

Outro dado que Trevisan aponta como um peso a se considerar na balança é a contribuição da formação superior – seja ela em que instituição for – no momento da remuneração. “O salário do profissional formado é, em média, 104% maior em relação ao daquele não formado”, informa ele. “Ou seja, o investimento no processo educacional, do ponto de vista da empregabilidade, é um bom negócio.”

O diálogo das universidades com o mercado de trabalho, por exemplo, é algo que merece cuidado – sobretudo na hora de falar de empregabilidade. “As universidades públicas se permitem ver seus egressos um ou dois anos sem colocação no mercado”, analisa a presidente da CDN Estudos & Pesquisas, Cristina Panella. Para alguém que estudou em universidade pública, “é grande a chance de aparecerem boas oportunidades. Mas com uma instituição privada que não tenha um nome, uma tradição etc. isso não acontece. Se o aluno percebe que não está aprendendo nada de útil para a sua vida profissional ele fala. E o boca a boca é muito grande.”

A especialista, cuja pesquisa sobre como os diferentes públicos enxergam o ensino superior privado no Brasil foi apresentada no 11º Fnesp, comenta que, enquanto as instituições públicas de ensino superior parecem estar mais conectadas com a geração de conhecimento, a grande maioria das universidades privadas está “absolutamente inserida” no mercado e assumem para si o papel de espaços de formação dos futuros profissionais. “Independentemente dos objetivos educacionais que a faculdade particular possa atingir em longo prazo, ela tem uma função precípua de profissionalizar”, afirma Cristina. “Esse não é o caso das públicas, que tem, por exemplo, a carreira de pesquisador como possibilidade.”

Para o professor Olavo Henrique Furtado, coordenador de Pós-Graduação e MBA da Trevisan Escola de Negócios, seria esse um dos motivos para a notável maioria de profissionais que se dividem hoje entre o trabalho e um curso – graduação ou pós – numa instituição privada. “O Estado, independentemente do governo, precisa tratar a educação como uma coisa imprescindível”, opina Furtado. “Você não pode ter uma população economicamente ativa e jovem e que não seja qualificada. A qualificação é fundamental. E se é o ensino privado que está dando essa resposta, ótimo. O que o ensino público tem que fazer é dar também.”

Quando questionado sobre a qualidade dos cursos superiores oferecidos hoje em profusão, o professor relativiza. “Em qualquer setor, em qualquer área, você tem a questão da quantidade e da qualidade”, diz. “Mas a pressão pelo melhor vem tanto do mercado de trabalho, como da própria sociedade.”

Subsídios

A DHL Express é uma empresa que serve de exemplo quando o assunto é a especial atenção à qualidade do ensino que seus funcionários e candidatos recebem. É o que garante a diretora de Recursos Humanos da companhia Luciana Ezequiel: “A gente tem notado que, cada vez mais, os candidatos se deixam levar pela falsa propaganda de algumas faculdades quando elas chamam de curso superior tanto aqueles quatro anos quanto os de dois anos”, exemplifica Luciana. “Só que a gente percebe que a qualidade desses cursos de duração reduzida é infinitamente menor. Entre outras coisas, porque você não vai ter um profissional completo, afinal há várias matérias que ele não conseguiu estudar em função do pouco tempo.”

A diretora mostra que a preocupação da empresa com o assunto a levou a criar um programa de subsídio de metade do valor das faculdades cursadas pelos funcionários, porém, só no caso daqueles que escolheram o caminho tradicional, ou seja, o de no mínimo quatro anos de formação. “Eu até acredito nesses cursos de dois anos, mas acho que hoje a coisa ficou muito banalizada”, avalia. “Muitas vezes pensa-se mais no dinheiro do que de fato no ensino.”

Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 16/09/10.

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