Gestores precisam ser mais rápidos na leitura de cenários

Data 24/06/2014

Em um mundo volátil e sujeito a mudanças, desafios do presente e do futuro se confundem e exigem que os líderes das empresas desenvolvam habilidades cada vez mais rapidamente. Nesse contexto, não são só os profissionais que correm para se adaptar – as escolas de negócios também precisam se manter extremamente atentas às demandas dos alunos e do mercado.
 
Para Jordi Canals, reitor da escola de negócios espanhola Iese Business School, uma das melhores do mundo segundo o ranking de MBAs do jornal "Financial Times", o cenário atual exige algumas qualidades específicas dos responsáveis por tomadas de decisões nas organizações. Canals está no comando do Iese desde 2001 e é especialista nas áreas de estratégia corporativa, liderança e globalização.
 
Para o professor, um gestor competente hoje é aquele com habilidades igualmente fortes para fazer diagnósticos do momento e desenvolver pontos de vista sobre o futuro – e eles podem mudar. "Desse modo, devem ser racionais, fruto não só da intuição, e diferente dos outros, pois se as empresas fizerem a mesma coisa, não haverá espaço para todas", diz.
 
Ele viu essa capacidade de adaptação na primeira turma de Executive MBA do Iese de São Paulo, que se formou no início deste mês. O reitor veio ao Brasil para acompanhar a formatura dos 35 alunos do curso, vindos de oito países e 16 setores da economia. De acordo com Canals, os alunos da turma latino-americana têm uma forma de pensar mais criativa, intuitiva e empreendedora que o grupo da Espanha. "Na Europa, os alunos estão acostumados a trabalhar em ambientes mais estáveis. No Brasil e na América Latina, há mais fatores imprevisíveis e, assim, os gestores têm mais capacidade de resolver problemas de forma espontânea", analisa.
 
Outra questão importante é a maior necessidade de integrar a diversidade dentro dos negócios. "Mudou o entorno em que o líder atua, que é mais global", diz. Ele dá como exemplo o mercado de tecnologia da informação, que há cerca de uma década era dominado por empresas americanas. "Hoje vemos o rápido crescimento do mercado indiano, chinês e latino. Há uma diversidade maior de competidores."
 
Com isso, surge a necessidade de refletir sobre essa realidade dentro das empresas. Para o reitor, tornou-se essencial saber criar e trabalhar com equipes diversas, com capacidades e aspirações diferentes. "As organizações precisam funcionar como equipes, e não com um líder e seus seguidores", diz.
 
Há diferença também na forma como as empresas estão estruturadas – cada vez mais dispersas pelo mundo. Para compensar a dificuldade de comandar uma organização onde os gestores estão espalhados por vários países, Canals diz que se torna essencial gerir a companhia por meio de valores e de uma cultura comum em todos os lugares onde ela está presente. "Mais do que os mesmos objetivos e metas, é importante que as pessoas em geografias diferentes tenham um único propósito e modo de trabalhar", enfatiza.
 
Todos os desafios que os profissionais em posições de liderança nas organizações enfrentam exigem também adaptações das escolas de negócios a esse novo ambiente. A formação de turmas culturalmente diversas é uma das saídas para o Iese. No programa tradicional de MBA, onde os 600 alunos reúnem 70 nacionalidades, um programa de computador cria grupos de sete profissionais com base em fatores como idiomas falados, origem e experiência. Eles passam então a trabalhar juntos diariamente em projetos durante os dois anos de curso.
 
A falta de proximidade com o mercado é outra questão que surge em críticas relacionadas a escolas de negócios de diferentes países. "Um grupo de professores que seja bom não apenas no sentido acadêmico, mas muito conectado com a realidade empresarial, é um ingrediente importante para as escolas identificarem tendências do mercado", diz Canals. Assim, as áreas de educação executiva das escolas, que oferecem cursos prontos ou customizados para empresas, ganham cada vez mais força. "Os programas de graduação e o MBA são muito importantes, mas não são suficientes", diz. No Iese, essa área já representa mais da metade da receita.
 
As demandas do mercado global aparecem refletidas, por exemplo, nos tópicos que Canals vê despertar mais interesse entre os alunos da escola de negócios espanhola. Como exemplo, ele dá a busca pelas melhores formas de combinar as funções globais e locais, como as operações de marketing. Outra questão é a necessidade de entender melhor os riscos econômicos e políticos em operações de determinados países, como Rússia ou Índia. "Há algum tempo, o investimento em mercados emergentes era baseado no potencial de crescimento desses países. Hoje, é imprescindível observar os stakeholders locais – não só os governos federais, mas a oposição, os sindicatos e os governos locais", diz.
 
Outro campo de interesse são as mudanças no fluxo de conhecimento em empresas globais, no chamado processo de inovação reversa. "Muitas inovações dentro de empresas multinacionais não vêm mais de países maduros, mas sim de países emergentes. Não é fácil para as sedes gerenciarem esse aprendizado vindo das subsidiárias porque há poucas pessoas nos 'headquarters' que conhecem bem esses locais", diz. Isso se conecta com o último tópico que ele vê como essencial no ensino dos negócios hoje: como formar a próxima geração de líderes das empresas para que ela seja internacional, multicultural e diversa. "É preciso trabalhar para que o alto escalão de uma empresa global represente as outras regiões onde ela está presente, e não apenas sua sede."

 

Essa notícia foi públicada no site, Valor Econômico em 23/06/2014

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