Indenizações alertam para o cuidado na escolha das ações motivacionais

Data 21/09/2011

São muitas as práticas que as companhias podem utilizar para motivar o funcionário e incentivar o alto desempenho. Atividades que expõem o colaborador publicamente ou que exigem a participação de toda a equipe, como a divulgação de rankings de performance e o uso de músicas e gritos de guerra, estão entre as mais comuns. Mas a chegada à Justiça de processos movidos por funcionários que se sentiram humilhados com tais práticas evidencia o cuidado que as empresas devem ter na hora de optar por ações motivacionais.

Em agosto deste ano, a rede de supermercados Walmart foi condenada pela 20ª Vara do Trabalho de Brasília a pagar indenização de R$ 5 mil a um funcionário que alegou se sentir constrangido por ter que entoar o hino da empresa duas vezes ao dia. Apesar de não haver obrigatoriedade expressa, o empregado disse ter se sentido coagido a participar da ação, que acabou até aparecendo em um vídeo no site Youtube, retirado posteriormente. Em novembro do ano passado, um caso parecido condenou a Ambev a pagar R$ 16 mil a um colaborador que se sentiu obrigado a cantar um grito de guerra escrito por seu gerente.

Os casos de funcionários que se sentem humilhados não são poucos, tanto que foram alvo de uma pesquisa conduzida pela advogada Susan Christina Forster. Ela analisou 223 ações trabalhistas da última década movidas por empregados que se sentiram insultados em ações promovidas pelas empresas envolvendo músicas ou gritos de guerra. Entre os gêneros musicais mais utilizados nas chamadas ações motivacionais estão o pagode, o axé – com a “dança da garrafa”, música que geralmente vem acompanhada de coreografia –, funks e temas de novela, como o da “Escrava Isaura”.

A professora da Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e consultora em incentivos Liana Peçanha explica que hoje em dia as empresas já têm mais cuidado na hora de não usar práticas que possam configurar “bullying” no ambiente de trabalho. Para ela, é preciso haver um limite na hora de expor o funcionário, como acontece na publicação de rankings de desempenho. “O ideal é ser reconhecido em público e receber puxões de orelha em segredo”, afirma.

Segundo Liana, é essencial desenvolver um processo de comprometimento da empresa com o funcionário antes de dar início a práticas como hinos e gritos de guerra. Além de não poder haver obrigação, é preciso um trabalho muito forte da gerência de recursos humanos com a diretoria de comunicação para identificar a cultura da empresa e escolher uma atividade que combine com o perfil dos funcionários. Para ser bem sucedida, uma ação precisa ser clara e transparente – não adianta prometer algo ao funcionário e depois não entregar – e tem que atender à cultura da organização. “Quando malfeita, a ação motivacional é uma faca de dois gumes”, completa.

Essa notícia foi publicada no Valor Econômico, em 20/09/2011.

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