Jeitinho brasileiro

Data 17/04/2013

Pouco comprometido, com baixa produtividade e com dificuldade para seguir regras e cumprir horários por um lado. Empreendedor, trabalhador, empenhado, com vontade de aprender e crescer profissionalmente por outro. Esse seria o perfil do trabalhador brasileiro, revela estudo feito pelo instituto de pesquisa C.P.M. Research, a pedido do grupo Oca Brasil. O levantamento ouviu 44 lideranças de diversas áreas, como empresários, artistas, representantes do governo, educadores e religiosos, entre março e outubro de 2012. “Nosso objetivo era ir além do estereótipo do carnaval e do futebol e construir um senso de brasilidade mais realista”, diz Oriana Martins, uma das responsáveis pelo estudo.

Conhecer as características comuns a determinados países é importante especialmente para empresas multinacionais. Convencida de que essa diversidade é fundamental para o sucesso de seu negócio, a Basf desenvolve treinamentos para que seus executivos de todo o mundo estejam preparados para lidar com as diferenças regionais e possam tirar proveito delas. A capacitação inclui vídeos sobre as culturas dos mais de 80 países nos quais a empresa está presente e dicas sobre as áreas em que a companhia tem instalações.

“Os brasileiros são internacionalmente conhecidos e admirados por sua capacidade de inovação e improvisação, por outro lado também são famosos por trazer um pouco da sua vida pessoal para o ambiente de trabalho; trabalhamos para que essas características sejam compreendidas e respeitadas e, assim, possam ser usadas para o bem do negócio”, diz Guilherme Bara, coordenador da área de Diversidade e Inclusão para a América do Sul da Basf.

O comportamento dos executivos nas reuniões, para Bara, exemplifica bem a diferença entre a forma de trabalhar dos brasileiros se comparados a profissionais de outros países e como pequenos cuidados são suficientes para que as particularidades de todos sejam respeitadas. A pontualidade é muito importante para os colaboradores alemães. Já no  Brasil não causa estranhamento quando alguém chega um pouco atrasado para uma reunião e cumprimenta todo mundo como se nada tivesse acontecido. Aqui, é comum também as pessoas falarem um pouco sobre a vida pessoal no início dos encontros, o que pode ser considerado bastante invasivo na maioria dos países. “Ao informarmos nossas equipes sobre esses traços culturais, diminuímos as chances de conflito e erros de interpretação. Hoje, os brasileiros sabem que não devem se atrasar nem um minuto para reuniões com alemães, e os executivos de outros países têm o cuidado de perguntar como vai a família dos colaboradores brasileiros, por exemplo,”, diz.

Personalidade resiliente

A personalidade resiliente é a grande arma dos executivos brasileiros para enfrentar os desafios do dia a dia na opinião do vice-presidente de RH da Nextel, Américo Figueiredo. Ele lembra a época em que o País convivia com uma inflação mensal de dois dígitos e credita a essa situação, aliada à criatividade dos profissionais do Brasil, o fato de termos conseguido não apenas contornar esse grande obstáculo por anos, mas construir uma indústria financeira forte. “Lembro-me que nas empresas multinacionais, com planos bem estruturados de carreira, era fundamental que os executivos com alto potencial para ocupar posições globais de destaque passassem pela operação brasileira a fim de aprender a serem mais flexíveis.”

Figueiredo acredita que é papel do RH estar atento a essas particularidades da cultura brasileira e integrá-las às estratégias de gestão de pessoas. Leveza nos relacionamentos, otimismo nas comunicações e cuidado no feedback para que o colaborador não se sinta desmotivado são alguns aspectos que precisam ser observados. “O modo como nos relacionamos com as equipes precisa estar conectado com a cultura local”, afirma.

Mais do que levantar pontos fortes e fracos, iniciativas como a pesquisa do grupo Oca Brasil comprovam o que muitos profissionais da área de gestão de pessoas já perceberam: o brasileiro tem uma forma de trabalhar própria que muitas vezes não se encaixa no modelo americano adotado pela maioria das empresas. “Somos avaliados por escalas e modelos não aderentes aos nossos hábitos ou à nossa cultura, por isso alguns dos nossos comportamentos são mal interpretados”, diz Oriana, do grupo Oca Brasil, que acrescenta: “é hora de debatermos esses modelos para que eles passem a incorporar conscientemente nossas particularidades.”

 


*Essa notícia foi publicada no site Canal RH, em 11/04/2013

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