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Líderes precisam de autoconhecimento

Data 17/11/2014

*Por Heloísa Capelas


Ao longo de 20 anos de carreira trabalhando com executivos de diferentes setores, chego à conclusão de que grande parte dos problemas enfrentados pelos líderes das empresas começa no mau relacionamento com as pessoas. E mais, a dificuldade em se conhecer, em olhar para seu próprio comportamento, leva à dificuldade de entender o próximo e assim saber conduzir as conversas, as cobranças, os resultados.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Dom Cabral com 1.200 empresários de todo o Brasil em 2013, apontou que, para liderar uma equipe, um gestor precisa conhecer a si mesmo e ser um exemplo para o grupo.  Entre os pontos que mais precisam de atenção, os mais citados na pesquisa foram: o autoconhecimento, a capacidade de formar seus sucessores, a comunicação e o equilíbrio emocional, principalmente diante de situações de pressão e estresse.

Na verdade, o processo de autoconhecimento começa com a abertura sincera e transparente para se olhar. Deveria ser simples, a questão é que muita gente tem dificuldade porque ao iniciar-se esse processo vêm junto a crítica, o julgamento, as defesas, os argumentos, e tudo isso é uma cortina que impede a pessoa de seguir. É preciso começar por se ver com total honestidade e isenção destes aspectos. É apenas observar e aceitar que determinado comportamento está em você. Tomar consciência representa 50% do trabalho de autoconhecimento, e quando você atinge esse nível de percepção sobre si significa que percorreu metade de todo o caminho.

Certa vez conheci um profissional que atuava em uma empresa como consultor e gerenciava vários projetos e equipes. Nas constantes avaliações de feedback a seu respeito, todos eram unânimes em reconhecê-lo como extremamente competente, brilhante em suas exposições, mas possuidor de um gênio crítico, julgador, insatisfeito, cobrador. Resultado: foi convidado a se desligar da organização.

Chegou-se à conclusão de que ele não agregava nada a quem estava à sua volta. A competência técnica se perdia perante os maus relacionamentos. Ninguém queria trabalhar com ele, apesar de muitas de suas críticas serem até aceitas pelas pessoas, o problema era o modo ferino, mordaz e irônico.

Durante o trabalho que iniciamos, este consultor se deu conta de sua história. Existia uma grande sensação de inferioridade por trás de suas ações, que remetiam à infância e na época em que o pai dele havia eleito o irmão mais novo como o filho preferido e querido. Na vida adulta, sua defesa era ser muito mais competente e, ao mesmo tempo, criticar a todos, colocando-os em um patamar abaixo de si. Quando percebeu que essa sensação de inferioridade provocava uma defesa e o tornava compulsivamente agressivo, compreendeu que estava com um escudo à sua frente.

Ao conseguir passar pela estrada do autoconhecimento e descobrir como havia aprendido aquele comportamento e quanto esforço teve de fazer para não se sentir inferior desde pequenino, pôde perdoar sua história e aproximar-se das pessoas. Passou a treinar novos jeitos de agir, novos caminhos neurais, principalmente depois de ter retirado o escudo de proteção. Praticou a mudança com perseverança.

Depois de um ano ele me contou:

— Sabe, Heloísa, cheguei aqui com um escudo e hoje saio com asas. Posso voar entre as pessoas.

Meu coração se encheu de emoção. Pude ajudá-lo em seu crescimento e a ser mais feliz. Agradeci a este trabalho que percorro.

A conclusão a que chegamos é que, antes de liderar sua equipe, ele necessitava se autoliderar. Conseguiu unir a parte técnica aos bons relacionamentos depois que se apropriou das conquistas sobre si, levando-as para sua carreira, sua família e aqueles que estavam ao seu redor. Por trás de todo ser humano existe uma história de formação de comportamento. Entender essa história é fundamental para fazer escolhas conscientes e seguir adiante o melhor caminho.

*Heloísa Capelas, especialista em autoconhecimento e inteligência comportamental, atua no desenvolvimento do potencial humano e  é autora do livro 'O mapa da felicidade' (Editora Gente, 2014).

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