Maioria de executivos portadores de HIV escondem a doença

Data 20/02/2013

Silvia Almeida é conhecida em todas as unidades da Anglo American no País como uma das responsáveis pela elaboração e implantação de ações de prevenção e combate ao HIV e às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Assistente de Responsabilidade Social, Silvia sempre cita uma frase como se fosse um mantra: “O conhecimento é a maior arma para evitar o contágio de doenças”. Ela conhece bem o preço que paga pela desinformação. Soropositiva desde 1994, contraiu a doença do marido, por acreditar estar fora dos “grupos de risco”, uma vez que era heterossexual, casada e sem relacionamentos extraconjugais.

Os dois anos que se seguiram ao diagnóstico foram muito difíceis. Além de ter de sofrer com a doença, acompanhou o agravamento do estado de saúde do marido, que faleceu em 1996. A dificuldade da situação fez com que ela tomasse a iniciativa de comunicar à instituição sua condição de soropositiva. “Meu desempenho no trabalho estava sendo afetado por aquele momento da minha vida pessoal e abrir o jogo era a melhor maneira de lidar com o problema”, achou ela.

A postura assumida pela Anglo American mostrou que Silvia fez bem. Não só recebeu total apoio para realizar o tratamento – que incluía acesso aos medicamentos que ainda não eram distribuídos gratuitamente no Brasil, e a permissão para ficar em casa sempre que necessário –, como ainda pôde se ausentar para participar do movimento de combate à aids. “O apoio da empresa foi muito importante para o amadurecimento da forma como suporto a doença”, diz.

O caso de Silvia ajudou a companhia a redefinir como enfrentar a questão. A Anglo American possuía uma política global sobre o tema desde o início da década de 1990, com forte atuação em países como a África do Sul, onde a incidência entre os colaboradores era grande. No Brasil, em razão da ausência de casos internos, as ações eram pontuais. “A história da Silvia nos mostrou que era hora de trabalhar com mais intensidade, reforçando as práticas existentes e desenvolvendo ações específicas para os brasileiros”, conta a gerente corporativa de Desenvolvimento Sustentável, Juliana Rehfeld.

Apoio total

Desde o final dos anos 1990, a empresa paga por todo o tratamento da doença nos países em que ele não é oferecido gratuitamente pelo governo. Em 2007, o benefício foi estendido aos familiares, aos terceirizados e aos membros das comunidades em que a instituição atua. “Nossa política amadureceu ao longo do tempo; percebemos que era preciso discutir os temas transversais que a aids traz e voltar nosso olhar para as famílias dos colaboradores e para as comunidades em que estamos inseridos”, assegura Juliana.

As ações de prevenção e combate à discriminação desenvolvidas pela Anglo American no Brasil são variadas. Entre algumas delas estão a instalação de displays para distribuição gratuita de preservativos em todos os banheiros, a elaboração de material gráfico com informações sobre contágio e tratamento, a realização de encontros e palestras sobre DSTs e aids, e a organização de uma mostra de cinema sobre o tema. O propósito é trabalhar continuamente para que os públicos interno e externo se sintam acolhidos e confiantes para solicitar apoio sempre que precisem. “É impossível garantir que nenhum dos nossos colaboradores haja de modo discriminatório, mas deixamos bem claro que aqui não existe espaço para preconceito”.

O caso da multinacional ainda é um ponto fora da curva. Os empresários de maneira geral ainda não despertaram para a necessidade de desenvolver ações internas nesse campo. Uma pesquisa divulgada no início de outubro pelo Conselho Empresarial Nacional para a Prevenção ao HIV/Aids (CENAIDS), entidade que reúne 16 empresas de grande porte, com o objetivo de formular, implantar e manter políticas voltadas à prevenção do HIV/aids, mostra essa realidade. Das 2.486 ouvidas, apenas 14% realizaram algum tipo de programa na área nos últimos 12 meses, todas elas com mais de 100 funcionários.

Risco: sexo sem proteção

Frases como “Na minha empresa, todas as pessoas são casadas”; “Aqui na empresa só tem um homossexual…”; “A minha cidade é pequena e não tem aids por aqui…” são algumas das justificativas dos empresários para não desenvolver iniciativas de prevenção e difusão de informações. “De maneira geral, os donos de companhias, principalmente as de médio e pequeno portes, demonstram grande desconhecimento sobre a doença, o que colabora para que ações de promoção de saúde não sejam colocadas em prática”, diz a presidente do CENAIDS, Neusa Burbarelli.

De acordo com Jean Gorinchteyn, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, o preconceito em relação à questão diminuiu, mas o assunto ainda é tabu no mundo corporativo, tanto entre as equipes quanto entre os gestores. E a situação só piora à medida que se sobe na estrutura hierárquica. Isso acontece porque a legislação obriga as corporações a falarem sobre prevenção de DSTs e aids em suas Semanas Internas de Prevenção de Acidentes de Trabalho (Sipats), mas essas ações não costumam envolver os profissionais do alto escalão. “Falar sobre o tema é considerado inoportuno e deselegante nos níveis hierárquicos superiores, uma intromissão na vida do executivo”, afirma.

Em seu consultório particular, Gorinchteyn atende a muitos profissionais que ocupam cargos de diretoria. Apesar do bom nível educacional, os executivos apresentam uma surpreendente desinformação sobre as formas de contágio. Prova disso é que boa parte deles contraiu a doença ao fazer sexo desprotegido fora do casamento, o que os faz esconder a sorologia no trabalho, porque receiam ter a imagem denegrida. “A imagem é muito importante para o alto escalão, e os executivos temem prejudicá-la se comunicarem que são portadores do HIV”, diz Gorinchteyn.

O ambiente corporativo, a julgar pela experiência de Gorinchteyn, parece ser pouco receptivo aos portadores do vírus, independentemente do nível hierárquico. Risco de boicote, sabotagem, demissão e o medo de que notícia se torne pública são os principais fatores que levam as pessoas a esconder a doença. “O temor do conhecimento público é tão grande que cerca de 90% dos exames clínicos relativos à doença são feitos fora do convênio, para que não haja risco de a empresa descobrir”, conta Gorinchteyn.

Demissão não resolve

O medo das represálias no ambiente de trabalho por causa da sorologia é legítimo. Não são raras as demissões em decorrência do preconceito. Segundo o Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (GAPA), no final de 2011, havia 352 processos dessa natureza em andamento apenas na cidade de São Paulo. “A demissão é a regra quando a companhia descobre a sorologia do funcionário”, explica a presidente do GAPA, Áurea Abbade.

Para esclarecer sobre o assunto, o Ministério da Saúde desenvolveu, entre 1997 e meados da década passada, um programa com o objetivo de facilitar a integração dos soropositivos no ambiente corporativo. “A iniciativa fez reduzir o preconceito, mas, com o fim do projeto, a situação voltou a piorar”, alega Áurea.

A falta de informação é a raiz do problema. Áurea conta que, algumas vezes, uma simples conversa com o gestor ou o dono é suficiente para esclarecer dúvidas e resolver a situação. Houve um caso em que o supervisor demitiu um funcionário soropositivo por achar que, por causa da doença, seria melhor para ele ficar em casa, ou seja, mandar a pessoa embora era “um favor”. “Explicamos para o gestor que, ao contrário, era muito importante o funcionário continuar tendo uma vida normal”, esclarece Áurea, que conseguiu reverter a demissão. Casos como esse mostram que a desinformação ainda é a base do preconceito contra a doença e está longe de ser uma condição exclusiva do mais baixo escalão.

 

*Essa notícia foi publicada no site Canal RH

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