Mais tempo no chão, mais vida pessoal

Data 02/01/2013

Na contramão dos chamados "executivos globais", já existem gestores de grandes empresas que não querem viajar mais com tanta frequência e passar noites em quartos de hotel. Entre os motivos para essa mudança de comportamento estão a busca de um maior convívio com a família, melhor qualidade de vida e a perda de vínculos com colegas de trabalho. Querem ainda ter a possibilidade de praticar esportes e fazer cursos de qualificação regularmente.

Para ficar longe dos portões de embarque, alguns executivos tiveram que mudar de país, trocar de empresa ou função. Em contrapartida, precisaram entregar para as chefias a mesma produtividade com menos mobilidade, e trazer resultados sem depender de aviões. A redução dos compromissos em outras praças é amparada por recursos tecnológicos, como videoconferência ou chamadas com imagem pelo celular, que dispensam a presença física em reuniões importantes.

Para especialistas em recursos humanos, ao mesmo tempo em que o excesso de viagens pode causar conflitos na vida pessoal e desgaste físico, atividades fora do escritório ajudam a enriquecer o networking corporativo e a estabelecer relações importantes com parceiros e clientes.

Quando liderava uma multinacional na América Latina, entre 2002 e 2010, o executivo Paulo Pichini, hoje CEO e presidente da Go2neXt, da área de tecnologia da informação (TI), viajava todas as semanas. Parte dos voos seguia pelo Brasil, mas a maioria tinha como destino a Holanda, sede global da empresa, além dos Estados Unidos, Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia e México. "Entre hotéis e aviões, ficava fora de casa cerca de dez dias ao mês", lembra. "Cheguei a acumular um milhão de milhas aéreas, em dez anos e meio de trabalho."

Pichini acredita que as viagens lhe custaram dias de convívio com a família e os amigos, mas havia um lado bom. "Pude agregar conhecimentos à carreira, entender novas culturas e negociar grandes projetos". As desvantagens, para ele, além da distância dos parentes, era a falta de continuidade em cursos de aperfeiçoamento e em atividades físicas. Adepto de esportes, o executivo participa, há dez anos, de provas nacionais e internacionais de rally.

O momento de virada aconteceu quando a antiga empresa convidou Pichini para se estabelecer na Holanda definitivamente e assumir novas responsabilidades. "Percebi que desejava mudar de vida, mais do que de empresa. Segui os instintos de empreendedor e o desejo de formar uma família", conta.

Pichini se casou, criou a companhia que comanda hoje e se tornou pai. Quando precisa, usa a tecnologia para substituir viagens por encontros virtuais – o número de voos caiu de 50 para seis ao ano. "Experimento a continuidade no trabalho e na vida pessoal. Ao mesmo tempo, usufruo do prazer de estar perto de quem amo. Estou vendo meu filho crescer."

Para Paulo Naef, sócio da consultoria de RH Search, não há um "volume ideal" estabelecido, para viagens corporativas. "O que existe é um limite do que cada um considera tolerável. Mesmo para um executivo com disponibilidade, a rotina de compromissos pode se tornar tão intensa que inviabiliza atividades e relacionamentos", afirma.

Geralmente, a decisão de frear o excesso de embarques surge quando os executivos alcançam maturidade e independência financeira, em um estágio de carreira consolidada. "Mas muitos gestores bem-sucedidos acabam se tornando 'reféns' da situação, por conta das posições que ocupam", afirma Naef.

Quando morava em Londres, Julio De Angeli, vice-presidente para a Europa e Américas da EF Englishtown, da área de ensino, fazia três viagens e dormia até 15 dias ao mês em hotéis. As reuniões o levavam para Amsterdã, Xangai e Hong Kong, além de São Paulo e Monterrey, no México. "A maior desvantagem era a desconexão com a família", afirma.

De Angeli é casado e pai de dois filhos. Outros problemas constantes eram a troca de fusos horários e a dificuldade de organizar atividades cotidianas. "Pratico squash e outros esportes. Mesmo fazendo o máximo para aproveitar a estrutura dos hotéis, era difícil manter a parte física em ordem", lembra.

A redução de horas a bordo aconteceu quando o executivo, depois de quatro anos, voltou a morar no Brasil, em 2011. "Continuo no mesmo posto, mas baseado em São Paulo. Quando montei a operação europeia da empresa, vi que fazia sentido voltar." Há 12 anos na companhia, De Angeli também queria definir o lugar onde criaria os filhos. "Decidimos que seria no Brasil, porque estaríamos mais próximos do restante da família e dos amigos. Era hora de diminuir o ritmo."

O executivo deixou uma equipe pronta para entregar os mesmos resultados, e os demais compromissos são resolvidos aqui mesmo, por meio de videoconferências. "As viagens continuam, mas com menor frequência. A comunicação feita pessoalmente com os times ainda é necessária."

Segundo César Kaghofer, representante da Dale Carnegie Training no Brasil, multinacional especializada no treinamento de executivos, a mobilidade pode ser um diferencial importante na carreira, especialmente quando há necessidade de supervisionar unidades distantes. "Em alguns casos, as viagens são inerentes à função". O especialista concorda, porém, que é preciso mudar quando o estresse provocado pelo acúmulo de obrigações prejudica a rotina familiar e o próprio trabalho. "Os solteiros e sem filhos têm mais facilidade para conciliar essas tarefas."

Cássio de Alcântara, gerente regional de vendas da Websense, da área de TI, também vê restrições à performance quando a agenda exige deslocamentos. "Eu gastava cinco horas nos aeroportos, quatro no voo, mais duas em filas de táxis e por volta de seis horas no trânsito entre uma visita e outra", conta. "Com sorte, fazia uma reunião pela manhã e outra à tarde". O executivo passava dez dias ao mês no sul do Brasil, Distrito Federal, Minas Gerais ou no Rio de Janeiro. "Ficava entre o hotel e os clientes e, à noite, colocava os e-mails em dia."

Depois de analisar o custo-benefício das jornadas, Alcântara reduziu as viagens de três ao mês para uma ou duas por trimestre. Para continuar entregando bons resultados, o executivo passou a fazer um volume maior de negócios. "Aproveito o tempo para atingir mais clientes e não perco horas com aeroportos confusos e voos atrasados", ressalta. Além disso, conseguiu tempo para fazer um curso de pós-graduação.

Para Fernanda de Oliveira Pedro, analista de carreiras da Faculdade Ibmec-Minas Gerais, os profissionais estão valorizando mais o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. "Quando o executivo está a serviço em uma outra cidade, dedica 100% do seu tempo à empresa", diz. "Esse dano pode ser minimizado quando a organização oferece condições mais favoráveis, como um período curto de estadia e flexibilidade de horários".

Segundo ela, o profissional deve ficar alerta quando viagens mais longas começam a invadir a vida pessoal e são inconciliáveis com atividades de lazer e de convívio social, além de provocarem danos à saúde.

Mesmo com um aparato tecnológico capaz de substituir a presença física do funcionário em outros locais, Fernanda acredita que o corpo a corpo traz confiabilidade e segurança na hora de fechar negócios importantes. A saída, para ela, é negociar com a direção períodos mais breves de trânsito e visitas externas somente em ocasiões essenciais.
 


*Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 27/12/2012