Meu chefe vai fazer esse treinamento também?

Data 27/06/2012

 

* Por Sérgio David

 

Esta é uma pergunta recorrente em nossos treinamentos e traduz o anseio de muitos participantes que, apesar de líderes, não se sentem em condição de promover grandes transformações no funcionamento da empresa. Entendem que seu líder estaria mais aberto às mudanças, se também recebesse o conteúdo.

Seria o mundo ideal se pudéssemos sempre envolver todos os níveis hierárquicos nos programas de desenvolvimento. Assim, garantiríamos que o conhecimento fosse partilhado por todos de forma igual e consequentemente, a partir de uma ação como esta, a empresa felizarda que tivesse todos os seus funcionários treinados teria, com certeza, uma transformação no comportamento de toda a equipe, correto? Naturalmente, não!

O pequeno detalhe esquecido é que estamos lidando com pessoas. O que significa que o fato de terem recebido o mesmo conteúdo, não garante que todas estejam mobilizadas da mesma forma e estejam igualmente dispostas a rever o posicionamento individual diante dos desafios corporativos. Sem dúvida, potencializaríamos os resultados, mas ainda teríamos de um lado participantes muito empolgados com as ferramentas aprendidas, ansiosos para colocá-las em prática na empresa, e do outro lado colaboradores (independente do nível hierárquico) nada dispostos a mover-se de sua zona de conforto. O que poderia trazer para o participante empolgado a mesma sensação de “banho de água fria” que descreve quando nos pergunta quando o chefe dele fará o treinamento.

Será que o treinamento não foi suficientemente bom? Não se trata disso. Há excelentes empresas de treinamento no mercado, nos mais diversos assuntos, e alguns colegas consultores dessas consultorias narram já terem se deparado com o mesmo questionamento. O problema, possivelmente, reside no fato de que os treinamentos propõem mudanças de comportamento e, muitas vezes, mudar dói.

Segundo Piaget (teórico da Psicologia que estudava o desenvolvimento humano), o processo de aquisição de conhecimento e adaptação ao novo provocam desequilíbrio, uma vez que, de alguma forma, questionam a validade do modelo de conduta já estabelecido. Em outras palavras, mudar de postura pode trazer desconforto por fazer com que o profissional se sinta errado ou até incompetente (consciente ou inconscientemente). E, para quem tem muita experiência na área e/ou num cargo de liderança, sentir-se assim diante da equipe pode trazer um desconforto extra.

Então, quer dizer que não há solução?

Sim, há solução. É preciso ver a situação por um outro prisma. Há empresas que investem muito no desenvolvimento de seus colaboradores, mas nem sempre é possível fazê-lo em todos os níveis, por isso apostam na transformação trazida pelas mãos de alguns agentes de mudança.

Agente de mudança é aquele que dá início ao processo de transformação. Seria, realmente, mais confortável que, ao voltar de um ótimo treinamento, todos no trabalho estivessem falando a mesma língua e tão motivados quanto você para colocar em prática os novos conhecimentos. Portanto, este exercício começa em como fazer funcionar de uma nova maneira aquela parte da engrenagem (processos e pessoas) que depende de você.

Por vezes, pode ser difícil, podendo inclusive provocar comportamentos de resistência e até represália. Contudo, o que se espera de um agente de mudança é que este faça o melhor possível dentro de sua área de atuação, apesar dos contratempos. Com isto, será possível criar o que chamamos de “bolha de excelência”. Dentro desta bolha tudo funcionará da forma mais apropriada e coerente com o novo modelo. Lá dentro, novos conceitos e modelos mentais serão aplicados na intenção de promover a melhoria contínua em busca da excelência na realização do trabalho.

Se cada agente de mudança voltar de um treinamento extraordinário e criar a sua bolha de excelência, logo, outras pessoas se contagiarão pelo efeito e, em algum tempo, a empresa estará envolvida por um processo intenso de transformação. Talvez não seja algo fácil, muito menos rápido de se fazer, mas se você, entre tantos, foi escolhido para iniciar a transformação, acredite, é isso que esperam de você. Seja um agente de mudança em sua empresa.

 


* Sérgio David é trainer e consultor da Crescimentum, formado em Psicologia pelo Mackenzie, com pós-graduação em Gestão Estratégica de Pessoas. Experiência em treinamentos comportamentais com foco em liderança, comunicação, relacionamento interpessoal, atendimento ao cliente e vendas. Palestrante especialista em temas relacionados a comunicação assertiva, desenvolvimento profissional e carreira. Profissional com 11 anos de experiência na área de RH, tendo seu maior foco em desenvolvimento de pessoas. Já treinou mais de 4000 profissionais.

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