Não é tão simples pedir desculpas e admitir erros

Data 08/11/2016

*Por Vicky Bloch

Tenho visto nesses 30 anos como coaching que alguns temas são recorrentes nas conversas com meus clientes. Temas que fazem a diferença para que esses executivos se tornem não apenas pessoas de impacto nos ambientes que lideram, mas que também sejam mais bem-sucedidos e felizes. 

Um deles é a capacidade de pedir desculpas. Sempre chamo a atenção dos clientes sobre a importância de se desculparem, como um ato de reconhecer o erro e mostrar a disposição para mudar. Para muitos executivos, essa atitude não é tão simples – é um ato que exige humildade e autoconhecimento. Exige ainda uma necessidade de autoconfiança para saber que, ao pedir desculpas, o profissional não deixa de ser líder.

Esse movimento também exige uma atenção para os sinais do ambiente – afinal, antes de mais nada é preciso perceber que nosso ato feriu o outro de alguma forma, criou um desconforto. Ao demonstrar esse olhar atento e de empatia, o profissional percebe que, para retomar o controle, terá de admitir sua falha perante seus parceiros. E ir além, deixando claro quais serão suas ações para realizar a mudança necessária e pedindo apoio da equipe para executá-la. A batalha para mudar a percepção do outro sobre as nossas atitudes é grande.

Pense que você está sempre julgando os outros, mesmo que inconscientemente, e que a primeira percepção com relação a alguém é difícil de ser mudada. Se isso é verdadeiro para nós, por que seria diferente a forma como os outros olham nosso comportamento? Por que seríamos menos julgados? Portanto, a aliança com os parceiros pode ser a chave para que iniciemos essa mudança de percepção.

Outro comportamento ligado ao de pedir desculpas é o de ouvir. É a partir da capacidade de auscultar que podemos trazer informações vitais a nossa atenção – inclusive a percepção de que erramos. Ouvir, às vezes, pode parecer uma atuação passiva. Mas não há nada pior do que aquele que se "atira" a falar e atropela conversas, mesmo que na boa intenção. As pessoas que têm dificuldades para ouvir não percebem o ambiente, perdem a oportunidade de ler o cenário, de falar coisas adequadas no momento certo. O ser humano se expressa pelo gesto corporal e pela total atenção a quem está falando.

Ouvir não é abrir mão de falar, é decidir não falar. É ter sabedoria para entender, processar e devolver construtivamente o seu entendimento. E saber agradecer. Sim, saber agradecer, porque esse comportamento exige contato com nossas emoções, especialmente com a da gratidão. Ser grato de verdade, e dizer que é grato, exige novamente humildade! Quando isso é feito genuinamente, põe fim a vários momentos conflituosos. Acaba com mal-entendidos, reduz a frustração e o sentimento de dívida com alguém.

Finalmente, o pedir desculpas está ligado ao reconhecer. Reconhecer aqueles que contribuíram para que você ficasse melhor, aprendesse e fosse reconhecido. Reconhecer que não somos perfeitos, que erramos e corrigimos erros.

É recorrente o comportamento de tomar conta da ideia do outro no mundo do trabalho. E isso é destruidor! É preciso ter consciência de que quando não reconhecemos o outro, não promovemos nele o sentimento de realização. Isso é amputar uma pessoa, é não permitir que ela desfrute do prazer de ter feito algo que mudou para melhor o ambiente, o mundo.

Um "simples" pedido de desculpas – desde que genuíno e não da boca para fora – exige maturidade, real interesse pelas pessoas e paciência consigo mesmo. Ao desconsiderar esses comportamentos e nos colocarmos no papel de intocáveis, podemos destruir relações Preste atenção nas suas próprias atitudes. Pode ter certeza que, ao pedir desculpas, você não enfraquece. Ao contrário, sai bem mais forte.

*Vicky Bloch é professora da FGV, do MBA de recursos humanos da FIA e fundadora da Vicky Bloch Associados.

Esse artigo foi publicado no site Valor Econômico, em 03/11/2016

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