Negros ocupam apenas 5,3% dos cargos executivos das 500 maiores empresas do Brasil, revela Instituto Ethos

Data 24/11/2010

 

O Brasil está caminhando para se tornar uma das maiores economias do mundo. E muito disso se deve ao desempenho de setores da indústria e do segmento de prestação de serviços. No entanto, segundo mostra o Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil, resultado de uma pesquisa realizada pelo Instituto Ethos pelo Ibope Inteligência, questões ligadas à diversidade e a inclusão não batem cartão na maioria das empresas. A pesquisa revelou que, entre os cargos executivos, 13,7% são mulheres, apenas 5,3% são negros e 1,4% é amarelo. Os indígenas aparecem apenas no quadro funcional, mesmo assim com 0,3%. Para ler a pesquisa completa, basta clicar aqui.

Ao comentar a diferença no quadro por cor ou raça, o vice-presidente Executivo do Instituto Ethos, Paulo Itacarambi, ironizou: "Nos cargos de executivo, vemos uma notícia boa na participação dos negros, em 2001 era de 2,6% e em 2010 é 5,3%. Ou seja, em termos incrementais, temos uma mudança. Mas 5,5%!? O que é isso?".

Segundo ele, também “é possível perceber uma tendência de crescimento de participação das mulheres [nos cargos executivos], o que é uma boa notícia",. Mas, durante o lançamento do perfil na semana passada, Itacarambi chamou a atenção que “a má notícia é a diferença entre homens e mulheres. Não tem explicação. E se tem, não convence."

O especialista chamou a atenção que, apesar das mulheres terem 7,4% a mais em anos de estudo quando comparadas aos homens, elas estão em poucos cargos de chefia. Itacarambi foi bem direto. "Tem uma dificuldade para superar isso", analisou. "Certamente é cultural, é de natureza econômica, tem o preconceito, aquele problema de você ser mandado por uma mulher. Porque na sociedade as mulheres estão avançando mais. Está aí o resultado da votação da presidente."

Ações afirmativas

Na parte do estudo que apurou as políticas e as ações afirmativas das empresas com vistas à inclusão, os gráficos seguem preocupantes. Ainda pegando os cargos executivos como exemplo, 62% das empresas não possui qualquer medida de incentivo para uma maior participação das mulheres, e 72% delas afirmaram não trabalhar para o aumento do número de executivos negros. "Esse o quadro. Então perguntamos para os presidentes das empresas como eles o veem", disse Itacarambi, referindo-se ao capítulo do estudo referente à percepção dos presidentes das companhias entrevistadas. "E o que nos entristece é que um percentual muito grande de empresários diz que está adequado."

Mais especificamente 45%, no caso tanto das mulheres quanto dos negros. "Com isso, a gente pode concluir que a pessoa também não está com disposição de investir, não é somente a empresa", analisou o vice-presidente Executivo do Ethos. "Porque uma das explicações poderia ser que o presidente mostra-se aberto para promover mudanças, mas tem dificuldades. Afinal, não é só porque o presidente quer que as coisas aconteçam – há recursos para investir, convencimentos para fazer, ações para realizar. Mas os números mostram que o presidente também não está interessado."

Incongruência nas respostas

Já os que responderam que a situação poderia melhorar acabaram tropeçando na hora de dar o passo seguinte, ou seja, expressar os motivos. "No caso das mulheres, de acordo com as respostas, o problema está nelas", provocou Itacarambi. "Porque 42% dos presidentes responderam que falta qualificação profissional para elas." Porém, com uma média maior de anos de estudo, a resposta, segundo o especialista, fica pouco próxima da verdade. "A não ser que as universidades estejam formando pessoas sem qualificação", prosseguiu. "Seria uma hipótese. Mas aí eu pergunto: só no caso das mulheres?".

A outra possibilidade, concluiu, é que a resposta "não está contemplando o real motivo". "Ou seja, a razão é outra e a pessoa está pensando com essa cabeça, não investigou direito."

A falta de qualificação também foi o motivo apontado por 61% dos empresários para justificar o baixíssimo número de executivos negros em seus quadros.

Instrumento de mudança

A despeito dos resultados polêmicos, o executivo Oded Grajew, presente no lançamento na qualidade de presidente emérito do Instituto Ethos, destacou a importância da pesquisa como instrumento de mudança. "Se vocês olharem ao longo da história, as lideranças religiosas, políticas, figuras reconhecidas, todas elas tinham um coisa em comum: todas empunharam a bandeira da justiça social", comentou. "E essa bandeira não é fácil de carregar, porque se é para levar a sério, se é para transformar, você enfrenta muita resistência."

A coordenadora de Sustentabilidade da Philips do Brasil, empresa patrocinadora da pesquisa, juntamente com o Instituto Unibanco, Renata Macedo, também mencionou a dificuldade de arrancar certas raízes do solo corporativo. "É uma batalha", admitiu. Porém, otimista, valorizou o fato de as empresas terem dado "abertura para que isso [a pesquisa] aconteça". Renata também atentou para a relação entre a sustentabilidade – do ponto de vista da inclusão – com o modelo de negócio das empresas. "Trabalhar a diversidade nas organizações é desenvolver inovação", associou. "Porque quanto mais diversidade houver, mais haverá também representatividade, dentro das empresas, de quemsão os nossos próprios consumidores."

O levantamento, em sua quinta edição, conta com a parceria da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A edição de 2010 teve apoio institucional da ONG Atletas pela Cidadania e da Inter-American Foundation (IAF).

Também estiveram presentes no lançamento do perfil o coordenador do curso de direito da Faculdade Zumbi dos Palmares, Hédio Silva Júnior, o diretor de Planejamento e Atendimento do Ibope Inteligência Helio Gastaldi Filho, a gerente do Unifem Júnia Puglia, o presidente da Atletas pela Cidadania, o ex-jogador de futebol Raí Oliveira, e o presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão.

Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 18/11/10.