O homem certo no lugar certo

Data 20/04/2011

 

* Por Júlio Pompeu

O homem certo no lugar certo é quase um mantra de recursos humanos. Significa detectar habilidades e distribuí-las bem pela empresa. Foi tomada como novidade na segunda metade do século XX, pois até então se acreditava que uma mente racional – entenda-se, nas entrelinhas, mais racional do que as outras – deveria dominar as demais. Muitos ambientes de trabalho foram projetados para este tipo de domínio. Amplos salões onde cada funcionário poderia ser vigiado e corrigido constantemente pelo chefe. O bom trabalho era o realizado de acordo com um padrão e seguindo à risca um protocolo, manual ou ordens sempre estritas. Se algum desavisado ousasse agir por conta própria era lembrado de que não lhe pagavam para pensar, mas apenas para obedecer. Numa empresa assim, não há homem certo para lugar certo. Qualquer um seria apto a qualquer trabalho, desde que obedecesse determinadas ordens. A única virtude do trabalhador seria a submissão irrestrita.

Mas esses são outros tempos. Ou, pelo menos, para a maioria das empresas, as coisas não funcionam mais assim. A iniciativa dos trabalhadores é bem-vinda. São até chamados de colaboradores. A empresa não é mais apresentada por um dono que fala da "SUA empresa", mas agora ela se tornou a "NOSSA empresa". A coisa funcionava na base do “mando eu e obedece quem tem amor pelo emprego”. Assim, a ética na organização consistia na anulação do trabalhador como um sujeito e a sua conversão em objeto. Aquele que mais resignadamente se encaixava nas atividades que lhe fossem determinadas era o virtuoso, o funcionário do mês. Mas quando o trabalhador passa a ser considerado sujeito ativo do processo produtivo, a ética na empresa deve ser outra. Passividade e obediência deixam de ser virtudes e se tornam defeitos do trabalhador. Sinal de que é o homem errado na empresa errada. Virtuoso agora é o que sabe usar bem as suas habilidades e talentos. Ao chefe, agora chamado de líder, o melhor que poderia fazer é bem distribuir os talentos pela empresa. Colaborador certo no lugar certo.

O curioso é que esse novo mundo não é tão novo assim. Nos séculos I e II da era cristã, os estóicos acreditavam que a vida de todos e de cada um seria melhor se nós aprendêssemos a viver de acordo com nossa própria natureza. Isso significava conhecer e cuidar bem de si mesmo para bem ajustar-se à vida. O caminho para chegar lá era difícil e trabalhoso. Um esforço constante para aprender a fazer com que as próprias escolhas racionais se impusessem sobre as paixões e a influência dos outros. Ao mestre cabia o papel do líder, que avisa, com franqueza, ao discípulo sobre seus erros, suas más escolhas e lhe pergunta o tempo todo se está fazendo algo em que realmente quer ou por que foi influenciado pelas paixões efêmeras. Só há excelência no que se faz da própria vida, incluindo o trabalho, se ela for vivida com autenticidade. Homem certo na vida certa.

A lição dos estóicos é que se quisermos realmente colaboradores e não mais empregados acéfalos, então não devemos esperar que isso aconteça por encanto. É preciso, naturalmente, esforço e incentivo para que as pessoas aprendam a trabalhar autonomamente não cedendo nem a impulsos e desejos contraproducentes e nem se acomodando em realizar o trabalho sempre do mesmo jeito só porque lhe disseram um dia que assim é que era para ser feito. Também não basta colocar o homem certo no lugar certo, o líder deve assumir o seu dever ético e guiar seu colaborador não para a obediência, mas para o exercício constante da autonomia.

Júlio Pompeu é graduado em Direito e em Filosofia, mestre em Direito e doutorando em Psicologia. Atualmente preside o Conselho de Ética Pública do Estado do Espírito Santo e leciona ética na Universidade Federal do Espírito Santo. Com a finalidade de tornar a filosofia, em especial a ética, acessível ao grande público, oferece cursos e palestras na Casa do Saber do Rio e de São Paulo e em órgãos públicos e empresas desde 2004 sobre Filosofia moderna e contemporânea.