O Profissional do/de Futuro

Data 09/06/2010

 

*Por Victor Mirshawka Junior

Um dos assuntos que mais me intriga é a definição do perfil do Profissional do/de Futuro.

Explique-se antes: definir o que é Profissional do Futuro significa projetar algumas tendências e determinar como será o perfil profissional adequado a qualquer profissional caso as mesmas se confirmem. Definir o que é Profissional de Futuro implica em analisar o perfil de alguém no presente, e concluir se este alguém “tem futuro”, pois apresenta potencial para se desenvolver em direção às tendências projetadas.

Respeitando a baixa probabilidade, quase impossibilidade, de prever os próximos dois, cinco ou dez anos, pela natureza do mundo moderno, ainda assim, arrisco abaixo um esboço da figura deste profissional.

O Profissional Tecnológico

Que vantagens têm um profissional capaz de utilizar de forma produtiva os recursos tecnológicos disponíveis? Seguramente, muitas, se considerarmos que a tecnologia nos permite, apenas do ponto de vista computacional:

  • acessar imensas bases de dados, sobre virtualmente qualquer assunto;
  • realizar pesquisas comparativas nestas bases, com um crescente grau de “inteligência”, ou seja, refinamento nas conclusões;
  • comunicação imediata e com custo cada vez menor, com qualquer um em qualquer parte do globo;
  • simulação de cenários através de sofisticadas ferramentas de cálculo;
  • documentação digital e disponibilização para acesso de qualquer tipo de evento;
  • organização, armazenamento e maneiras criativas de apresentação do raciocínio / pensamento.

Se enveredarmos para a robótica, ou outras áreas tecnológicas, como a bioengenharia, nos bastaria lembrar da recente proibição feita a um corredor de curtas distâncias, que, pela deficiência dos membros inferiores, utiliza duas próteses em lugar de pernas. Ele foi impedido de competir nas olimpíadas, pois comprovadamente as próteses lhe dariam vantagens sobre os outros corredores humanos normais. Este fato, por si só, denota uma revolucionária quebra de paradigmas, onde o humano vê a necessidade de se preservar ante o robótico, pois a competição se torna inviável.

O Profissional Competente

Há muito as empresas vêm implantando sistemas de gestão baseados no conceito de competência, ou seja, de forma resumida, a junção de conhecimento, habilidade e atitude.

Cada corporação define o conjunto de competências que seus funcionários precisam ter / desenvolver, e utiliza esta definição como padrão para contratar e formular seus planos de treinamento. Além disso, usa o mesmo padrão para avaliar o desempenho dos seus funcionários. Entre as competências mais comumente citadas, aparecem: liderança, motivação, criatividade / inovação, flexibilidade, agilidade, iniciativa, etc…

Espera-se que o profissional do futuro esteja precisamente conectado com este conceito, de modo a saber como se desenvolver e desempenhar em várias destas competências. Ser proficiente em todas não é muito provável, todavia.

O Profissional Talentoso

O passo seguinte à abordagem das competências se dá quando surge a percepção do Talento. Segundo o dicionário, Talento pode ser visto como: agudeza de espírito, disposição natural ou qualidade superior. Informalmente, entendemos como Talento aquilo que se destaca do comum, a demonstração de uma enorme capacidade ou proficiência na consecução de um trabalho, tarefa, arte ou ofício. Para as empresas, efetivamente, Talento vem a ser a capacidade de atingir resultados extraordinários, acima da média. Este profissional existe? Certamente, mas em pequena escala, e só pode ser contratado, e mantido, a partir de um pacote que reúna desafio e recompensa suficientes. E do nosso ponto de vista, como reconhecer e desenvolver Talento?

A maneira mais simples consiste em responder às seguintes perguntas:

O que eu mais gosto de fazer?

O que eu faço melhor?

Se a resposta à primeira e à segunda pergunta for a mesma, aí está um bom indício de um Talento. E se, por conseqüência, pudermos receber alguma remuneração para fazer isto, este será um Talento corporativo.

O Profissional Humanista

A importância crescente do tema das Humanidades tem que ser reconhecida no contexto do trabalho. A profusão de livros que tratam de temas correlatos, como a filosofia e suas aplicações no mercado, a espiritualidade no ambiente de trabalho, a liderança servidora, a preocupação sócio-ambiental, a ética e os valores coerentes, demonstra que estes temas / assuntos deverão se incorporar na definição do profissional ideal. Isto se percebe nas declarações de visão, missão e valores de muitas empresas, que capitaneiam a mudança de um modelo de trabalho utilitarista e mecanicista, para outro, mais holístico e baseado principalmente em visão sistêmica e estratégica.

O Profissional Artista / Culto

A formação especialista / especializada ainda tem seu lugar garantido. Mas os profissionais que, além de toda sua bagagem obrigatória, destinarem um pouco de atenção / tempo, ao assunto das artes, da cultura geral, do senso de apreciação estética, possivelmente terão uma sutil vantagem. Temos percebido, por exemplo, a importância que o design assumiu na área industrial, haja vista a mudança de conceitos. A forma bela e apreciável num computador vale quase tanto quanto seu poder de processamento na decisão de compra. O recente crescimento da procura pelos artigos de luxo, ou pelas vivências ligadas ao belo ou prazeroso, na gastronomia, por exemplo, prenunciam tempos em que o desempenho, por si só, não bastará. A beleza, a relevância da mensagem, e outros assuntos antes relegados apenas aos de alma sensível, artistas, começam a ocupar espaços no mercado.

Neurociência e o Profissional do/de Futuro

Temos repetido e visto repetir à exaustão a mensagem de que a ciência nunca avançou tanto. Certamente. Mas o que nos assusta, positivamente, são os avanços no entendimento de como funciona o órgão mais importante do corpo humano: o cérebro. E a pesquisa tem enormes impactos, não só na área médica, mas também na área educacional, e por conseqüência, na competição profissional. A compreensão sobre como funciona o cérebro tem permitido o desenvolvimento de novos modelos de ensino aprendizagem, destinados a impactar no desenvolvimento individual, em tudo o que diz respeito às nossas capacidades mentais, intelectuais e de pensamento em geral.

O profissional do/de futuro deverá ter um profundo conhecimento sobre como se auto desenvolver, à luz destes avanços neurocientíficos. Alguns pesquisadores chamam a esta capacidade de Alfabetização Mental, ou saber como utilizar com o máximo eficiência o cérebro, nas tarefas de memorização, articulação de raciocínio, manifestação e comunicação dos pensamentos e criatividade. Outros chamam a isso de Gestão do Pensamento, ou seja, saber como escolher, dentro de um sensível repertório, a melhor maneira de usar os recursos de pensamento / raciocínio.

Foco em Resultados

Finalmente, na definição de profissional do/de futuro, continuará figurando a importância do profissional realizador, ou seja, aquele que efetivamente materializa as idéias, que as transporta do domínio dos sonhos para o mundo dos resultados.

Certamente, não tratamos aqui de todas as perspectivas possíveis para definir / enxergar a figura deste profissional dos próximos anos. 

Todavia, os poucos temas citados acima já constituem desafio suficiente para nosso esforço diário de educação e desenvolvimento.

Victor Mirshawka Junior é diretor de pós-graduação da FAAP e autor de livros nas áreas de Qualidade e Criatividade.