Os desafios da liderança global

Data 21/05/2013

 

LG: O que é liderança global? 

Glaucos Antunes:
Antes de dizer o que é Liderança Global vamos entender o cenário atual. Hoje sabemos que a economia global está aqui para ficar e que trouxe novas exigências relacionadas a maneira de liderar. Os líderes precisam lidar de forma efetiva com diferentes dimensões e visões de mundo. Por conta da interação com o tempo, a distância e a cultura, os líderes enfrentam um alto nível de complexidade global que não existia nos modelos tradicionais de desenvolvimento de liderança. Portanto, Liderança Global é aquela que é eficaz com diferentes culturas, países, distâncias, que inspira e ainda compartilha está liderança.

LG: O relatório de previsão de crescimento dos países, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em março deste ano, apontou que as economias emergentes estão crescendo em um ritmo muito mais rápido do que em alguns países desenvolvidos. Como isso reflete nas empresas que atuam no Brasil?

Glaucos Antunes: Como o próprio nome diz ele é um relatório de previsão e este crescimento não é tão acelerado assim, principalmente, no Brasil. Temos algumas perspectivas distintas para analisar nesta pergunta.
A primeira é que o fato da economia dos países emergentes crescer mais rápido que a dos países desenvolvidos gera novas possibilidades de emprego que se encaixam com o desemprego dos países desenvolvidos.
A segunda é que estas empresas buscam profissionais estrangeiros que normalmente são melhores preparados que os profissionais brasileiros, por motivos já conhecidos de todos, como baixíssimo nível educacional no Brasil etc. A terceira é que as empresas que não buscam força de trabalho especializada em outros países perdem esta experiência que poderia ser trazida por estes profissionais.

LG: Devido a esse crescimento, as grandes multinacionais estão migrando para países emergentes.  E, ao mesmo tempo em que esse movimento gera mais empregos e oportunidades, os gestores passam por novos desafios, como por exemplo, a dificuldade de lidar com equipes multiculturais e globais. Em sua opinião, quais são os maiores desafios que a liderança global impõe aos gestores?

Glaucos Antunes: O líder que sai do seu local para trabalhar em outra cidade, estado e principalmente em outro país sofre um alto impacto cultural e necessita:

– Procurar soluções para minimizar o choque cultural, a insegurança e a percepção de desamparo que invariavelmente acontece durante experiências interculturais;
– Comunicar-se efetivamente através das fronteiras, fuso horário, idiomas e culturas;
– Alcançar aceitação e credibilidade em ambientes culturais diversos;
– Inspirar e motivar funcionários com diferentes experiências;
– Tomar decisões de maneira compartilhada.

LG: Quais habilidades um gestor precisa ter para se tornar um líder global?

Glaucos Antunes: O líder global necessita de um alto nível de autoconhecimento para poder entender e lidar com as muitas experiências culturais que aparecem durante o período em que estiver trabalhando neste novo local. Outros fatores também muito importantes são:

O Desejo de Participar – O líder precisa ter vontade de participar deste cenário que para ele é novo.
Pensamento Contextual – Habilidade para entender o contexto e não apenas a linguagem falada.
Tolerância a Ambigüidade – Trabalhar com maturidade em relação a incerteza e a mudança.
Apreciar a diversidades cultural – Os líderes do futuro precisam gostar da diversidades cultural, dos diferentes estilos de liderança, estilos das indústrias, dos comportamentos individuais, e dos valores, raças, sexos.

LG: Em sua opinião, quais são os principais gaps que os gestores brasileiros possuem se comparados a gestores de países desenvolvidos? E como solucioná-los?

Glaucos Antunes: O primeiro destes gaps, sem a menor sombra de dúvida, é o idioma. Não temos uma cultura de aprendizado de outras línguas. Segundo uma pesquisa da Global English que consultou 108 mil trabalhadores, o país ocupa a 67ª posição entre 156 nações do mundo, em termos de fluência do idioma Inglês em ambiente empresarial. Este desempenho é o pior entre os emergentes. A média do brasileiro numa escala de 1 a 10 é 2.95, quando a média mundial é 4.15. Os brasileiros com esta pontuação estão em um nível no qual não conseguem entender ou comunicar informações básicas durante uma conferência, tanto por telefone quanto pessoalmente.

O segundo gap é a falta de intercâmbio com outras culturas. Somos um país continental e isso não ajuda neste aspecto.

O terceiro gap é a dificuldade de entrada de trabalhadores estrangeiros no Brasil. Segundo estudos a população atual de imigrantes no Brasil soma meros 0,3% (43% maiores de 60 anos). A média no mundo é de 3%; a da América Latina, 1,5%, e a dos EUA, 15%. Segundo a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República esse “fechamento” deve ser revertido para responder à demanda crescente por profissionais altamente qualificados.

E por último, a falta de competência intercultural destas lideranças.

LG: As universidades brasileiras têm conseguido formar gestores globais capazes de suprir a demanda mercadológica?

Glaucos Antunes: Se fizermos uma rápida pesquisa no Google teremos a exata imagem do que acontece neste aspecto: não há no nosso mundo universitário formações para lideranças globais. As formações de Lideranças Globais, bem como a de Competência Intercultural são normalmente oferecidas por empresas privadas.

LG: Quais resultados uma equipe multicultural pode trazer para a empresa e para o desenvolvimento dos profissionais?

Glaucos Antunes: A equipe intercultural quando treinada adequadamente produz resultados significativamente melhores que uma equipe unicultural. Os membros desta equipe multicultural ao receberem treinamentos para aumentar a consciência intercultural conseguem entender aspectos que antes não enxergavam. Como diz Edward T. Hall: a cultura esconde mais do que revela e o que esconde, ela esconde do próprio povo.


Os desafios da liderança global

*Glaucos Antunes é especialista em lideranças globais e treinador e formador  profissional de equipes interculturais, Master coach intercultural e palestrante. CEO da GA Intercultural Development, escreve para portais, revistas e jornais.

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