País não vive apagão de mão de obra, dizem pesquisadores

Data 24/08/2011

O Brasil não vive um apagão de mão de obra generalizado, fenômeno caracterizado pela escassez de profissionais para ocupar postos de trabalho que exigem maior qualificação.

Ao menos esta foi a conclusão de três especialistas em mercado de trabalho que apresentaram seus estudos nesta sexta-feira em seminário realizado no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no Rio.

Marcelo Neri (FGV), Paulo Meyer Nascimento (Ipea) e João Sabóia (UFRJ) concordaram com a tese de que a escassez de mão de obra é localizada só em alguns setores da economia.

Nascimento mostrou que há indícios de que o problema esteja acontecendo na área de engenharia, pois houve aumento no emprego de profissionais com mais de 50 anos e crescimento da renda dos engenheiros acima da média dos demais profissionais universitários.

Esses são sinais de que o mercado está retendo e pagando mais por trabalhadores que não consegue encontrar com facilidade no mercado. Para o pesquisador do Ipea, no entanto, é um erro generalizar esta situação para todos os setores.

Segundo ele, o país passa por um processo natural de ajuste do mercado após anos de estagnação. No nível técnico, por exemplo, ele argumenta que as matrículas em cursos profissionalizantes mais que dobraram de 2000 para 2010, um indicador de que o país está formando quadros mais qualificados para atender a demanda crescente do mercado.

Renda

Marcelo Neri, da FGV, afirma que um indicador de que a escassez não é generalizada é que, na década passada, houve aumento na renda média dos trabalhadores analfabetos, e queda entre os que possuem nível superior.

Num quadro de escassez generalizada de trabalhadores qualificados, o esperado seria o aumento do salário médio dos trabalhadores com nível superior, pois haveria mais demanda do que oferta de mão de obra.

Neri argumentou que há, sim, escassez de mão de obra para setores básicos do mercado de trabalho.

Mas trata-se, em sua opinião, de um efeito colateral de um movimento positivo: "O filho do peão ou da empregada doméstica consegue hoje concluir o ensino médio e não quer a mesma ocupação dos pais. É a inflação da educação. As pessoas terão que pagar mais por esses serviços."

Essa notícia foi publicada no Folha Online, em 23/08/2011.